Dia Nacional do Bumba-Meu-boi

Urrou o Boi!

Professora, e pesquisadora cultural, Letícia Cardosos, faz homenagem ao Dia Nacional do Bumba-Meu-boi

Por Letícia Conceição Martins Cardoso

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h16
Apresentação do Boi de Maracanã
Apresentação do Boi de Maracanã (Boi de Maracanã)

São Luís – Comemorado nesta quarta-feira, o dia 30 de junho é a data de celebração do Dia Nacional do Bumba-Meu-Boi. Considerado Patrimônio Cultural do Brasil, a manifestação cultural que une em seus rituais o lúdico e o religioso, é uma das principais manifestações populares praticadas no país, e um dos mais importantes símbolos da cultura maranhense. Em celebração a data, que neste ano ocorre de forma diferente, sem as festas e as danças nas ruas da cidade, a professora e pesquisadora Letícia Cardoso, homenageia esse dia de grande tradição cultural para o Maranhão. Veja abaixo.

URROU O BOI!

Quando o Boi urra significa que ressuscitou. É um momento de celebrar a alegria de todos pelo restabelecimento do animal, uma metáfora da vitória da vida sobre a morte. O "Urrou do Boi" é caracterizado por diversas toadas, de louvação aos santos, de homenagem a personalidades públicas, de evocação da natureza e do amor, de exaltação à cultura, à história e ao povo brasileiro, de temas sociais, atuais e polêmicos, de disputas com outros grupos, enfim, um elenco de toadas que expressam as opiniões, os valores e as ideias da gente que faz o Bumba-boi.

Talvez, por isso, Câmara Cascudo tenha descrito o Bumba meu boi como uma espécie de "jornal popular", que faz representações de fatos importantes para a comunidade que o integra, destacando a apropriação de novos temas e a volatilidade desse auto brasileiro, capaz de substituir personagens e ideias, excluir e incluir elementos em voga em cada época, uma dinâmica de adaptação que sustenta e revigora a permanência das manifestações de caráter popular (CASCUDO, 1972, p. 142).

O urro do Boi pode ser considerado o ápice da representação, o momento por excelência em que o grupo se comunica de forma direta com a sociedade e deixa seu recado. O urro significa o grito da resistência, do sofrimento, do desabafo, da luta, mas também, da esperança, da alegria e do prazer bradado pelos setores populares, que têm pouco protagonismo nos discursos midiáticos, mas que fazem da sua produção cultural uma forma complexa de comunicação com toda a sociedade, um modo de se fazer entender, de interagir e dialogar com setores sociais que costumam ignorar os brincantes como sujeitos ou só conseguem enxergá-los de um ponto de vista caricato, como adorno exótico de uma cultura, a serviço do turista e de suas câmeras fotográficas.

Pensando sobre esse processo de comunicação das culturas populares na sociedade contemporânea, Canclini (1983, p. 43) afirma que o povo produz no trabalho e na vida formas específicas de representação, reprodução e reelaboração simbólica das suas relações sociais. O que me leva a dizer que, por um lado, o Bumba meu boi, é resultado da organização do sistema capitalista e das estratégias dos setores hegemônicos sobre seus membros (práticas profissionais, familiares, comunicacionais). Por outro lado, o Bumba-boi resulta das formas de pensamento mediante os quais os brincantes concebem e expressam sua realidade, seu lugar (em geral) subordinado na produção, na circulação e no consumo; decorre, também, da criação de práticas e táticas próprias, não só em resposta às estratégias predominantes, mas segundo as necessidades e os interesses dos sujeitos-brincantes. Assim, o Bumba meu boi como grande festa popular no Maranhão compartilha as condições gerais de produção, circulação e consumo do sistema capitalista em que está inserido, internalizando as concepções das classes dominantes, ao passo em que também estabelece relações de forma consciente e ativa nesse contexto (com o mercado, com a política, com a mídia), criando suas próprias estruturas, suas representações, suas formas de comunicação. Urrou, urrou, meu novilho brasileiro, que a natureza criou!

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