Declarações controvertidas

Em Londres, Trump chama o prefeito de ''fracassado''

Em meio à disputa pelo cargo de primeiro-ministro, visita do presidente americano é alvo de protestos pelo país; Ele fez elogios rasgados a Boris Johnson, um dos defensores mais radicais do Brexit e rival de May no Partido Conservador

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h24
A primeira-dama Melania Trump, a rainha Elizabeth II e o presidente Donald Trump, em visita de boas-vindas
A primeira-dama Melania Trump, a rainha Elizabeth II e o presidente Donald Trump, em visita de boas-vindas (Reuters)

LONDRES - O presidente Donald Trump desembarcou ontem no Reino Unido para uma visita de Estado de três dias. A viagem do líder americano vem em um momento sensível para o país, em meio à divisão sobre o Brexit e à disputa no governista Partido Conservador para decidir quem será o substituto da primeira-ministra Theresa May, que deixará a liderança da legenda em 7 de junho. A premier britânica anunciou sua renúncia no final do mês passado, após consecutivas derrotas parlamentares do plano que apresentou para a saída britânica da União Europeia.

Na véspera de seu desembarque em Londres, Trump já havia dado declarações controvertidas, defendendo que o Reino Unido saia da UE sem acordo e sem pagar os US$ 50 bilhões que deve ao Orçamento do bloco. Ele também fez elogios rasgados a Boris Johnson, um dos defensores mais radicais do Brexit e rival de May no Partido Conservador, e ao ultranacionalista Nigel Farage, opositor da primeira-ministra.

Ontem, antes de desembarcar, ele voltou suas baterias contra o prefeito de Londres, Sadiq Khan, que em um artigo publicado no fim de semana no jornal The Observer comparou Trump aos "fascistas do século XX". O prefeito, do Partido Trabalhista, incluiu o americano no mesmo grupo que os extremistas de direita Viktor Orbán, da Hungria, Matteo Salvini, da Itália, Marine Le Pen, da França, e o próprio Nigel Farage, líder do Partido do Brexit.

Em resposta, o líder americano tuitou ainda mesmo do avião. "Sadiq Khan, que faz um péssimo trabalho como prefeito de Londres, tem sido insensatamente 'desagradável' com o presidente dos Estados Unidos, de longe o aliado mais importante do Reino Unido", escreveu. "Ele é um fracassado total que deveria se concentrar no crime em Londres, não em mim".

Em resposta, Khan retuitou um vídeo que gravou para a revista Elle, defendendo a igualdade de gênero e dizendo que "homens também devem ser feministas". Segundo Khan, os valores socialmente conservadores de Trump vão na contramão daquilo que a cidade de Londres defende.

No início de 2018, a Casa Branca cancelou o que seria a primeira viagem do presidente a Londres por medo de protestos programados. A visita acabou acontecendo meses depois. Várias manifestações contrárias ao americano estão previstas para esta semana, a maior parte delas na terça-feira, quando ele se reunirá com May. Uma pesquisa recente do instituto YouGov mostrou que cerca de 67% dos britânicos têm opiniões negativas sobre Trump, contra 21% favoráveis a ele.

Manifestantes foram vistos já na chegada de Trump ao Palácio de Buckingham, na manhã desta segunda. Auriel Granville, uma ativista do meio ambiente, disse à rede BBC que foi ao palácio por ser contra as políticas ambientais da Casa Branca.

"Eu acho que ele não deveria ser recebido dessa maneira, as mudanças climáticas deveriam ser pauta principal e Trump nega o aquecimento global", disse a mulher, vestida como uma Estátua da Liberdade.

Farage criticou os movimentos contrários ao presidente em seu Twitter na manhã desta segunda, afirmando que os britânicos devem receber bem o "líder democraticamente eleito do mundo livre" e dar "boas-vindas que condizem com o status do cargo e de um grande país"

Comércio e Huawei

Apesar do mau momento, a visita de Trump é vista como uma ocasião de celebração da "relação especial" entre os Estados Unidos e a antiga metrópole. Até nos temas menos superficiais da visita, no entanto, há problemas.

O Reino Unido, e especialmente os defensores do Brexit, apostam em uma relação comercial fortalecida com os Estados Unidos, possivelmente com um acordo de livre comércio, depois que a saída do país da UE se concretizar. No entanto, como o protecionismo tem sido a marca do governo de Trump, que abriu guerras comerciais com vários países, analistas vêm advertindo para os riscos da aposta dos britânicos, afirmando que Washington pode impor a Londres um acordo desfavorável.

Nos últimos dias, surgiram indicações de que em um acordo comercial os americanos pediriam que os britânicos baixem seus padrões agrícolas e alimentares para permitir a entrada de produtos dos Estados Unidos. A desconfiança foi agravada por uma entrevista do embaixador americano, Woody Jonhson, que disse que todos os setores econômicos estariam na mesa em uma negociação.

A visita de Trump também será marcada pelas pressões americanas para que Londres não permita que a companhia chinesa Huawei participe da implantação da rede de telefonia 5G no Reino Unido. O governo americano vem ameaçando deixar de repassar informações de inteligência para os britânicos — que fazem parte da Aliança Cinco Olhos com Austrália, Canadá e Nova Zelândia — caso a maior companhia chinesa de tecnologia de comunicação tenha permissão para atuar no país.

Encontro com realeza

Logo depois de sua chegada, Trump participou de uma reunião com a rainha Elizabeth II, seguida por um almoço privado. Durante a tarde, ele deverá tomar chá com o príncipe Charles e com a duquesa Camila após realizar um tour na Abadia de Westminster. O primeiro dia da visita terminará com um banquete oficial oferecido com todas as honras pela monarca de 93 anos.

O almoço oficial deverá ter a participação do príncipe Harry, cuja esposa, a duquesa Meghan Markle, Trump chamou de “desagradável”, dias antes de sua viagem a Londres. Meghan, que está em licença maternidade, não participará do evento, mesmo sendo americana.

"Eu não sabia disso. O que posso dizer? Eu não sabia que ela era desagradável —mas logo emendou que Meghan seria “uma princesa americana muito boa”. "É legal, e tenho certeza que ela vai se sair muito bem. Ela vai ser muito boa. Espero que ela tenha sucess"o.

A ex-atriz apoiou Hillary Clinton na corrida presidencial de 2016 e na época chamou Trump de “misógino”. Ela até brincou sobre se mudar de vez para o Canadá, onde a série “Suits”, em que atuava à época, era filmada, se Trump vencesse a eleição.

Jonhson lança candidatura

Johnson, o favorito a suceder May na liderança conservadora, lançou sua campanha nesta segunda-feira, com um vídeo no Twitter. O ex-ministro prometeu que irá liderar a saída do país da União Europeia no dia 31 de outubro, prazo final para um acordo, com ou sem um acordo de saída.

"Corte os impostos e traga mais dinheiro para dentro", ele diz no vídeo a um membro do público, ao defender mais investimentos para a educação, infraestrutura e saúde. Na semana passada, Johson foi convocado para responder às acusações de ter mentido deliberadamente durante a campanha do referendo de 2016 sobre o Brexit.

Há a expectativa que Trump se encontre com Johnson e com Farage durante sua estadia no Reino Unido. Se um encontro com Johnson poderá ser considerado interferência política, visto que há outros 12 candidatos na disputa pela substituição de May, uma reunião com Farage poderá ser entendida como uma ofensa diplomática, segundo a Bloomberg, dada a oposição do eurocético ao governo conservador.

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