O "Labanca" que virou banca

"Labanca": uso, auge e decadência das bancas de revista em São Luís

Estrutura montada para dispor jornais e outros acessórios ganhou pompa; no entanto, por concorrência e organização urbanística, está praticamente sumindo

Thiago Bastos / O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h25

[e-s001]Século XIX, e o Brasil recebia, em massa, grande contingente de imigrantes italianos oriundos, em especial, das regiões cujas práticas agrícolas entravam em decadência. Uma destas pessoas foi Carmine Labanca, que, jovem e sem profissão, ao chegar à capital carioca decidiu vender jornais em ruas e avenidas.

Cansado de andar com o peso dos jornais, o italiano, engenhoso, teve uma ideia: decidiu dispor os produtos da venda em caixotes velhos de frutas, recebidos em doação. Ali, ele começou a expor as notícias “de papel”. Assim, era “inaugurada” a primeira banca de revistas e jornais do país. Com o passar do tempo, as bancas disponibilizaram estruturas mais complexas, o que elevou o patamar da concorrência. Atualmente, em São Luís, as bancas estão praticamente em desuso e agonizam no cenário urbanístico.

Segundo o site “Cartografia de Bancas do Rio de Janeiro”, a banca do jovem Carmine estabeleceu-se no endereço carioca por 10 anos (entre 1880 e 1890). Com o sucesso evidente da banca de Labanca, outros jornaleiros abriram pontos de venda em locais de fluxo de pessoas, em grandes centros comerciais do país.

A partir do início do século XX, as estruturas das bancas (antes expostas ao sol e chuva) se tornaram mais avançadas. A primeira regulamentação delas – que registraram seus responsáveis como ambulantes – aconteceu pelo Decreto nº 1.356, de 1911. A preocupação do poder público, até então, era “manter o controle sobre a atividade”.

Com a regulamentação, somente quem tivesse a tal licença poderia vender os produtos. Além de manter o controle da prática comercial, outro objetivo do poder público com a criação do conjunto de regras era possibilitar arrecadação tributária, já que os “profissionais” usavam o espaço público para lucro.

Década de 1960: crescimento
No segmento editorial, as revistas passaram a apresentar conteúdos específicos por público. Com isso, surgiram exemplares destinados a falar sobre diversos temas, como saúde, educação e, principalmente, comportamento. Com a ascensão do segmento, criou-se a necessidade de ampliação do espaço das bancas, para que as edições lançadas pelas diversas editoras pudessem ser comportadas.

Um dos grandes avanços na consolidação das bancas ocorreu em 1963, quando, na capital paulista (que já registrava bancas famosas em logradouros conhecidos e ao lado de praças e igrejas), é aprovada a Lei número 6.229/63, que padronizou a configuração das bancas em São Paulo.

O fato, de acordo com os historiadores, gerou embate, já que a padronização das bancas sugerida pela administração municipal não foi objeto de consenso pelos jornaleiros.

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O mercado acelera
Já visto como um acessório de um mercado promissor, as bancas se propagam no país a partir da década de 1980. O desafio era, a partir deste momento, acomodar revistas e produtos de gênero alimentício (encontrados nos estabelecimentos do gênero) em um mesmo espaço físico.

Em 1987, alguns profissionais do ramo de bancas avançaram a tal ponto na negociação com os responsáveis pelas editoras que algumas delas acertavam com os jornaleiros o chamado acordo de consignação, ou seja, uma repartição conjunta dos lucros com base nas vendas dos exemplares (jornais e revistas).

Dados oficiais e oriundos de trabalhos sociais de universidades públicas apontam que, até a segunda metade da década de 1990, havia no Brasil aproximadamente 17 mil bancas. No mesmo período, a produção de exemplares de jornais, revistas e outras formas de publicação do gênero era de 371 milhões.

[e-s001]Consolidação: berço na Deodoro
A oferta de bancas de jornais e revistas na capital maranhense aumenta a partir da segunda metade da década de 1950. Foi neste período que os estabelecimentos do gênero – administrados em sua maioria por jovens oriundos do interior – se fixam na região Central da cidade, mais especificamente na Praça Deodoro.

Eram os tempos dos primeiros e mais conhecidos da cidade. Nomes como os de Edimar, Jaime, Fabriciano e, principalmente, de Moreira ficaram marcados na gente que ainda sustentou até o início dos anos 1990 o hábito de adquirir jornais e outras publicações diretamente na banca.

A banca do Seu Moreira – fixada em frente à Farmácia Central da Praça João Lisboa – era uma das mais conhecidas, não somente pela comercialização em especial de jornais locais, como pela oferta de publicações de outros estados e de apostilas preparativas para concursos e outros seletivos.

Registro obtido por O Estado, a partir de pesquisa do pesquisador Joaquim Aguiar, aponta que no dia 27 de novembro de 1961 o jornal “A Pacotilha” publicou a oferta de materiais “completos” sobre Português, Matemática e outras áreas do conhecimento. O preço inicial dos exemplares era de 120 cruzeiros.

Outro jornaleiro, ou dono de banca, muito famoso era João Marreco. Ele também era proprietário de uma estrutura que comercializava jornais ao lado da Praça João Lisboa. No auge – décadas de 1960 e 1970 –, Seu Marreco atraía clientes de toda a cidade.

A banca do Seu Marreco também era conhecida pelo fato de oferecer jornais de outras cidades brasileiras. Ou seja, quem desejava saber as notícias do exterior e das demais capitais do país, bastava ir até o Seu Marreco. Quem o conheceu o definiu como uma figura “exemplar”, que tratava todos os clientes da mesma maneira. De acordo com registros, Seu Marreco faleceu há alguns anos.

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