O Caminho Grande

Referência comercial, Rua Grande ligou São Luís ao presente

Às vésperas do aniversário da capital maranhense, O Estado conta a história da mais importante via para o desenvolvimento urbano da capital maranhense

José Linhares Jr. / Da Equipe de O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h15

São Luís - Entre todos os marcos de urbanização que transformaram São Luís na cidade que hoje conhecemos, nenhum é tão emblemático e importante como a via de 800 metros que liga o largo da Igreja Do Carmo no Centro Histórico até o Canto da Fabril. Nas palavras do superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Maurício Itapary: "A Rua Grande foi o caminho que ligou o pequeno povoado do passado a cidade que conhecemos no presente".

Iniciada como Estrada Real, depois chamada de Caminho Grande e hoje oficialmente Rua Oswaldo Cruz. Para a população é a Rua Grande, um lugar que concentra o maior núcleo comercial de São Luís. Para a história, é o caminho tornou possível a expansão territorial que resultou na cidade que conhecemos hoje.

Os registros dão conta de que a Rua Grande possui origem no mesmo século da fundação de São Luís. Dessa forma, ela pode ser considerada a primeira obra fruto de um movimento organizado de ligação entre o centro da cidade e o seu interior.

Especula-se que o uso da Rua Grande como via de ligação entre o centro da cidade e os aldeamentos e vilas do interior da ilha começou entre os anos de 1620 e 1630. Este período marca o crescimento da primeira expansão da atividade agrícola da cidade com a produção de cana-de-açúcar e aguardente.

Apesar dos fatos históricos apontarem para a criação da Rua Grande neste período, constam apenas de 1665 os primeiros registros oficiais da Rua Grande. Documentos mostram que naquele ano a Câmara de São Luís autorizou melhorias no caminho que ligava o Centro Histórico ao bairro Cutim (bairro vizinho ao Anil).

Originalmente o Caminho Grande possuía pouco mais de 10 quilômetros. Ele começava no Lago da Igreja Do Carmo, passava pelo Alto da Carneira (hoje Elevado Monte Castelo), pelo Areal (hoje Monte Castelo), João Paulo e alcançava o Anil.

Com o passar dos anos, o Caminho Grande foi particionado em várias avenidas e hoje sua extensão abriga a Rua Oswaldo Cruz, Avenida Getúlio Vargas, Avenida João Pessoa, Avenida São Marçal e Avenida Edson Brandão.

Expansão

Ao longo de seu percurso nasceram bairros como Vila Passos, cujas casas nas imediações do Cemitério dos Passos, onde hoje funciona o estádio de futebol Nhozinho Santos, eram sempre alvo de vistorias policiais, sob a suspeita de servirem de esconderijo de escravos: Diamante, Camboa, Coréia e Matadouro (atual Liberdade).

A Rua Grande, como é popularmente conhecida atualmente, é o trecho da Rua Oswaldo Cruz que fica entre o Largo da Igreja Do Carmo e o Complexo Deodoro. Contudo, a extensão verdadeira da rua vai até o Canto da Fabril.

Apesar de ser, por quase dois séculos, a principal via de acesso da cidade, apenas em meados do século XIX a Rua Grande começa a receber obras de urbanização mais complexas.

Datam deste período, na gestão do presidente da Província do Maranhão, Eduardo Olímpio Machado, a conclusão do calçamento da estrada. Também nesta época foi instalada uma linha de bonde de 11 quilômetros que percorria da Rua Grande até o Anil. Mais precisamente em 5 de abril de 1873.

Com a infraestrutura, o comércio começou a se instalar com mais força na Rua Grande, o lugar passou a ter mais atratividade. Foram instaladas lojas, escolas de dança, armazéns de vinhos, chapelarias, ateliês fotográficos, barbearias e farmácias. Pela primeira vez na história de São Luís um logradouro começou a rivalizar com o Centro Histórico em importância cultural e imobiliária.

A era dourada

Na Rua Grande nasceram duas das mais importantes figuras da literatura maranhense: Manuel Odorico Mendes (1799) e Catulo da Paixão Cearense (1863). A Rua Grande ainda abriga o Palácio das Luzes, antiga residência da mitológica empresária e política Ana Jansen.

Apesar de hoje ser conhecido majoritariamente por sua vocação comercial, a Rua Grande também acolheu uma boa parte da vida cultural de São Luís nos séculos XIX e XX. O Cine Éden, um dos mais famosos da cidade, funcionou no local de 1919 até 1984. O Casino Maranhense também teve uma sede na Rua Grande, justamente no Palácio das Luzes. A Casa Ponto Chic, importante bar e restaurante, recebia integrantes de tradicionais famílias ludovicenses junto com a Mercearia Neves, onde atualmente funciona a Lojas Americanas, que comercializava bebidas e produtos finos.

Decadência e renascimento

Nos anos 1970, com a expansão da cidade motivada pela construção da Ponte José Sarney, a Rua Grande começou a perder importância imobiliária e foi reduziu suas atividades. As residências que ainda eram instaladas no lugar foram sendo empurradas para outras localidades da cidade.

Com a expansão imobiliária voltando os olhos da população para outros lugares, tanto a Rua Grande como todo o centro de São Luís entraram em processo de decadência. Apesar disso, a recente vocação comercial conseguiu manter a Rua Grande como um dos pontos mais frequentados da cidade. Mesmo sem receber qualquer melhoria em sua infraestrutura.

Com os investimentos em shoppings centers e centros comerciais na década de 1990, a Rua Grande começou a ser a opção principal do comércio informal.

Com a criação do PAC Cidades Históricas em 2013, pela ex-presidente Dilma Rousseff, a Rua Grande pode sofrer a sua intervenção em toda a história. Segundo Maurício Itapary, a Rua Grande passou por uma grandiosa reconstrução.

“Em 2018 o IPHAN e a Prefeitura iniciaram uma reconstrução da rua grande. Tudo foi feito do zero. As obras incluíram novo sistema de drenagem, novas fundações, novo calçamento, nova pavimentação em concreto intertravado, novíssima instalação elétrica subterrânea e novo posteamento de iluminação pública. Além da colocação de bancos em madeira e aço”, explicou.

Para Itapary, a importância da Rua Grande para São Luís vai desde sua representatividade histórica quanto econômica. “A ação do Governo Federal pelo IPHAN se deu pela necessidade de preservar o que pode ser considerado um dos logradouros mais importantes de São Luís”, explicou.

Após a reforma, a Rua Grande viu recrudescer o interesse da população e voltou a ser alvo de novos empreendimentos.

Em números econômicos, a Rua Grande hoje abriga mais de 120 lojas que empregam, em média, mais de 15 pessoas por empreendimento. Além das lojas, o lugar também abriga vários restaurantes e lanchonetes.

Levantamento de O Estado revela que a Rua Grande hoje emprega, diretamente, cerca de 1800 pessoas. Se fosse uma empresa, a Rua Grande seria uma das maiores empregadoras do Nordeste brasileiro.

Com a crise econômica motivada pela pandemia, a Rua Grande foi obrigada a fechar suas portas. Com o fim do comércio no local, milhares de pessoas perderam seus empregos. Casos do ambulante Argemiro Mendes, que trabalha vendendo brinquedos há 15 anos no lugar.

"Foram tempos muito difíceis. A gente não tinha o que fazer porque mesmo que saísse não iria ter cliente. Serviu para a gente valorizar mais esse lugar. Ver que essa rua aqui ajuda as pessoas a colocar comida na mesa", disse.

No próximo dia 8 de setembro São Luís completará 409 anos. E entre todos os presentes que recebeu ao longo destes mais de quatro séculos, a Rua Grande, com certeza, está entre os maiores deles.

Agradecimentos: Edgar Rocha, Maurício Itapary, Joaquim Haickel, Cinaldo Oliveira e Meirelles Jr.

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