A festa do esporte no Maranhão

JEMs: quase 50 anos de história do maior evento esportivo do estado

Pelos Jogos Escolares Maranhenses passaram milhares de atletas talentosos e competitivos, em diversas modalidades, além de colaboradores, que marcaram época no cenário esportivo do estado

Thiago Bastos / O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h16
Abertura de uma das muitas edições dos Jogos Escolares Maranhenses
Abertura de uma das muitas edições dos Jogos Escolares Maranhenses (JEMs)

São Luís - O esporte é a junção entre o talento e a oportunidade. Em determinadas nações e dependendo do contexto em que se inserem, potenciais atletas de diversas modalidades devem ser desenvolvidos, na prática, em ritmo de competições.

Com a massificação da prática de atividades esportivas no estado, em meados das décadas de 1960 e 1970 e a profissionalização de determinadas categorias do ramo, aumentou a necessidade de promoção de um evento específico acerca do esporte, em especial, praticado e fomentado nas escolas públicas e privadas.

Foi neste período que, por iniciativa do poder público, em conjunto com autoridades do segmento, surgiu os Jogos Escolares Maranhenses (JEMs). Pelos jogos, passaram milhares de atletas, além de colaboradores que marcaram época no cenário esportivo do estado.

Além de atletas, acima de tudo, as competições formaram cidadãos (ãs). Pessoas que, porventura, não se tornaram grandes craques ou estrelas, no entanto, usaram o esporte como o fomento para a cidadania e para os bons valores.

Nomes como Oswaldo Telles, Alexandre Nina, Frederico Castro, Júlia Nina na natação; além de Tião (grande jogador), Luís Fernando, Gílson e Ricardo no handebol e nomes como Ribinha Velocista, Codó (medalhista olímpico), Telma Coelho, Ivone Nazaré, Fátima e Rubinho Goulart no vôlei e no basquete, como Paulão, Carlos Tinoco, Hermínio Nina, “Gafanhoto” e tantos outros são lembrados pela memória privilegiada de Edivaldo “Biguá” e Tânia, dois dos nomes que marcaram a história do JEMs.

Biguá e Tânia foram os editores responsáveis pela página “Onde Anda Você” no jornal O Estado do Maranhão, publicada todas as segundas-feiras, de 1997 a 2001. Foram quatro anos e mais de 200 histórias de personagens do esporte maranhense (atletas, árbitros, técnicos, dirigentes e massagistas). Além de Biguá e Tânia, outro nome que precisa ser sempre lembrado por todos os desportistas e que fez parte do JEMs foi o inesquecível Alfredo Menezes, funcionário por décadas de O Estado e, infelizmente, acometido em 2020 pela Covid-19, faleceu.

Atualmente, os Jogos Escolares Maranhenses passam por uma transformação e, ao mesmo tempo, por adaptações em virtude da pandemia causada pelo coronavírus. Em 2020, as competições não ocorreram por, segundo os organizadores, falta de condições sanitárias. Em 2021, com a expansão da vacinação, a promessa é de que as disputas voltem a ocorrer, sendo um alento para tanto sofrimento diante das mortes causadas pela Covid.

Mas para entender a realidade atual, é preciso assimilar a história da competição.

O incentivo e o objetivo do JEMs
No final da década de 1960 e início de 1970, os jovens se encontravam para a prática de modalidades, como basquete, futebol de campo, futebol de salão e outros esportes. Os clubes sociais eram algumas das sedes destes encontros, dentre eles, o inesquecível Jaguarema, no Anil (em São Luís).

Posteriormente, a capital passou a formar times que, por iniciativa dos próprios integrantes, se reuniam para participar de competições pelo Brasil e mundo afora. Foi assim que, em 1970, um grupo de jovens (dentre eles, Cláudio Vaz dos Santos, o “Alemão”) buscou apoio para treinar no recém-entregue Ginásio Costa Rodrigues, até hoje visto na região central após reforma.

Comandado por Chico Cunha, técnico mineiro e que trabalhava no Ceará, a seleção de basquete local foi impedida de treinar. Em entrevista concedida no dia 29 de março de 2001 nas instalações do antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão (Cefet), Cláudio Vaz revelou os motivos para o impedimento e qual a relação entre o fato e o surgimento dos Jogos Escolares Maranhenses. “Nós precisávamos da quadra do Costa Rodrigues para treinar nossa seleção de basquete para, em 1970, irmos para o Rio Grande do Sul, mais precisamente Santa Cruz do Sul. Nós fomos pedir […] no entanto, não poderiam ceder o Ginásio [Costa Rodrigues] pois iria ter uma reunião”, disse sem citar o nome da pessoa que, à época, dirigia a praça esportiva.

No dia da recusa, foi feita uma promessa. Aquele grupo de jogadores propiciaria para a comunidade esportiva da capital e de outras partes do estado um evento que seria um “divisor de águas” no incentivo à prática de modalidades.

O então prefeito de São Luís, Haroldo Tavares – considerado um visionário por muitos – criou a Coordenação de Esportes na administração municipal. Dentro do serviço, foi criada a coordenação específica na área estudantil. A ideia era desenvolver o esporte escolar.

Nomes considerados referenciais na socidade foram convidados para a missão. Alguns deles foram “Geografia”, Fernando Sousa, Jaime Sampaio e outros. Mais pessoas se juntaram à meta de desenvolver o esporte no cenário local, como Dimas, Major Alves e professoras como Maria José, Ildenê e tantas outras na memória dos mais antigos e importantes para o esporte.

De acordo com os arquivos da família de Cláudio Vaz, após o ato de montagem da coordenadoria, foi realizado o primeiro Festival Esportivo da Juventude (FEJ), em 1971. “A Mary Santos [colaboradora] fazia os Jogos Intercolegiais do Interior, só que ela nunca fez jogos na capital. A Mary era do estado, da Secretaria de Estado da Cultura, onde tinha uma Secretaria de Esporte. Foi neste contexto que eu entrei, fui dirigir pela primeira vez a competição”, disse Cláudio Vaz em entrevista concedida em 2001 acerca da história do JEMs.

Os passos seguintes…
Em 1971, foi realizado o primeiro FEJ (Festival Esportivo da Juventude). O Colégio de São Luiz foi o primeiro campeão dos jogos. Nesta época, começou a parceria entre Cláudio Vaz e Dimas, inesquecíveis amigos. Segundo Vaz, não havia profissionais de educação física em abundância na capital e em outras partes do estado para desenvolverem a prática esportiva, seja por meio de “peneiras” ou clínicas do gênero em espaços públicos e privados.

A ascensão de nomes como Vaz, que migrou para outras funções na administração pública, fez com que grandes profissionais de outros estados passassem a trabalhar no território local. “Alemão” tornou-se Diretor do Departamento de Educação Física e Desportos do Estado, ligado à Secretaria de Educação, do professor Luís Rêgo.

Com a influência de nomes como Luís Rêgo, além do auxílio técnico de Dimas e outros personagens, surgiu a ideia da criação de uma competição específica que reunisse o máximo possível de modalidades no âmbito escolar e de disputas entre as instituições de ensino.

O primeiro JEMs
Se em 1971, surgiu o primeiro Festival Esportivo da Juventude e, em 1972, uma nova edição, os primeiros Jogos Escolares Maranhenses (JEMs) nasceram em 1973. Nesta época, o Maranhão já participava do JEBs, competição nacional do gênero. Antes de Jogos Escolares Maranhenses, o evento recebeu o nome de Jogos Estudantis Maranhenses.

“Nós já tínhamos passado o primeiro e o segundo FEJ [Festival Esportivo da Juventude] com sucesso. Com a mudança, a formação das escolas e a conscientização, estes elementos foram fundamentais para a valorização do profissional de Educação Física em escolas. Antes uma função esquecida, conosco passou a ser uma função valorizada. Ele, professor, que era praticamente um esquecido dentro da área educacional, pois se achava desnecessário praticar educação física nas escolas, passou a ter visibilidade. Nós criamos estes jogos para provocar também nos colégios esta necessidade de se formar atletas e de transmitir Educação Física e, assim, valorizar o professor. Este foi o ponto marcante de nosso trabalho”, disse Cláudio Vaz, em entrevista em 2001.

Desenvolvimento do JEMs
Os Jogos Estudantis, que passaram a ser Jogos Escolares em 1973, sempre foram importantes para o Maranhão. No entanto, o evento estava restrito a escolas da capital, principalmente por falta de recursos e de locais para hospedar as equipes que pudessem vir do interior.

A vinda de vários profissionais de São Paulo para cá e outros fatores, como a criação do curso de Educação Física da Universidade Federal do Maranhão e da Secretaria de Educação Física, Esporte e Lazer (Sedel), associada à construção do Ginásio Guioberto Alves (atualmente no Bairro de Fátima), do Estádio Castelão (no início da década de 1980), do ginásio Georgiana Pflueger, da pista de atletismo, tornaram-se grandiosos impulsos para inclusão das equipes escolares de todo o estado. Contando com uma maior infraestrutura e capacitação técnica, os JEMs passaram a ser marcas grandiosas do estado.

Contando com uma maior estruturação profissional e financeira, as administrações da Sedel foram marcadas pelo volume de pessoas envolvidas nos JEMs. Em anos seguintes, os jogos passaram a ter logística, o que possibilitou a criação das fases regionais e estadual.

Em algumas etapas a partir dos anos 2000 e 2010, somente na fase estadual, estiveram envolvidos cerca de 4,7 mil atletas, o que mostra não somente a importância, mas o quanto os jogos escolares foram longe.

SAIBA MAIS

Alguns dos grandes nomes do JEMs

Natação
Oswaldo Telles
Alexandre Nina
Frederico Veloso de Castro
Julia Nina
Carol Hertel

Handebol
Tião
Luís Fernando Fiqueiredo
Gilson Caldas
Ricardo Goulart
Rosa Reis (hj cantora)
Silvia Helena
Ana Paula
China

Atletismo
Ribinha Velocista
Codó

Vôlei
Telma Coelho
Ivone Nazaré
Fátima Rodrigues
Rubinho Goulart
Albino Lindoso
Thierry (Sesi/SP)
Nayeme (líbero da seleção brasileira)

Basquete
Paulão
Carlos Tinoco
Hermílio Nina
Gafanhoto
Binga
Spirro
Iziane

Mais sobre Cláudio Vaz

No final da década de 1960, “Alemão” como era conhecido Cláudio Vaz se formava em economia. Em 1971, iniciava sua brilhante carreira de dirigente esportivo, após ser nomeado Coordenador do Departamento de Educação Física e Desportos da Secretaria de Educação Física do Estado e presidente do Conselho Regional de Desporto.

Sua primeira providência foi colocar em funcionamento as escolinhas desportivas, sonhando com um futuro melhor para o esporte maranhense. Além dos tradicionais: futebol de campo, futebol de salão, vôlei, basquete e judô, Vaz introduziu boxe, capoeira, karatê, xadrez, ginástica olímpica e folclore para a garotada da capital.

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