Alternativo | Cena literária

São Luís é a sétima capital que mais lê no país

Pesquisa revela que São Luís está entre as capitais com mais leitores do Brasil; O Estado buscou saber como anda a cena literária na cidade
Kethlen Mata/ O Estado01/12/2020 às 11h57
São Luís é a sétima capital que mais lê no Brasil. (Arte: Bárbara Lauria/ O Estado)

São Luís – Para muita gente, ler ainda é sinônimo de prazer e conexão com novas e diferentes realidades, e os leitores de São Luís não ficam atrás nesse quesito. Foi o que mostrou os dados da 5ª edição da pesquisa Retratos da Literatura no Brasil. São Luís é sétima colocada no ranking de capitais que mais leem no país. Em primeiro está João Pessoa (PB), seguida por Curitiba (PR), Manaus (AM), Belém (PA), São Paulo (SP) e Teresina (PI).

O estudo é realizado pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural. Porém, mesmo com a colocação animadora de São Luís, no geral, o Brasil perdeu, nos últimos quatro anos, mais de 4,6 milhões de leitores, a porcentagem caiu de 56% para 52%. Entretanto, os não-leitores, representam 48% da população, o equivalente a cerca de 93 milhões de um total de 193 milhões de brasileiros.

Mas antes de tudo, é importante saber o que caracteriza um leitor e um não leitor. O Leitor é aquele que leu, inteiro ou partes, pelo menos um livro nos últimos três meses, já o não-leitor, é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos três meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses.

Divulgação e produção de Literatura Maranhense

Entres os dados da pesquisa, há um que fala sobre os livros mais consumidos no país, e em sua maioria, são livros estrangeiros. Sabe-se, que o consumo de literatura local e independente não é uma prática tão popular, por isso, O Estado, conversou com o presidente da Associação Maranhense de Escritores Independentes (AMEI), José Viegas, para entender como funciona a divulgação e produção da literatura maranhense, principalmente durante a pandemia do novo coronavírus.

A Associação, possui uma livraria e espaço cultural em um shopping da cidade, e com a pandemia, o local ficou fechado por cerca de três meses. José Viegas, conta que foi um período difícil, sobretudo pelo custo de manter a estrutura, sem qualquer receita. “Depois do retorno das atividades, ainda não voltou ao normal. A situação continua fraca – quase metade do que era antes – e também quase não conseguimos fazer eventos porque temos restrições”, ressaltou.

Espaço cultural e Livraria AMEI no São Luís Shopping. (Reprodução)

Porém, mesmo com essas restrições, a AMEI está realizando eventos de lançamento, mas o local que antes comportava até 100 pessoas, está limitado a no máximo 25. “São poucos, as pessoas têm receio. Então, tem sido uma situação bastante impactante na atividade da literatura maranhense”, comentou o presidente. Durante o pico da pandemia no estado, a livraria AMEI se voltou para os meios digitais, assim como a maioria dos negócios nesse momento de crise– não só do Maranhão, mas também do Brasil e do mundo.

A associação também tem uma editora. José Viegas, explica que o número de vendas e a procura por produção de livros aumentou. “Existe um paradoxo”, comentou ele.

Redes Sociais e leitura

Outro dado interessante na pesquisa do Instituto Pró-Livro, é que na última edição, houve a investigação sobre indicação e força dos influenciadores digitais no hábito da leitura. Em oitavo lugar, de razões que fizeram os entrevistados se interessarem pela leitura, está a influência através das redes sociais, Youtube, e etc.

Os números desse estudo são de 2019, porém, a quantidade de pessoas que ingressaram como influenciadores digitais em 2020 é considerável, sendo assim, a tendência é que essa colocação esteja diferente no cenário atual. Esse ingresso de novos formadores de opinião, se deu, principalmente, pelo fato de que o confinamento acabou deixando grande parte da população entediada depois de algum tempo de quarentena.

Um exemplo desse fenômeno, é Inara Sales, 22, estudante de jornalismo e apaixonada por livros. Ela criou um Instagram para promover suas leituras, produzir resenhas, e vários outros conteúdos relacionados ao universo literário. Após quatro meses de dedicação, a jovem já acumula 980 seguidores na conta @lendocominara.

O @lendocominara já acumula quase 1 mil seguidores no Instagram. (Reprodução/ Instagram)

“Eu sempre fui apaixonada pelo universo literário e sempre tive vontade de compartilhar isso com outras pessoas. Eu gostava de acompanhar influenciadores literários pelo YouTube (os chamados booktubers). Mas, no meio da pandemia, algo despertou na minha mente. Eu senti que eu tinha que fazer alguma coisa que me ajudasse e ajudasse outras pessoas a passar por esse momento tão difícil, de uma forma mais leve. Então, tive a ideia de criar um Instagram para falar sobre livros”, afirmou Inara, em entrevista para O Estado.

Ela conta, que no começo não tinha muita noção de como seria e se as pessoas iriam se interessar, mas que sempre teve o apoio dos seus amigos e familiares. “Me sinto muito feliz e realizada por conseguir alcançar a minha meta de quando era tudo um plano: influenciar pessoas a entrar nessa aventura e se apaixonar por livros. Apesar de pouco tempo, eu recebo muitas mensagens de amigos que não tinham o hábito da leitura, mas que começaram a se interessar por minha causa. Também recebo mensagem de pessoas que não conheço, mas que gostam do meu conteúdo e que me dão muita força para continuar”, frisou a estudante.

Inara, comenta que as redes sociais são uma via de mão dupla, e que apesar de ter influências ruins, pode também, acrescentar.

O @lendocominara, é para aquela pessoa que teve experiências ruins e que decidiu não gostar de ler, é para quem nunca teve um contato muito próximo com os livros, é para quem perdeu o hábito da leitura, é para quem quer começar a ter e para quem quer se aventurar em vários mundosInara Sales

Clubes literários

Outra tendência atual, são os clubes literários, de pequeno ou grande porte. Clubes de assinatura mensal de livros, por exemplo, se tornaram febre na pandemia. Mas, tem também o caso de pessoas que estavam próximas há algum tempo, e resolveram se reunir para debater literatura agora.

Em meio à maior crise sanitária do século, quatro amigos decidiram usar o tempo ocioso de quarentena para ler e discutir livros que já mais leriam se tivessem a oportunidade de escolher.

Gabriely Brito, 21, estudante de direito, foi a porta-voz do clube de leitura que faz parte – e que ainda não possui um nome oficial. Ela contou para O Estado, que quando começou a quarentena, ela já estava com uma vontade de retomar com o velho hábito da leitura, que havia deixado de lado. “Na verdade, eu tenho um namorado que é compatível comigo nessa questão da leitura. Ele sempre gostou muito de ler. Só que eu, particularmente, desde que entrei no Direito, larguei minhas leituras alheias ao curso e passei a só ler mesmo coisas integradas ao que eu fosse escrever”, contou em entrevista.

O Clube de leitura da Gabriely se reúne para discutir os títulos lidos. (Reprodução/ Arquivo Pessoal)

O clube começou com ela, o namorado, e outros dois amigos que também são apaixonados pelo hábito de ler. Os livros consumidos por eles não são escolhidos de forma “comum”, existe uma dinâmica que faz com que os livros sejam sorteados todos os meses. Gabriely, comenta que o primeiro livro lido no clube, nunca seria escolhido por ela em uma livraria.

O primeiro livro sorteado, eu jamais teria lido, que é O Amor e Outros Demônios do Gabriel Garcia Márquez. Na verdade, foi uma leitura bem curiosa. Vamos dizer assim, me agregou muito vocabulário e cultura. E também sei que eu teria facilmente largado essa leitura, se não tivesse um objetivo de me reunir com meus amigos e falar sobreGabriely Brito

Hoje os amigos já estão na leitura do quinto título, agora com a possibilidade de pequenos encontros serem possíveis, eles se reúnem aos sábados para debater sobre a obra lida.

Falta de reconhecimento local

O Estado, fez as mesmas perguntas (“Qual sua relação com a literatura maranhense, já leu livros de algum escritor independente do estado? ”) para a influenciadora, Inara Sales, e a componente de um grupo de leitura, Gabriely Brito, e ambas tiveram respostas parecidas.

A bookgramer – como são chamados os influenciadores digitais do Instagram –, respondeu que gosta muito de falar de literatura nacional, pois acredita que muitas pessoas ainda tem um certo receio em ler e até desconhecem. Mas sua resposta sobre a leitura local, foi diferente.

“Eu não conheço autores independentes daqui. Na verdade, conheço bem pouco dos livros atuais. Acredito que seja uma falha minha, mas não vejo tanta divulgação sobre a nossa literatura, a não ser de autores/poetas já renomados. É um ponto muito importante, até porque eu também me interesso muito pela escrita. Mas pretendo dar mais espaço para a literatura maranhense e falar mais sobre o assunto”, reconheceu a estudante, Inara Sales.

Gabriely, afirmou que não tem base nenhuma para falar de literatura maranhense. “Estava pensando, e de fato, nunca parei para ler”, frisou.

O presidente da AMEI, possui uma explicação para essas respostas. Para ele, há um desconhecimento da literatura local. José Viegas, ressalta que muitas pessoas pensam que os livros maranhenses são apenas coisas velhas, poesias, ou livros de doutores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Desconhecem que temos autores fantásticos na nova geração que publicam romances, ficção, autores desde os 14, 20, 22 anos, fantásticos. Quando você vê os livros deles pensa que é uma edição de São Paulo, parece que o que é de fora é sempre melhor do que está aqui. Então a gente peca por isso, não valorizamos o que é nosso na literaturaJosé Viegas

Outro ponto levantado por ele, é que o problema não está, somente, na falta de divulgação dos artistas locais, ou seja, não adianta anunciar o lançamento de um livro na TV, rádio, ou jornal impresso, se o escritor não tiver amigos, familiares e pessoas que prestigiem seu trabalho.

“Então, não é só a mídia. Se você for desconhecido e não tiver amigos de fora que venham para o seu lançamento, e se o artista se apoiar apenas sobre a divulgação da mídia, não vão ver. Por que? Porque é preciso quebrar paradigmas. Nosso problema é o paradigma de que o que é maranhense não vale a pena”, finalizou, José Viegas.

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