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Impactos e riscos para crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro Autista

Alguns estudos têm sugerido que pessoas com este transtorno sejam mais suscetíveis a infecções e outras comorbidades pelo fato de apresentarem um perfil metabólico diferente, com importante desregulação imune
21/07/2020 às 18h40
Impactos e riscos para crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro AutistaDivulgação

São Paulo - A pandemia de Covid-19 trouxe diversas implicações na sociedade como um todo, colocando à tona preocupações que vão além da contaminação e propagação do vírus em si. Entre elas, gerou mudanças significativas na rotina das crianças e, consequentemente, de suas famílias.

O fato das crianças estarem sem aulas presenciais; contarem com restrições sobre onde podem ou não podem ir; a impossibilidade de brincarem com seus amigos; o próprio medo de serem infectadas ou de verem seus familiares infectados; a percepção de que os pais estão ansiosos/preocupados, são alguns dos fatores que tornam as crianças suscetíveis às repercussões psicossociais da situação atual, em maior ou menor intensidade.

Uma grande dúvida que surgiu em meio ao cenário atual é se o Transtorno do Espectro Autista (TEA) seria um fator de risco para a Covid-19. Alguns estudos têm sugerido que pessoas com este transtorno sejam mais suscetíveis a infecções e outras comorbidades pelo fato de apresentarem um perfil metabólico diferente, com importante desregulação imune.

Mas, além disso, já se sabe que algumas particularidades podem, sim, tornar crianças, adolescentes e adultos com TEA mais suscetíveis ao novo coronavírus, por diversos motivos, entre os quais podemos destacar:

- Dificuldade em compreender o coronavírus e suas consequentes restrições;

- Dificuldades na comunicação social, verbal e/ou não verbal, comprometendo inclusive a observação ou comunicação dos sintomas;

- Comportamentos mais restritos e repetitivos que podem gerar grande dificuldade e sofrimento em variar a rotina, o que dificulta medidas de isolamento e distanciamento social, além do fato de muitos apresentarem comportamentos mais inquietos e necessitarem se movimentar;

- Questões sensoriais, como levar tudo à boca, que os expõem a maiores riscos de contaminação;

- A possibilidade de uma alimentação com baixo valor nutricional, levando em conta que muitos indivíduos com TEA possuem seletividade alimentar;

- Possíveis comorbidades relacionadas à função respiratória, ao sistema imunológico, ao coração, dentre outras;

- Impossibilidade de manter um distanciamento social mais eficaz, dada a necessidade de apoio contínuo para atividades da vida diária e, também, das terapias;

- Possíveis dificuldades para adotar medidas básicas de higiene e prevenção, como lavagem das mãos e uso de máscaras pela dificuldade na compreensão e/ou por questões sensoriais.

As preocupações, porém, vão muito além da contaminação em si. E um dos principais pontos a serem considerados é que crianças e adolescentes com TEA tendem a sentir de forma muito mais intensa as mudanças de rotina, visto que a têm como um elemento que os acalma, os organiza. As queixas de crianças e adolescentes que têm ficado mais impacientes, irritados, retomado estereotipias, têm sido constantes em meio à quarentena.

A própria exigência do uso de máscaras, uma das principais medidas preventivas contra o coronavírus, é um fator que pode gerar estresse na criança ou adolescente com TEA, principalmente naqueles que apresentam hipersensibilidades sensoriais. Algumas prefeituras já têm flexibilizado as regras do uso de máscara para pessoas com este transtorno.

A pandemia fez com que muitas das terapias presenciais precisassem ser suspensas, passassem para o formato online ou tivessem protocolos de higiene reforçados. Muitas das intervenções que exigem afetividade, contato físico, precisaram ser adaptadas.

Com as sessões de terapias reduzidas e/ou somente online, os pais/cuidadores têm sentido, mais do que nunca, a necessidade de pensarem em estratégias para entreterem, estimularem o desenvolvimento das crianças e adolescentes com TEA que estão em casa, muitas vezes ansiosos, incomodados com as inevitáveis mudanças da rotina e com o que conseguem compreender acerca da situação atual.

Pode haver prejuízos?

As crianças e adolescentes com TEA estão mais vulneráveis às consequências negativas da pandemia e do isolamento social que estamos vivenciando. Como necessitam de tratamentos geralmente intensivos e continuados, a interrupção desses tratamentos é um fator de risco para o agravamento do quadro e até mesmo para uma aparente perda de habilidades anteriormente adquiridas. Casos de distúrbios do sono, sinais evidentes de maior ansiedade, retorno de estereotipais, são alguns dos relatos que muito têm preocupado.

Para que uma involução não ocorra, os tratamentos devem, na medida do possível, ser mantidos; se não presencialmente, online.

É muito importante que os pais não percam o contato existente com os médicos e terapeutas que acompanham a criança ou o adolescente, para que estes profissionais os orientem em relação ao que pode ser feito em casa, pensando em atividades e brincadeiras que possam estimular habilidades e aprendizados, garantindo que a perda pela interrupção do tratamento não ocorra ou seja a menor possível, sempre levando em conta as particularidades de cada caso.

Os pais/cuidadores devem estar atentos à saúde das crianças e dos adolescentes como um todo, principalmente nos casos em que existem outras condições associadas. O cuidado de evitar sair de casa para não expor a criança/o adolescente ao contato com outras pessoas não deve ser encarado como “desculpa” para cancelar consultas médicas, para ignorar sintomas que pedem atendimento médico presencial.

É essencial também, neste período que está exigindo tanto de todos, que os pais e cuidadores voltem o olhar para si mesmos, se cuidem fisicamente e mentalmente e não se culpem por não conseguirem, muitas vezes, “dar conta de tudo”. O momento é delicado e naturalmente tem gerado estresse também (e principalmente) entre os adultos, o que, se não cuidado, torna o ambiente mais estressante, num clico vicioso que tende a prejudicar muito o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, assim como a saúde e o bem-estar de todos os integrantes da casa. Por tudo isso se dá a importância de todos estarem atentos à própria saúde mental e dispostos a buscarem ajuda profissional.

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