opiniao

Além da palavra

artigo
25/04/2015

A palavra era sua arma na voz, na escrita, e expressão do seu talento, cultura, que usava ora como espada, ora como escudo, para expor idéias, debater e dialogar, num domínio de forma e conteúdo que marcavam sua visão lúcida, serena e firme. Era marcante, pois, a cultura e ação política de José Mário Machado Santos, que se firmou, a partir de meados dos anos 1950, por inovar as técnicas de ensino de português, literatura e ser brilhante como estudante de direito. Naquela fase, militante do Movimento Nacionalista Acadêmico (MNA), Zé Mário ou Zé Rato, era líder da nossa geração.
Nosso primeiro contato, em 1956, foi marcado pela morte trágica de um jovem poeta. Daí a relação cresceu na Sociedade de Cultura Artística do Maranhão que trouxe para São Luís o balé de Nina Verchinina e um espetáculo com Henriette Morineau. Naquela fase, apoiou uma ação nossa e de Hubert Macedo ocupando um imóvel do Estado, na Rua do Passeio, para instalar a Casa do Estudante Secundário do Maranhão. A invasão ganhou o apoio de Paschoal Carlos Magno, - assessor do Presidente Juscelino - e do Governador Matos Carvalho.
No início, a Casa abrigou os estudantes Luis Alves Coelho Rocha, João Rocha de Jesus, Enock Vieira, Alcione Almeida, sendo dirigida por Hubert Macedo. As camas foram doadas pelo Ministro Teixeira Lott, a pedido de Nonato Cruz, presidente da UBES, que participou, em 1958, da passeata contra a fraude, vestido de padre, abençoando o protesto. No ato, um apelo forte - Abaixo a Velhice Transviada do TRE - criação de Hubert Macedo e de Joaquim Itapary, que fez os cartazes e charges. A passeata motivou a ação das lideranças para ter um representante na Câmara de São Luis e José Mário foi o escolhido. Antes do pleito fez um curso no Instituto Superior de Estudos Brasileiros.
Na época publicou artigos antológicos (Moral e Desenvolvimento) um estudo na revista Revolução, do MNA, e fez abordagens lúcidas na campanha eleitoral de 1962, sendo eleito com a adesão de Luis Rocha, Sálvio Dino, Benedito Buzar, João Leitão, Joaquim Itapary, Helena Barros, Ribamar Heluy. Celso Coutinho, William Moreira Lima, Maria Aragão, o poeta Bandeira Tribuzzi, João Batista Ericeira., João Martins Filho e Nei Melo. Na Câmara, num debate, Walter Fontoura puxou um revólver e diante da arma José Mário indagou: Que é isso, Walter? Estás perdendo a esportiva!
A prudência venceu a ira, forma de agir que foi constante nas concentrações em defesa da reforma agrária. Na de Caxias, atuou ao lado de Augusto Nascimento, Padre Alípio de Freitas, José Bento Neves e Raimundo Vieira da Silva, destacando a fala do camponês Zé de Lima - Estou aqui com os olhos de ontem - ou seja, não dormiu temendo uma ação dos latifundiários.
Após o golpe de 1964, que atingiu outros da sua geração, José Mário foi preso e em seguida a Câmara cassou o seu mandato, restando a ele e Cleide ir para Brasília. Lá a gente se encontrou na casa de Ariosto, no lançamento do livro As Três Princesas e depois houve contato quando enviei A Literatura em Pernambuco, trabalho que elogiou.
Então lembrei a expectativa de nossa geração por seu trabalho e a alusão pareceu motivo da restrição de contatos, que cresceu após a perda do filho único, fato que evitamos tocar no reencontro em São Luís em 2014. Mais tarde, em Recife, soube de sua partida e revi sua história de líder - pela força do talento, cultura e ação política, legado que deixou para nossa geração, nosso Estado, como parte das lutas e ideais de mudanças em nosso país.

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