De Olho na Economia
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É economista com experiência nacional e internacional em análises macroeconômicas e microeconômicas. Possui habilidade em análises setoriais, gestão do capital humano, orçamentos e finanças.
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O Potencial Econômico da Indústria de Resíduos no Maranhão

O tratamento de resíduos nos municípios maranhenses vai além da preservação ambiental. É, fundamentalmente, uma questão de saúde pública e de inteligência econômica.

Coluna Wagner Matos

- Atualizada em 14/10/2026 às 13h12
O tratamento de resíduos nos municípios maranhenses vai além da preservação ambiental. É, fundamentalmente, uma questão de saúde pública e de inteligência econômica.
O tratamento de resíduos nos municípios maranhenses vai além da preservação ambiental. É, fundamentalmente, uma questão de saúde pública e de inteligência econômica.

Oi, pessoal! Dando continuidade à nossa série de análises e buscando responder às dúvidas de investidores, empresários e formuladores de políticas públicas, destaco hoje outro setor altamente promissor no Maranhão, o tratamento de resíduos sólidos.

O tratamento de resíduos nos municípios maranhenses vai além da preservação ambiental. É, fundamentalmente, uma questão de saúde pública e de inteligência econômica. O avanço da população e da urbanização aumentou drasticamente a produção de lixo no Brasil. Segundo a ABREMA (dados de 2025), o país gera 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano devido ao forte consumo econômico. Apesar disso, a destinação adequada continua crítica: 34% dos resíduos gerados em 2024 foram para lixões ou aterros controlados, deixando um grave passivo socioambiental.

Em termos financeiros, o país perde aproximadamente R$ 14 bilhões anualmente ao enterrar materiais que poderiam ser reinseridos na cadeia produtiva. Apesar desse enorme custo de oportunidade, a realidade regional é dura, 51,6% dos municípios do Nordeste ainda dependem de lixões a céu aberto. Nesses locais, as operações ocorrem à margem de qualquer condição mínima para o tratamento adequado e a valorização do material, recebendo apenas a destinação técnica e orçamentária para a coleta básica.

Do ponto de vista jurídico, não faltam diretrizes. O setor é regulamentado por legislações robustas, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) (Lei Federal nº 12.305/2010) e o Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei Federal nº 14.026/2020), que estabeleceram prazos rigorosos para o encerramento dos lixões e a universalização do tratamento adequado. Em âmbito estadual, o Plano Estadual de Resíduos Sólidos do Maranhão (PERS-MA) também traça metas claras, enquanto os municípios precisam estruturar seus Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) para acessar recursos federais. Contudo, na prática, observa-se que os governos federal, estadual e municipais ainda falham em articular um planejamento executivo capaz de acelerar a implantação dessas estações de processamento.

Há algum tempo, conduzi no Maranhão um levantamento detalhado junto a especialistas do setor. Os dados apurados confirmaram a absoluta viabilidade financeira de projetos voltados ao tratamento de resíduos no estado. Já dispomos de um mapeamento preliminar das regiões com alto potencial para receber essas iniciativas industriais e suprir as demandas municipais. Para que esses empreendimentos saiam do papel e alcancem a escala operacional e financeira exigida, o caminho técnico e legal mais eficiente é a formação de consórcios públicos intermunicipais, amparados pela Lei nº 11.107/2005. A união de municípios vizinhos aglutina a demanda e o volume de resíduos necessários para justificar, economicamente, a instalação de usinas de processamento, triagem e valorização energética.

No estado, já temos um bom exemplo em operação, a Central de Gerenciamento Ambiental Titara (CGA Titara), instalada na cidade de Rosário, que atende à Região Metropolitana de São Luís e a diversos municípios vizinhos. A partir de casos de sucesso como esse, é plenamente viável adotar modelos menores, modulares e com capacidade de expansão, que consigam atender de forma otimizada a cada microrregião no interior maranhense.

Constantemente, vejo investidores interessados em instalar indústrias de processamento e economia circular no Maranhão. Inclusive, tive a oportunidade de apresentar e assessorar um grupo de investidores focado na região de Imperatriz, um polo logístico e estratégico de desenvolvimento. O capital estava disponível, e a viabilidade estava comprovada. No entanto, o projeto esbarrou na severa lentidão da burocracia local. Diante da falta de clareza nos processos e da insegurança jurídica gerada pela morosidade, o investidor calculou o custo de oportunidade e optou por direcionar seus recursos para outro estado. O Maranhão perdeu arrecadação, tecnologia e, principalmente, a geração de empregos formais e informais.

Como profissional de gestão de riscos, com experiência nacional e internacional voltada à atração de investimentos para o Nordeste, observo uma realidade preocupante que atua como o principal ofensor do nosso desenvolvimento. A crônica falta de visão de longo prazo na gestão pública. Nos frequentes contatos que mantenho com órgãos governamentais, encontro quadros técnicos altamente qualificados e cientes do que precisa ser feito. Contudo, as decisões finais costumam ficar restritas a agentes políticos orientados, quase exclusivamente, pelo prazo do mandato eleitoral, e não por projetos de Estado contínuos.

Os investidores precificam imediatamente essa postura. Para quem pretende alocar capital, empreender e gerar renda, a avaliação de riscos regulatórios e institucionais é a etapa inicial e inegociável de qualquer iniciativa. O Maranhão possui o volume de resíduos, a localização logística privilegiada e a necessidade urgente de industrializar o seu saneamento. Transformar esse passivo ambiental e social em riqueza e qualidade de vida exige, antes de tudo, que a gestão pública trate o lixo não como um problema a ser escondido, mas como uma indústria vital. E essa indústria requer segurança jurídica, desburocratização inteligente e uma visão de Estado que trabalhe para as próximas gerações. 

Wagner Matos 

Economista


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