Coluna de Olho na Economia

Falta de gestão estratégico põe em risco as exportações do agronegócio

O atual cenário econômico brasileiro, marcado por crédito escasso e taxa básica de juros (Selic) em patamares restritivos, somado à instabilidade geopolítica global, pressiona fortemente os custos de produção.

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- Atualizada em 10/09/2026 às 10h10
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Oi, pessoal. Desta vez, abordo um assunto vital para a nossa economia. As exportações do agronegócio e as alternativas de financiamento. O atual cenário econômico brasileiro, marcado por crédito escasso e taxa básica de juros (Selic) em patamares restritivos, somado à instabilidade geopolítica global, pressiona fortemente os custos de produção. Além disso, as oscilações constantes nas cotações das commodities agrícolas nas bolsas internacionais e na demanda internacional adicionam uma camada extra de complexidade, influenciando diretamente a tomada de decisões do setor produtivo.

Sabemos que muitos produtores possuem expertise e excelência incomparáveis quando se trata de qualidade e produtividade dentro da propriedade. Entretanto, observamos problemas expressivos na gestão de recursos financeiros e na prospecção de contratos comerciais. Hoje, a maioria dos produtores negocia sua safra antecipadamente com tradings internacionais, muitas vezes por meio de operações de barter (troca de insumos por grãos). Essa prática é utilizada para garantir capital de giro e bancar os custos operacionais, mas é também um reflexo direto de duas falhas estruturais. Um quantitativo baixo de indústrias de beneficiamento agropecuário e o crônico déficit de armazenagem no país. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a capacidade estática de silos no Brasil cobre historicamente menos de 70% do volume total da safra nacional, forçando a venda imediata e retirando do produtor o poder de negociar no melhor momento do mercado.

Vender antecipadamente é, muitas vezes, a saída encontrada para evitar as altas taxas de juros e as pesadas garantias exigidas pelas instituições financeiras tradicionais. Contudo, mesmo para aqueles que conseguem acessar linhas de crédito subsidiadas (como as do Plano Safra), os riscos envolvidos na atividade não são totalmente amenizados. Fatores climáticos adversos, oscilações nos preços de combustíveis e a dependência de fertilizantes e defensivos agrícolas majoritariamente importados mantêm o produtor duramente exposto à variação cambial. Todas essas variáveis, quando não protegidas por operações financeiras adequadas (hedge), corroem a margem de lucro de quem está no setor.

Outro fator crítico que observo de forma latente, especialmente na região do MATOPIBA, é a falta de investimento na capacitação ou contratação de gestores profissionais. Falta ao mercado regional executivos com visão estratégica que saibam como agir em cenários adversos, que dominem o arcabouço regulatório do comércio exterior e que estruturem captações de recursos, tanto nacionais quanto estrangeiras, voltadas especificamente para a exportação.

Essa organização não pode ser um esforço solitário. Exige uma sinergia entre o setor produtivo e o poder público. Basta lembrarmos de episódios recentes envolvendo ameaças de "tarifaços" e barreiras comerciais protecionistas impostas por grandes potências mundiais. Nessas situações, o país, por vezes, ficou sem propostas claras e sem negociadores diplomáticos ativos em tempo hábil, deixando o produtor à mercê das retaliações.

É evidente que o setor produtivo exportador precisa de um planejamento mais sofisticado para traçar o caminho rumo à expansão comercial. Precisamos estruturar organizações (como cooperativas e consórcios de exportação) capacitadas para a busca e venda direta a compradores internacionais, reduzindo a dependência de atravessadores. Em contrapartida, o poder público tem o dever de monitorar as tendências do comércio global e, primordialmente, destravar os investimentos urgentes na infraestrutura logística, como a otimização de corredores de escoamento, ferrovias e portos. A estagnação nesses pontos pode nos custar caro, resultando na perda de market share mundial na produção de alimentos, setor em que hoje somos referência.

O sucesso na costura de acordos comerciais bilaterais também é a chave para a atração de capital estrangeiro. Contratos comerciais sólidos, com previsão de recebimentos em moeda forte (dólar ou euro), podem ser utilizados como lastro e garantia para a captação de linhas de crédito internacionais com taxas muito mais atrativas que as praticadas no Brasil. A exemplo do Adiantamento sobre Contratos de Câmbio (ACC). Contudo, para acessar esse mercado financeiro global, a preparação de um modelo de gestão profissionalizado e transparente é inegociável.

Em suma, a transição de um modelo focado apenas na produção primária para uma atuação global, estratégica e de alto valor agregado exige uma virada de chave imediata na gestão. O produtor precisa aliar a vocação natural do nosso solo a uma governança corporativa e financeira robusta. Ao unir a excelência do campo a uma gestão moderna de riscos, a uma logística eficiente e a uma diplomacia comercial firme, o MATOPIBA e o Brasil poderão não apenas preservar sua relevância, mas também liderar os rumos da segurança alimentar global com mais autonomia e rentabilidade nas próximas décadas.

Wagner Matos 

Economista

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