A Disputa Global pelo Diesel e o Alerta para a Economia Brasileira
Meus amigos, relato que, ultimamente os empreendedores do agronegócio e da logística de distribuição demonstram uma preocupação crescente e justificada com o comportamento do preço do diesel.
Agora esclareço, compreender a gravidade do que pode ocorrer e seus efeitos sobre o nosso “Custo Brasil”, é preciso observar o principal foco dessa volatilidade, o cenário norte-americano. Nos Estados Unidos, os preços do diesel atingiram o maior valor de todos os tempos, superando a marca de US$ 6,50 por galão. Diante deste cenário, o governo americano passou a considerar uma proibição total das exportações, o que manteria quase 2 milhões de barris por dia dentro do país. A intenção é ampliar a oferta interna e reduzir os preços antes do inverno rigoroso no Hemisfério Norte. Entretanto, especialistas alertam que, embora a intenção seja aliviar o mercado doméstico, um bloqueio de exportações nessa proporção pode gerar uma instabilidade profunda nas cadeias de suprimentos globais, com um potencial efeito bumerangue (rebote) sobre os custos de importação dos próprios americanos.
Para dimensionar o problema, é preciso observar os indicadores centrais da balança comercial de combustíveis americana. Segundo dados da Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), as refinarias do país produzem aproximadamente 5,3 milhões de barris de diesel e combustíveis relacionados por dia. Como a demanda interna necessita de 3,6 milhões de barris diários, gera-se um excedente natural de cerca de 1,7 milhão de barris. No último mês, os EUA exportaram um volume recorde de quase 1,9 milhão de barris por dia, destinados principalmente para à Europa e à América Latina, incluindo o Brasil.
A capacidade de exportação dos Estados Unidos enfrenta pressão ainda maior no atual cenário geopolítico. O bloqueio do Estreito de Ormuz interrompe uma das principais rotas marítimas do mundo e restringe um corredor logístico que, historicamente, transportava mais de 20 milhões de barris de petróleo e derivados por dia. Paralelamente, refinarias russas e sauditas vêm sendo atacadas. As sucessivas ofensivas com drones contra instalações em cidades como Ryazan, Saratov e Moscou comprometeram grande parte da capacidade de refino da Rússia, levando Moscou a estocar o próprio diesel. A Arábia Saudita também sofre com os ataques dos rebeldes houthis (milícias apoiadas pelo Irã) no oleoduto Leste-Oeste (East-West Pipeline), com capacidade para transportar até 7 milhões de barris por dia (bpd), cerca de 7% da demanda diária global, era a principal rota alternativa até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, permitindo o escoamento de petróleo bruto sem depender do vulnerável Estreito de Ormuz. Esses dados são da Agência Internacional de Energia (IEA).
Com a forte redução desses canais de fornecimento russos e sauditas, os Estados Unidos passaram a figurar entre os últimos grandes fornecedores globais ainda capazes de exportar livremente.
Na economia real, os preços do diesel não afetam apenas os caminhões, afetam os custos de frete marítimo, preços de alimentos e despesas logísticas gerais. Basicamente, tudo o que circula por rodovias ou rotas marítimas é afetado diretamente. Caso a proibição de exportação americana de fato ocorra, essa reação em cadeia poderá alcançar os mercados globais em poucas semanas. Analistas do varejo avaliam que eventuais quedas temporárias no frete doméstico americano seriam rapidamente anuladas por um choque inflacionário internacional, com aumento dos preços dos bens de consumo e prejuízos à logística mundial.
Nesse cenário, preocupa a lentidão do governo brasileiro e da Petrobras na adoção de estratégias de médio e longo prazo. Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, segundo dados históricos da ANP, a ausência de uma política sólida para proteger o mercado interno de choques externos amplia nossa vulnerabilidade. O principal alerta é para uma pressão inflacionária (IPCA) muito mais intensa nos próximos períodos.
Concluo que, não se trata apenas de uma crise energética distante, mas de uma ameaça imediata ao orçamento das famílias e à competitividade do setor produtivo brasileiro. Com a taxa básica de juros (SELIC) sob pressão e os indicadores da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrando níveis históricos de endividamento e inadimplência, a população já está no limite financeiro. Sem um plano estatal de mitigação de riscos, a alta dos custos logísticos globais chegará inevitavelmente às prateleiras dos supermercados, convertendo a crise do diesel em uma grave crise social e econômica.
Wagner Matos
Economista
Saiba Mais
Receba também as principais notícias do Maranhão, do Brasil e do mundo diretamente no seu e-mail. Cadastre-se gratuitamente no Imirante.com e ative a opção "Receber conteúdos por e-mail" para acompanhar a Newsletter do Imirante.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.