O historiador e a responsabilidade de compreender o tempo
A definição parece simples, mas encerra uma profunda mudança de perspectiva.
Ontem, 19 de agosto, comemoramos o Dia Nacional do Historiador, instituído no país pela Lei n.º 12.130/2009, em homenagem ao nascimento de Joaquim Nabuco, político, diplomata, abolicionista, fundador da Academia Brasileira de Letras e historiador do Império e do início da República. É oportuno refletir não apenas sobre a importância dessa profissão, mas, sobretudo, sobre a responsabilidade intelectual e social daqueles que têm como ofício investigar, interpretar e escrever sobre a experiência humana no tempo.
Poucos historiadores expressaram essa tarefa com tanta força quanto Marc Bloch, um dos fundadores, ao lado de Lucien Febvre, da Escola dos Annales. Em sua obra inacabada Apologia da História ou O Ofício do Historiador, escrita em circunstâncias dramáticas durante a Segunda Guerra Mundial, Bloch formulou uma das definições mais importantes da historiografia contemporânea: a História é a “ciência dos homens no tempo”.
A definição parece simples, mas encerra uma profunda mudança de perspectiva. Para Bloch, o objeto da História não é o passado em si, como se fosse algo morto e acabado, mas os homens e as sociedades em sua dimensão temporal. O passado interessa ao historiador porque nele estão as experiências, conflitos, escolhas, permanências e rupturas que ajudam a compreender o mundo em que vivemos.
Por isso, Bloch advertia contra aquilo que chamou de “obsessão das origens”: a ideia de que encontrar o começo de um fenômeno seria suficiente para explicá-lo. A História exige mais. É necessário compreender os processos, as circunstâncias, as relações e as transformações que dão significado aos acontecimentos.
Essa concepção transforma o historiador em um investigador. Ele não é simplesmente um narrador de acontecimentos nem um colecionador de datas. Seu trabalho começa com perguntas, problemas, documentos, vestígios e hipóteses. Como escreveu Bloch, a História é uma “busca” e, portanto, envolve escolhas. O historiador seleciona objetos, formula problemas, confronta fontes e constrói interpretações fundamentadas. É justamente aí que se encontra a dimensão crítica do ofício.
Lucien Febvre, companheiro intelectual de Bloch e também fundador dos Annales, contribuiu decisivamente para ampliar os horizontes da disciplina histórica. Em oposição a uma História limitada aos grandes acontecimentos políticos, aos reis e aos heróis, Febvre defendeu uma História preocupada com as diversas atividades humanas, com as sociedades, as mentalidades e as relações entre diferentes campos do conhecimento. Sua obra Combates pela História tornou-se uma referência fundamental dessa renovação historiográfica.
A renovação proposta pelos Annales significou também ampliar o conceito de fonte histórica. O historiador passou a interrogar não apenas documentos oficiais, mas os diferentes vestígios deixados pela humanidade. Em Bloch, essa perspectiva aparece de forma particularmente clara: o documento é entendido como um vestígio, uma marca deixada por fenômenos humanos que já não podemos observar diretamente.
Décadas depois, Jacques Le Goff aprofundaria essa reflexão ao discutir a relação entre História e memória. Para o medievalista francês, a memória não é apenas uma lembrança individual ou coletiva; ela também está relacionada às disputas sociais pelo poder e pela construção das identidades. A memória coletiva pode ser, simultaneamente, conquista, instrumento e objeto de poder.
Em História e Memória, Le Goff mostra ainda que a relação entre passado e presente é inseparável da própria construção do conhecimento histórico. A História vivida pelas sociedades e o esforço científico de descrevê-la e interpretá-la constituem dimensões fundamentais do conceito de História.
Nesse sentido, o historiador possui uma função pública que ultrapassa os limites da universidade e dos arquivos. Ele participa da construção da memória social e tem a responsabilidade de questionar versões cristalizadas, confrontar evidências e dar visibilidade a experiências que, muitas vezes, foram esquecidas ou deliberadamente silenciadas.
Essa preocupação encontra um antecedente importante em Jules Michelet, historiador francês do século XIX. Em sua obra, especialmente em O Povo, os sujeitos anônimos ganham protagonismo. O povo deixa de ser mero espectador dos acontecimentos e passa a ser compreendido como agente da História. Estudos sobre Michelet destacam justamente essa dimensão pedagógica de seu trabalho: escrever História também poderia significar devolver ao povo a consciência de sua própria trajetória.
Michelet representa, portanto, uma importante mudança na escrita histórica: a História não deveria estar restrita aos reis, generais e grandes personagens. Era necessário olhar para a sociedade, para os trabalhadores, para as mulheres, para os grupos populares e para aqueles que durante muito tempo permaneceram nas margens das narrativas tradicionais.
No século XX, Eric Hobsbawm acrescentou outra dimensão indispensável ao ofício: a defesa da distinção entre a investigação histórica e a fabricação de narrativas sem compromisso com as evidências. Em Sobre História, o historiador chama atenção para a necessidade de distinguir o fato comprovável da ficção e alerta para os usos políticos do passado.
O passado, nesse sentido, não pode ser tratado como matéria-prima disponível para qualquer manipulação. Sociedades podem selecionar memórias, criar tradições e utilizar interpretações históricas para legitimar projetos políticos. Cabe ao historiador investigar essas operações e perguntar: quem produziu essa narrativa? Com quais fontes? Para quais finalidades? Quem foi incluído e quem foi excluído dela?
Essa é uma das maiores contribuições da historiografia moderna: ensinar que História não é simplesmente memória, opinião ou lembrança. História é investigação crítica do passado humano, realizada a partir de problemas, fontes, métodos e interpretações submetidas ao debate público e acadêmico.
Por isso, celebrar o Dia Nacional do Historiador é celebrar também a importância do pensamento crítico.
Em tempos de excesso de informações, desinformação, revisionismos sem fundamento e disputas pela memória, o historiador torna-se ainda mais necessário. Seu trabalho é combater o esquecimento, mas também combater a falsificação; preservar documentos, mas igualmente interrogá-los; compreender o passado, sem transformá-lo em instrumento de propaganda.
Marc Bloch, Febvre, Michelet, Le Goff e Hobsbawm, cada um a partir de seu tempo e de suas perspectivas, ajudaram a demonstrar que a História é muito mais do que uma sucessão de acontecimentos. É investigação sobre homens e mulheres, sociedades, culturas, conflitos, permanências e transformações.
O historiador é, portanto, um profissional do tempo e da crítica. Seu compromisso não é simplesmente contar o que aconteceu, mas compreender por que aconteceu, como foi narrado, quem deixou os vestígios e quais sentidos o passado adquire no presente.
E talvez seja essa a maior homenagem que se possa prestar ao historiador: reconhecer que uma sociedade que conhece criticamente sua História está mais preparada para compreender o presente e pensar, com maior liberdade, o futuro. Feliz Dia Nacional do Historiador.
Saiba Mais
As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.