Euges Lima
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COLUNA
Euges Lima
Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
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Pedra da Gávea: entre a geologia e a hipótese fenícia

Não é possível oferecer uma tradução confiável das marcas atualmente visíveis na Pedra da Gávea.

Euges Lima

Enquanto novas evidências não surgirem, a hipótese de uma inscrição fenícia na Pedra da Gávea permanece uma possibilidade histórica não demonstrada
Enquanto novas evidências não surgirem, a hipótese de uma inscrição fenícia na Pedra da Gávea permanece uma possibilidade histórica não demonstrada (Foto: Divulgação)

Por mais de um século, a suposta inscrição da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, tem despertado o interesse de historiadores, arqueólogos, geólogos e estudiosos das antigas navegações. Desde que Bernardo de Azevedo da Silva Ramos publicou sua interpretação (“Tiro, Fenícia. Badezir, primogênito de Jethbaal”), no início do século XX, sugerindo que aqueles sulcos corresponderiam a uma inscrição fenícia, o debate permanece vivo, embora sem consenso científico.

A presente análise partiu de fotografias do paredão rochoso, nas quais foram realçados digitalmente os principais sulcos e fraturas visíveis. Em seguida, esses traços foram comparados com as vinte e duas letras do alfabeto fenício, utilizado no Mediterrâneo oriental entre os séculos XI e III a.C.

O estudo revelou que algumas marcas apresentam semelhanças formais com determinados caracteres fenícios, sobretudo aqueles compostos por traços verticais, ângulos e linhas simples. Visualmente, alguns sulcos lembram letras como Waw, Taw, Lamed, Yod e Resh. Contudo, essas correspondências são apenas morfológicas e não constituem prova de escrita.

Quando analisadas segundo os critérios da Epigrafia (disciplina responsável pelo estudo das inscrições antigas) surgem dificuldades significativas. As marcas não apresentam alinhamento uniforme, não mantêm espaçamento regular entre supostos caracteres, variam em profundidade e orientação e, principalmente, não formam uma sequência linguística coerente. Em diversos pontos, observa-se que muitos dos traços acompanham fraturas naturais do granito, típicas do processo de intemperismo e da decomposição da rocha.

Caso se tentasse uma leitura exclusivamente pela aparência das formas, seria possível construir diversas sequências diferentes, cada uma produzindo interpretações distintas. Essa multiplicidade demonstra justamente a fragilidade da hipótese. Uma inscrição autêntica deveria conduzir praticamente todos os especialistas à mesma leitura, independentemente de suas convicções pessoais.

Por essa razão, não é possível oferecer uma tradução confiável das marcas atualmente visíveis na Pedra da Gávea. Qualquer tentativa de converter esses sulcos em palavras fenícias dependeria de escolhas subjetivas sobre quais traços considerar letras e quais ignorar.

A conclusão do presente estudo é equilibrada. As fotografias mostram que existem formas que, isoladamente, lembram alguns caracteres do antigo alfabeto fenício. Entretanto, essas semelhanças não ultrapassam o campo visual e não constituem evidência suficiente para afirmar que se trata de uma inscrição produzida por navegadores fenícios ou por qualquer outra civilização antiga.

Isso não diminui a importância histórica da Pedra da Gávea. Ao contrário, o monumento continua sendo um dos mais fascinantes sítios naturais do Brasil e um exemplo de como paisagens extraordinárias podem estimular hipóteses históricas, investigações científicas e debates que atravessam gerações.

O caminho mais promissor para o futuro não consiste em defender ou rejeitar previamente a hipótese fenícia, mas em aprofundar sua investigação por meio de técnicas modernas, como escaneamento tridimensional de alta resolução, fotogrametria, análise microscópica das superfícies e estudos comparativos conduzidos por equipes multidisciplinares envolvendo geólogos, arqueólogos, epigrafistas e historiadores.

Enquanto novas evidências não surgirem, a hipótese de uma inscrição fenícia na Pedra da Gávea permanece uma possibilidade histórica não demonstrada, interessante como objeto de pesquisa, mas ainda insuficientemente comprovada à luz dos critérios científicos atualmente aceitos.


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