COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
Felipe Fernandes

Não se guarda rancor na geladeira

O rancor que ficou guardado por anos acabou revelando uma das maiores lições sobre responsabilidade, gestão e amadurecimento.

Felipe Fernandes

- Atualizada em 09/08/2026 às 10h15

Na última sexta-feira, num almoço, meu amigo Eduardo Moreira me disse uma frase que não saiu mais da minha cabeça. Conversávamos sobre muitos assuntos — inclusive sobre uma coisa que escrevi aqui há pouco tempo — quando ele soltou, com a naturalidade de quem já pensou muito sobre o assunto: não se deve guardar rancor na geladeira.

Fiquei com aquilo. Porque a imagem é perfeita. Rancor guardado na geladeira é o rancor que a gente conserva. Mantém frio, intacto, protegido do tempo, para poder servir depois, sempre que a memória bater à porta. A gente acha que está guardando para usar contra o outro. Mas o outro seguiu a vida. Quem abre a geladeira todo dia, e sente o cheiro, é a gente.

Sei disso porque levei anos com uma dessas na minha.

No começo da minha trajetória empresarial, eu tocava obras em dois estados ao mesmo tempo. As do Pará eram maiores e mais complexas que as do Maranhão, e resolvi conduzi-las pessoalmente, deixando as daqui sob a responsabilidade de alguém em quem eu depositava confiança total. Confiei sem conferir. Deleguei sem acompanhar. Estava a um estado de distância, absorvido pela frente maior, e tirei o olho da frente que ficou para trás. Quando percebi, o estrago já estava feito. Foi um golpe duro — daqueles que não atingem só o bolso, mas o nome, a reputação, a confiança de quem trabalhava comigo. Levei anos para me reerguer daquilo. E, por muito tempo, carreguei um rancor profundo.

Guardei aquele rancor na geladeira. Repassava mentalmente o que ele tinha feito, a injustiça, o tamanho do prejuízo. E toda vez que eu abria aquela porta, revivia a raiva como se fosse o primeiro dia. O tempo passava lá fora, mas dentro da geladeira aquilo continuava fresco, gelado, pronto para me envenenar de novo.

Vou ser honesto sobre uma coisa, porque seria fácil fingir aqui uma serenidade que eu não tenho. Não sei se o que sinto hoje é perdão. Nunca cheguei a entender de verdade o que ele fez, e ele teve, ao longo dos anos, várias oportunidades de se retratar — e não fez nenhuma. Então não vou escrever bonito sobre perdão. O que aconteceu foi diferente, e talvez até mais difícil: eu simplesmente decidi tirar aquilo da geladeira.

Porque descobri, com o tempo, que não guardar rancor não é a mesma coisa que perdoar. Perdoar depende, em parte, do outro — do arrependimento dele, da reparação, de um gesto que às vezes nunca vem. Já parar de guardar rancor depende só de mim. É a decisão de que aquilo não vai mais ocupar espaço, não vai mais gastar minha energia, não vai mais gelar dentro de mim esperando um dia de ser servido. Eu me liberto independentemente de o outro merecer. E é justamente aí que está a força dessa escolha: ela não é sobre ele. É sobre mim.

Mas houve algo que precisou acontecer antes de eu conseguir fechar aquela porta. E foi a parte mais difícil.

Eu precisei parar de olhar só para o que ele fez, e começar a olhar para o que eu fiz. Porque a verdade incômoda é esta: eu era o dono. Era o meu nome que estava na empresa. A responsabilidade final era minha, e só minha. Eu confiei demais, conferi de menos, e me permiti a comodidade de delegar sem acompanhar. O erro dele foi dele. Mas a porta que eu deixei aberta foi eu que deixei. E enquanto eu botasse toda a culpa nele, eu continuava refém — porque a raiva de quem culpa apenas o outro nunca liberta, só aprisiona.

Foi aí que o rancor virou outra coisa. Virou lição. Aquele episódio, que quase me quebrou, me ensinou a coisa mais importante que sei hoje sobre gestão: por mais que existam pessoas competentes à frente das operações, a responsabilidade é sempre do dono. Hoje eu confiro. Hoje eu acompanho os números de perto. Hoje eu sei que confiança não substitui diligência. Aprendi da pior forma possível — mas aprendi.

E é aqui que aprendi a maior lição de todas, que não é sobre gestão. É fácil agradecer a Deus quando Ele nos dá aquilo que pedimos. Difícil é agradecer quando Ele permite justamente aquilo que não queríamos que acontecesse. Levei tempo, mas hoje dou graças a Deus também por esse episódio — porque foi ele que me formou, que me tornou mais atento, mais maduro e mais preparado do que qualquer sucesso teria me tornado. Quem menos imaginava acabou sendo um dos meus maiores professores.

Talvez seja esse o melhor uso que podemos dar a uma mágoa: transformá-la em aprendizado, agradecer pelo que ela ensinou e, então, deixá-la ir. Enquanto fica gelada na geladeira, só faz mal a quem a guarda. Quando vira lição, ela finalmente cumpre a única função que valia a pena — e pode ser descartada.

Voltei a pensar em tudo isso naquele almoço, ouvindo a frase do Eduardo. Ele é um homem cuja sabedoria me faz, a cada conversa, querer ser um pouco melhor. Frases assim são espelhos. Devolvem, em poucas palavras, aquilo que a gente levou anos para aprender na prática.

Não guarde rancor na geladeira. Aprenda o que ele tem a te ensinar, agradeça pela lição — e, depois, tenha a coragem de jogar fora.


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