Felipe Fernandes
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COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
Felipe Fernandes

O perigo do sinal verde

Nos momentos em que tudo parece favorável, o excesso de confiança pode substituir o julgamento e transformar pequenos detalhes em grandes prejuízos.

Felipe Fernandes

Existe uma frase que me acompanha há alguns anos.

“Prefiro atravessar um sinal vermelho com muito cuidado do que passar por um sinal verde sem olhar para os lados.”

À primeira vista, ela parece um contrassenso. Afinal, o sinal verde existe justamente para indicar que a passagem está liberada. Mas basta dirigir por algum tempo para perceber que a função do semáforo nunca foi garantir a segurança de ninguém. Foi apenas organizar o trânsito.

O sinal verde autoriza a passagem. Não elimina o motorista distraído, o motociclista em alta velocidade ou o caminhão que decidiu avançar o vermelho. O risco continua existindo. A diferença é que, quando o sinal está verde, tendemos a baixar a guarda. A sensação de segurança diminui a atenção. E é justamente aí que mora o perigo.

Com o tempo, percebi que muitas decisões empresariais seguem exatamente a mesma lógica.

Há situações em que tudo parece indicar que o caminho está livre. O advogado aprovou o contrato. O contador validou a operação. O banco concedeu o financiamento. Os números são favoráveis. A concorrência está fazendo o mesmo movimento. Tudo parece liberado.

Nenhum desses sinais é irrelevante. Todos ajudam a reduzir riscos e tornam as decisões melhores. O problema começa quando confundimos esses sinais com a própria decisão. Quando deixamos que eles ocupem o lugar da única coisa que nunca poderá ser terceirizada: o julgamento.

A história empresarial brasileira oferece um exemplo que ilustra essa ideia melhor do que qualquer teoria.

Em 2005, Abílio Diniz fechou um acordo que parecia excelente sob todos os aspectos. O grupo francês Casino pagou centenas de milhões de dólares para dividir o controle do Pão de Açúcar e assumiu o compromisso de investir bilhões na expansão da empresa. Dinheiro entrando, crescimento garantido e um sócio internacional forte. Era difícil imaginar um cenário mais favorável.

Mas havia uma cláusula naquele contrato que poucos enxergavam como decisiva. Ela concedia ao Casino o direito de assumir o controle do grupo no futuro. Naquele momento de euforia, parecia apenas um detalhe distante. Anos depois, tornou-se a razão pela qual Abílio perderia o controle da empresa fundada por seu pai e protagonizaria uma das mais longas e desgastantes disputas societárias da história empresarial brasileira.

O próprio Abílio reconheceria, anos depois, que o maior erro da sua trajetória não foi cometido durante uma crise. Foi cometido justamente quando tudo parecia dar certo. O perigo não estava no sinal vermelho. Estava no sinal verde que ninguém julgou necessário examinar com mais cuidado.

Talvez por isso os maiores erros empresariais raramente aconteçam quando todos enxergam o risco. Nesses momentos, a prudência aparece naturalmente. O verdadeiro perigo costuma surgir quando tudo parece sob controle, quando ninguém faz perguntas e quando a sensação de segurança substitui a atenção aos detalhes.

Os empresários mais experientes aprendem, quase sempre da maneira mais cara, a resistir a essa tentação. Raramente assinam um contrato importante na primeira leitura. Fazem mais uma pergunta durante uma negociação que já parecia encerrada. Pedem uma segunda opinião. Procuram justamente a cláusula esquecida, a premissa que ninguém testou ou o detalhe que todos consideraram irrelevante. Não porque desconfiem de tudo, mas porque aprenderam que grandes prejuízos costumam nascer de pequenos descuidos cometidos justamente quando tudo indicava que daria certo.

Vivemos uma época em que nunca tivemos tanta informação disponível. Relatórios, indicadores, pareceres técnicos, consultorias e análises de mercado oferecem um volume impressionante de conhecimento. Tudo isso é indispensável. Mas nenhuma dessas ferramentas foi criada para substituir aquilo que continua sendo a principal responsabilidade de quem lidera uma empresa: exercer julgamento.

Talvez seja essa a verdadeira lição daquela frase que me acompanha há tantos anos. Continuo preferindo atravessar um sinal vermelho com muito cuidado do que passar por um sinal verde sem olhar para os lados. Não porque o vermelho seja mais seguro, mas porque ele me obriga a fazer aquilo que o verde, muitas vezes, me convida a abandonar: prestar atenção.

No fim, os semáforos organizam o trânsito. Nos negócios, contratos, indicadores e pareceres organizam a informação.

Mas nenhum deles dirige o carro.

Porque os maiores prejuízos não nascem dos dias de sinal vermelho. Nascem dos dias em que o sinal estava verde e ninguém achou necessário olhar para os lados.


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