O real e o perfilado
O perfilado é a versão pública da existência
No nosso tempo, a realidade parece cada vez mais mediada por versões. Não apenas interpretamos o mundo, nós o editamos, o enquadramos, o apresentamos. Temos a possibilidade, multiplicada por muito, de ver outra face da Lua sem sequer pedir carona à Artemis II, pintar a Terra e tudo o que orbita ao seu redor da cor que nos vier à cabeça.
Cada indivíduo, cada instituição, constrói seu próprio “perfil”: uma narrativa organizada de si, coerente, inteligível, aceitável. Mas, nesse esforço de apresentação, algo se desloca: o real já não coincide, necessariamente, com o que se mostra. E isso merece alguma atenção.
A teoria do iceberg, consagrada por Ernest Hemingway, oferece uma chave preciosa para compreender esse fenômeno. Aquilo que aparece — a ponta visível — é apenas uma fração do que sustenta a realidade. O restante, mais denso e decisivo, permanece submerso: motivações, contradições, interesses, medos, fraquezas pessoais e estruturais. No mundo contemporâneo, essa ponta visível ganhou nova forma: ela se chama perfil.
O perfilado é a versão pública da existência. É o conjunto de posições, imagens e discursos que projetamos no espaço comum. Nas redes sociais, ele se apresenta como convicção; nas instituições, como compromisso; na política, como narrativa. O problema não está, em si, no ato de comunicar, ele é necessário. O problema surge quando o perfil passa a substituir o real, quando a representação se autonomiza e deixa de prestar contas àquilo que deveria expressar.
No plano individual, esse descompasso é cada vez mais evidente. Vivemos sob o império da exposição e do julgamento. Cada palavra pode ser recortada, gestos podem ser amplificados, cada silêncio pode ser interpretado. Diante disso, o sujeito contemporâneo tende a organizar sua presença pública de forma defensiva: mais firme, mais coerente, mais segura do que sua própria experiência íntima permite. Não se trata, necessariamente, de falsidade. Trata-se de adaptação a um ambiente que penaliza a ambiguidade e recompensa a certeza.
Mas há um custo — e parece ser alto. Ao substituir o vivido pelo narrado, perdemos a capacidade de reconhecer a complexidade humana. Passamos a exigir dos outros, e de nós mesmos, uma coerência que não existe. E, nesse processo, o julgamento se torna mais rápido do que a compreensão.
No plano institucional, a tensão se agrava. Instituições não apenas agem; elas precisam comunicar que agem. Produzem relatórios, campanhas, posicionamentos públicos. Defendem valores, afirmam compromissos, assumem causas. Tudo isso é legítimo, mas nem sempre coincide com o funcionamento real. Os processos deixam de ser essenciais, com foco deslocado para o resultado.
Há instituições que proclamam transparência, mas operam em zonas de opacidade; que defendem direitos, mas reproduzem desigualdades internamente, reeditando práticas de escravismo funcional; que assumem compromissos públicos, mas os flexibilizam quando confrontadas com interesses concretos. Aqui, o perfilado é a narrativa institucional; o real é a prática cotidiana. E, entre ambos, instala-se uma zona de tensão que raramente é enfrentada com honestidade.
É nesse ponto que a advertência de Hannah Arendt se impõe com atualidade inquietante. O maior risco não é apenas a mentira deliberada, mas a substituição progressiva da realidade por versões que passam a ser aceitas como verdade. Quando isso ocorre, perdemos não apenas os fatos, mas o próprio chão comum sobre o qual o debate público se sustenta.
A pergunta que se impõe, então, é inevitável: onde está o âmago da verdade?
A resposta não é simples — e talvez resida exatamente nisso. A verdade não está integralmente na superfície, mas também não se encontra intacta nas profundezas. Ela se revela na tensão entre o que se diz e o que se faz, entre o que se mostra e o que se vive. Aparece nos descompassos, nas fissuras, nos momentos em que a narrativa já não consegue encobrir a realidade que insiste em emergir. Uma coisa é certa: ela aparece.
Buscar a verdade, hoje, exige mais do que acesso à informação; exige disposição para atravessar camadas, para desconfiar do imediato, para sustentar a complexidade. Exige, sobretudo, resistir à sedução das respostas prontas e dos perfis bem acabados.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja recuperar a profundidade do olhar. Em um mundo que premia a velocidade e a visibilidade, compreender tornou-se um ato de resistência. E, como no iceberg, aquilo que realmente importa não se oferece à primeira vista. É preciso mergulhar.
Por outro lado, todos nós assistimos ao Titanic. Sabemos bem: a ponta do iceberg é um aviso, mas, se não notada a tempo, não impede o naufrágio. Na imensa noite social em que estamos inseridos e dispersos, olhar para fora parece exigir cada vez mais esforço.
Porque, entre o real e o perfilado, a verdade não desapareceu. Ela apenas deixou de ser evidente.
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