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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

O Novo Quintal

Hoje, o quintal mudou de endereço

Kécio Rabelo

Houve um tempo em que a infância cabia inteira dentro de um quintal. O mundo era grande, mas não assustava. Cabia na rua de casa, na varanda onde as conversas atravessavam o fim da tarde, no portão que rangia anunciando mais um amigo chegando. A alegria e a confiança moravam ali, nas brincadeiras improvisadas, nos joelhos ralados, na vigilância silenciosa de vizinhos que, sem saber, protegiam.

Hoje, o quintal mudou de endereço.

Cabe dentro de uma tela.

É por isso que se fala tanto, agora, em um novo ECA digital. Não como substituto daquele que já conhecemos, mas como um alargamento necessário. Porque se antes proteger crianças e adolescentes significava garantir escola, saúde e abrigo, hoje também implica cuidar dos caminhos invisíveis por onde eles caminham sem sair do quarto.

A internet não é vilã. Nunca foi. Ela ensina, conecta, abre horizontes. Mas também escancara portas que uma criança não sabe, e não tem como saber, quando deve fechar. E aí mora o desafio: como proteger sem isolar, como orientar sem invadir, como acompanhar sem vigiar em excesso.

Talvez a resposta não esteja apenas em leis.

Talvez comece dentro de casa.

Há uma espécie de silêncio moderno que se instalou nas famílias. Pessoas que dividem o mesmo teto, mas não necessariamente o mesmo tempo. Falta convivência. Falta diálogo. E quando essas ausências crescem, a tela deixa de ser ferramenta e vira refúgio. Uma janela sempre aberta, com tudo o que ela possui, o bom, o perigoso, o excessivo.

Nesse cenário, há algo ainda mais sutil que se desenha sem alarde: o diálogo, ou a ausência dele, e o ritmo da casa, seja qual for sua configuração, acabam estabelecendo parâmetros comportamentais, percebidos ou não. A criança aprende o mundo muito antes de conseguir explicá-lo. Aprende no tom de voz, nos silêncios, na pressa cotidiana ou na falta dela, nos encontros e nas ausências.

Por isso talvez não seja estranho, ainda que seja profundamente inquietante, perceber crianças que, mesmo sem grandes ocupações ou preocupações formais, já se mostram cansadas, ansiosas, estressadas. Elas não vivem apenas a própria infância, absorvem também o ambiente que as cerca. E quando falta chão no cotidiano, a tela oferece um, ainda que instável.

O novo ECA digital, no fundo, não será feito apenas de artigos e incisos. Ele precisará nascer também de pequenos gestos cotidianos: perguntar como foi o dia, e esperar a resposta de verdade; sentar junto, ainda que em silêncio; conhecer o que o outro vê, joga, segue; construir confiança antes de exigir controle.

Porque nenhuma proteção tecnológica substitui o vínculo humano.

E talvez seja importante dizer: não se trata de regredir. Não há retorno possível aos quintais de antigamente, às ruas despreocupadas ou às varandas sempre ocupadas. O que existe é outra coisa, um avanço necessário, mas que exige consciência. É preciso seguir adiante sabendo onde se pisa.

Esse horizonte digital é aberto, vasto e, em muitos aspectos, estranho, tanto para adultos quanto para crianças.

E, no meio disso tudo, talvez uma das tarefas mais delicadas seja aprender a soltar as mãos. Não no sentido de abandonar, mas de permitir o crescimento com presença, com orientação, com confiança construída aos poucos. Soltar sem desaparecer. Acompanhar sem aprisionar.

Se a infância hoje passa pelas telas, que passe também pelas mãos de quem orienta.

E que, entre um clique e outro, ainda haja espaço para aquilo que nunca deveria ter saído de cena: a conversa, o afeto e a confiança.


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