Quaresma em Quarteirões
Entre igrejas e ruas antigas de São Luís, dois caminhantes atravessam a cidade e suas próprias reflexões quaresmais.
A cidade parecia mais lenta naquela tarde. Não era apenas impressão. Havia algo no ar — talvez o som grave dos sinos, talvez o roxo silencioso que cobria os altares — que dava às ruas antigas de São Luís um ritmo mais recolhido. Na Quaresma, a cidade parece aprender a falar mais baixo.
Foi assim que Venâncio e Dalva saíram da Igreja de Santo Antônio.
O último badalo ainda ecoava quando atravessaram a porta pesada de madeira. Lá dentro, tudo estava diferente: os altares sem flores, as imagens discretamente veladas, o incenso subindo devagar, como se também ele respeitasse o tempo de silêncio daquele período do ano.
— A cidade está mais triste hoje — disse Venâncio, enquanto desciam os primeiros passos da ladeira.
Dalva olhou em volta antes de responder.
— Não é tristeza, Venâncio… é silêncio.
E caminharam.
A Igreja de Santo Antônio guardava memórias antigas. Ali mesmo, séculos antes, o padre Antônio Vieira havia pregado alguns de seus sermões. Dizem que quando Vieira falava, as palavras pareciam ocupar o espaço inteiro, como se as paredes também se tornassem ouvintes. Talvez por isso aquela igreja tivesse sempre um ar de gravidade serena, como se o tempo ainda estivesse ali, suspenso entre as colunas.
Eles seguiram pela Rua dos Afogados, cujo nome sempre provocava alguma reflexão.
— Afogados somos todos um pouco — comentou Venâncio.
Dalva sorriu de leve.
— Uns na pressa, outros nas preocupações… outros nas próprias escolhas.
A rua estreita conduzia naturalmente a um passo mais lento. Na Quaresma, até as vitrines pareciam menos luminosas. A cidade não parava — apenas diminuía o tom.
Dobrararam depois na Rua do Sol, onde a luz do fim da tarde repousava sobre as fachadas coloniais.
— Curioso — disse Venâncio. — Chama-se Rua do Sol, mas na Quaresma parece que caminhamos mais pelas sombras.
— Talvez porque seja nelas que a gente se encontra — respondeu Dalva.
Ou se perde, pensou ele, sem dizer.
Seguiram então pela Rua da Paz, nome que soava quase como uma promessa urbana.
— A cidade tem esses nomes que parecem orações — comentou Dalva. — Afogados, Sol, Paz…
— Como se cada rua lembrasse uma condição humana — respondeu Venâncio.
Quando chegaram ao Largo do Carmo, já havia gente reunida. Era o dia da Procissão do Encontro. Crianças seguravam velas, senhoras falavam baixo, homens acompanhavam em silêncio.
De um lado da praça vinha a imagem do Senhor carregando a cruz. Do outro, Nossa Senhora das Dores.
As duas procissões avançavam lentamente. Quando as imagens finalmente se aproximaram, o murmúrio cessou quase por completo. Ficou apenas o som das sandálias, das velas tremendo na brisa e de algum choro contido.
Venâncio observou a cena com atenção.
O filho carregando a cruz. A mãe olhando o sofrimento.
Não havia milagre naquele encontro. Não havia desvio da dor. Apenas reconhecimento.
— Essa cena sempre me atravessa — disse ele.
Dalva assentiu.
— O encontro da mãe com o filho.
— E do filho com a mãe.
Ao lado deles, uma senhora enxugava os olhos.
Venâncio falou quase em sussurro:
— Penso nas mães de hoje.
— Em quais?
— Nas que ainda procuram seus filhos. Nas que esperam uma notícia. Nas que vivem no desencontro permanente da ausência.
Dalva respirou fundo.
— O mundo tem muitos desencontros.
Desencontros físicos.
Desencontros de ideias.
Desencontros de espírito.
Famílias que dividem o mesmo teto e já não conseguem partilhar a mesma esperança.
Quando a procissão começou a se dispersar, eles retomaram o caminho pela Rua Formosa.
— Bonito nome — observou Venâncio.
— Talvez porque a vida precise lembrar que a beleza ainda existe, mesmo quando o mundo parece pesado demais.
Algumas janelas estavam abertas. Uma senhora observava a rua com aquele olhar antigo de quem conhece o movimento das estações da cidade.
— A Quaresma não é tristeza — disse Dalva.
— Não?
— É verdade.
Verdade sobre o que somos. Sobre onde nos perdemos. Sobre onde ainda podemos nos encontrar.
Desceram então pela Rua da Palma. Pouco antes de alcançarem o destino final, surgiu à direita o antigo Convento das Mercês.
Venâncio diminuiu o passo.
— Sempre me impressiona esse lugar.
O prédio parecia guardar o silêncio de séculos.
— Foi aqui que o padre Vieira, em 1654, pregou o Sermão de São Pedro Nolasco — lembrou Dalva.
Venâncio observou os arcos do claustro.
— Dizem que ele falava com admiração desses corredores… desses arcos antigos… desse pátio frio onde o silêncio parece respirar.
Claustros sempre foram lugares de recolhimento. Espaços onde o mundo exterior diminui para que a alma escute melhor.
— Engraçado — disse Venâncio — pensar que há quase quatrocentos anos alguém pregava aqui sobre misericórdia e libertação… e nós continuamos tentando aprender as mesmas coisas.
— Algumas lições levam séculos — respondeu Dalva.
Seguiram então alguns passos adiante.
Logo surgiu a Igreja do Desterro, simples, silenciosa, quase recolhida na própria história.
Eles pararam diante dela.
— Curioso — disse Venâncio. — Começamos em Santo Antônio e terminamos no Desterro.
Dalva sorriu com serenidade.
— Como acontece com muitas vidas.
Entre encontros e desterros.
Entre perdas e reencontros.
Entre buscas.
O céu já escurecia sobre o centro antigo.
— Você acredita que as pessoas ainda conseguem se encontrar de verdade? — perguntou Venâncio.
Dalva pensou um instante.
— Às vezes.
— E quando não conseguem?
Ela olhou para a igreja, para as ruas antigas, para a cidade que parecia respirar devagar.
— A Quaresma existe para isso.
— Para quê?
— Para lembrar que ainda há caminho.
Nesse momento, o sino do Desterro começou a tocar.
E, por um instante, parecia que toda São Luís escutava.
Saiba Mais
As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.