(Divulgação)
COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Quaresma em Quarteirões

Entre igrejas e ruas antigas de São Luís, dois caminhantes atravessam a cidade e suas próprias reflexões quaresmais.

Kécio Rabelo

Atualizada em 13/03/2026 às 14h40

A cidade parecia mais lenta naquela tarde. Não era apenas impressão. Havia algo no ar — talvez o som grave dos sinos, talvez o roxo silencioso que cobria os altares — que dava às ruas antigas de São Luís um ritmo mais recolhido. Na Quaresma, a cidade parece aprender a falar mais baixo.

Foi assim que Venâncio e Dalva saíram da Igreja de Santo Antônio.

O último badalo ainda ecoava quando atravessaram a porta pesada de madeira. Lá dentro, tudo estava diferente: os altares sem flores, as imagens discretamente veladas, o incenso subindo devagar, como se também ele respeitasse o tempo de silêncio daquele período do ano.

— A cidade está mais triste hoje — disse Venâncio, enquanto desciam os primeiros passos da ladeira.

Dalva olhou em volta antes de responder.

— Não é tristeza, Venâncio… é silêncio.

E caminharam.

A Igreja de Santo Antônio guardava memórias antigas. Ali mesmo, séculos antes, o padre Antônio Vieira havia pregado alguns de seus sermões. Dizem que quando Vieira falava, as palavras pareciam ocupar o espaço inteiro, como se as paredes também se tornassem ouvintes. Talvez por isso aquela igreja tivesse sempre um ar de gravidade serena, como se o tempo ainda estivesse ali, suspenso entre as colunas.

Eles seguiram pela Rua dos Afogados, cujo nome sempre provocava alguma reflexão.

— Afogados somos todos um pouco — comentou Venâncio.

Dalva sorriu de leve.

— Uns na pressa, outros nas preocupações… outros nas próprias escolhas.

A rua estreita conduzia naturalmente a um passo mais lento. Na Quaresma, até as vitrines pareciam menos luminosas. A cidade não parava — apenas diminuía o tom.

Dobrararam depois na Rua do Sol, onde a luz do fim da tarde repousava sobre as fachadas coloniais.

— Curioso — disse Venâncio. — Chama-se Rua do Sol, mas na Quaresma parece que caminhamos mais pelas sombras.

— Talvez porque seja nelas que a gente se encontra — respondeu Dalva.

Ou se perde, pensou ele, sem dizer.

Seguiram então pela Rua da Paz, nome que soava quase como uma promessa urbana.

— A cidade tem esses nomes que parecem orações — comentou Dalva. — Afogados, Sol, Paz…

— Como se cada rua lembrasse uma condição humana — respondeu Venâncio.

Quando chegaram ao Largo do Carmo, já havia gente reunida. Era o dia da Procissão do Encontro. Crianças seguravam velas, senhoras falavam baixo, homens acompanhavam em silêncio.

De um lado da praça vinha a imagem do Senhor carregando a cruz. Do outro, Nossa Senhora das Dores.

As duas procissões avançavam lentamente. Quando as imagens finalmente se aproximaram, o murmúrio cessou quase por completo. Ficou apenas o som das sandálias, das velas tremendo na brisa e de algum choro contido.

Venâncio observou a cena com atenção.

O filho carregando a cruz. A mãe olhando o sofrimento.

Não havia milagre naquele encontro. Não havia desvio da dor. Apenas reconhecimento.

— Essa cena sempre me atravessa — disse ele.

Dalva assentiu.

— O encontro da mãe com o filho.

— E do filho com a mãe.

Ao lado deles, uma senhora enxugava os olhos.

Venâncio falou quase em sussurro:

— Penso nas mães de hoje.

— Em quais?

— Nas que ainda procuram seus filhos. Nas que esperam uma notícia. Nas que vivem no desencontro permanente da ausência.

Dalva respirou fundo.

— O mundo tem muitos desencontros.

Desencontros físicos.
Desencontros de ideias.
Desencontros de espírito.

Famílias que dividem o mesmo teto e já não conseguem partilhar a mesma esperança.

Quando a procissão começou a se dispersar, eles retomaram o caminho pela Rua Formosa.

— Bonito nome — observou Venâncio.

— Talvez porque a vida precise lembrar que a beleza ainda existe, mesmo quando o mundo parece pesado demais.

Algumas janelas estavam abertas. Uma senhora observava a rua com aquele olhar antigo de quem conhece o movimento das estações da cidade.

— A Quaresma não é tristeza — disse Dalva.

— Não?

— É verdade.

Verdade sobre o que somos. Sobre onde nos perdemos. Sobre onde ainda podemos nos encontrar.

Desceram então pela Rua da Palma. Pouco antes de alcançarem o destino final, surgiu à direita o antigo Convento das Mercês.

Venâncio diminuiu o passo.

— Sempre me impressiona esse lugar.

O prédio parecia guardar o silêncio de séculos.

— Foi aqui que o padre Vieira, em 1654, pregou o Sermão de São Pedro Nolasco — lembrou Dalva.

Venâncio observou os arcos do claustro.

— Dizem que ele falava com admiração desses corredores… desses arcos antigos… desse pátio frio onde o silêncio parece respirar.

Claustros sempre foram lugares de recolhimento. Espaços onde o mundo exterior diminui para que a alma escute melhor.

— Engraçado — disse Venâncio — pensar que há quase quatrocentos anos alguém pregava aqui sobre misericórdia e libertação… e nós continuamos tentando aprender as mesmas coisas.

— Algumas lições levam séculos — respondeu Dalva.

Seguiram então alguns passos adiante.

Logo surgiu a Igreja do Desterro, simples, silenciosa, quase recolhida na própria história.

Eles pararam diante dela.

— Curioso — disse Venâncio. — Começamos em Santo Antônio e terminamos no Desterro.

Dalva sorriu com serenidade.

— Como acontece com muitas vidas.

Entre encontros e desterros.
Entre perdas e reencontros.
Entre buscas.

O céu já escurecia sobre o centro antigo.

— Você acredita que as pessoas ainda conseguem se encontrar de verdade? — perguntou Venâncio.

Dalva pensou um instante.

— Às vezes.

— E quando não conseguem?

Ela olhou para a igreja, para as ruas antigas, para a cidade que parecia respirar devagar.

— A Quaresma existe para isso.

— Para quê?

— Para lembrar que ainda há caminho.

Nesse momento, o sino do Desterro começou a tocar.

E, por um instante, parecia que toda São Luís escutava.


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