SÃO LUÍS - Nos primeiros três meses desse ano, cerca de 222 comunidades rurais foram atingidas por pulverização de agrotóxicos no Maranhão. É o que aponta um levantamento divulgado nessa segunda-feira (06) pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino em Geografia da Universidade Federal do Maranhão (Lepeng-UFMA).
Os dados fazem parte de um balanço produzido pelo laboratório sobre os impactos graves à saúde, ao meio ambiente e à produção de alimentos que essas substâncias podem causar a curto e longo prazo.
De acordo com o relatório, janeiro foi o mês mais crítico, concentrando 142 comunidades afetadas, número superior a todo o registrado ao longo de 2025. Fevereiro registrou queda nos registros, mas especialistas alertam que isso pode estar ligado à subnotificação causada por medo e dificuldade de denúncia. Já em março, 45 comunidades foram afetadas em 11 cidades diferentes.
Problema atinge cidade que proíbem uso de agrotóxicos
Os municípios como São Benedito do Rio Preto, Chapadinha, Brejo, Anapurus e Timbiras estão entre os mais afetados por casos de pulverização de agrotóxicos. Mesmo em cidades que possuem leis proibindo a prática, como Brejo e Timbiras, os registros continuam ocorrendo.
Segundo o Lepeng, a maior parte das áreas atingidas está concentrada em comunidades vulneráveis. Mais de 75% dos casos envolvem populações tradicionais, quilombolas e indígenas.
Em Chapadinha, por exemplo, foram registradas 18 comunidades atingidas apenas em fevereiro deste ano, incluindo territórios quilombolas. Já em São Benedito do Rio Preto, 27 comunidades foram impactadas em janeiro, muitas delas também formadas por quilombolas, como Guarimã e Cancela. Há ainda registros em terras indígenas, como Alto Turiaçu e Bacurizinho, onde pelo menos sete aldeias do povo Guajajara foram afetadas.
TV Mirante mostrou realidade de lavradores atingidos por agrotóxicos
Em entrevista à TV Mirante, a lavradora Leci Martins dos Santos, moradora da comunidade Pau Darco, em Bacabal, relatou os danos que vem sofrendo depois que um drone de uma fazenda vizinha pulverizou defensivos agrícolas próximos à sua lavoura. Segundo ela, o receio de contaminação assusta e paralisa o trabalho na plantação.
“A gente não vende por medo. Porque a gente tem medo de afetar a saúde das pessoas”, confessou Leci.
O “Efeito deriva” é principal vilão da situação
Segundo a reportagem e investigações independentes, a intenção da fazenda era acabar com ervas que se espalhavam pelo pasto, mas ocorreu o chamado “efeito deriva”, ou seja, o produto químico foi carregado pelo vento para áreas não planejadas.
Em Parnarama, os relatos também aparecem. A TV Mirante entrevistou o lavrador Francisco Pereira Lima, morador do Quilombo Cocalinho. Segundo ele, quatro fazendas de soja nos arredores da comunidade pulverizam frequentemente as lavouras. É aí que o efeito deriva entra em ação e espalha a substância.
“No verão nós não plantamos, porque a enxurrada de água [das chuvas] deles não deixa”, comenta Francisco, falando a respeito da água contaminada por defensivos que sai das fazendas atinge as plantações do quilombo.
Problemas de saúde afetam pessoas atingidas por agrotóxicos
Segundo o Lepeng-UFMA, os moradores dessas áreas relatam sintomas logo após a exposição aos produtos químicos, como irritações na pele e nos olhos, falta de ar, náuseas, tonturas e vômitos. Em casos mais graves, há registros de convulsões e intoxicação severa.
O relatório do laboratório também alerta para efeitos de longo prazo, incluindo risco aumentado de câncer, problemas hormonais, doenças neurológicas e infertilidade, associados ao contato frequente com substâncias tóxicas usadas na agricultura.
Vinte e nove cidade são afetadas em todo o Estado
O relatório também traz informações sobre os municípios em que as 222 comunidades afetadas por contaminação de agrotóxicos. Confira a lista:
- Açailândia
- Alto Alegre do Maranhão
- Anapurus
- Bacabal
- Balsas
- Barra do Corda
- Brejo
- Centro Novo do Maranhão
- Chapadinha
- Codó
- Duque Bacelar
- Governador Newton Belo
- Grajaú
- Lago da Pedra
- Lago do Junco
- Lago dos Rodrigues
- Magalhães de Almeida
- Milagres do Maranhão
- Nina Rodrigues
- Peritoró
- Poção de Pedras
- São Benedito do Rio Preto
- São Bernardo
- São Domingos do Maranhão
- São Luís
- São Luís Gonzaga do Maranhão
- São Mateus do Maranhão
- São Raimundo do Doca Bezerra
- Timbiras
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