Restos de São Francisco
Os restos de Francisco deixam de ser mortais e tornam-se sementes de consciência, de resistência e de esperança.
Conheci a história de Francisco de Assis ainda criança. Na minha cidade viveram as Irmãs Franciscanas da Ação Pastoral, de fundação originária alemã, cujo carisma, no Brasil, foi acompanhado e fortalecido por Dom Paulo Evaristo Arns. Atuavam na paróquia, mas estavam sobretudo inseridas no combate à desnutrição e à mortalidade infantil, com presença verdadeira no meio das comunidades.
Foram elas que me ofereceram as primeiras impressões de Francisco. Das mãos da irmã Graça recebi minha primeira imagem do Santo — que guardo até hoje com carinho especial. Desde cedo, aquele jovem do longínquo século XIII me impactou. Havia nele algo que atravessa o tempo. Algo que não se restringe aos que pertencem às ordens que ele inspirou. Seu carisma é tão humano e tão presente que se pode dizer, sem exagero: é para todos.
Francisco não imitou modelos, não buscou ser diferente por vaidade, nem tentou encaixar-se em formas prontas. Atendeu a um chamado próprio — radical a ponto de colocá-lo, sem cálculo algum, na cena permanente do lava-pés. Não o lava-pés ritualizado da Quinta-Feira Santa, mas o da história cotidiana: das urgências da vida, dos encontros que nos desinstalam, dos confrontos que nos atravessam diariamente, em qualquer ambiente.
O chamado que ouviu não veio do além. Veio dos corações humanos, empobrecidos pela tibieza e distraídos pelas coisas que passam. Ele se identificou com o Cristo nu, pobre e despojado — o Cristo do presépio, da cruz e da Eucaristia — e marcou a humanidade não por discursos, mas pela vida. Não foi doutor nem orador brilhante. Não deixou tratados eruditos. Deixou algo mais difícil e mais verdadeiro: coerência. Uma opção atual e pulsante, capaz de devolver sentido a quem ainda não percebeu que “o amor não é amado”.
Neste ano, o Papa Leão XIV instituiu o Jubileu dos 800 anos do Carisma Franciscano. O gesto reaviva uma chama que segue acesa nos recantos do mundo, por meio de homens e mulheres que continuam a ecoar a proposta evangélica da paz e do bem.
Nesse contexto, realizou-se a exumação dos restos mortais de São Francisco de Assis, que repousavam na cripta austera da Basílica de São Francisco de Assis, na silenciosa e bela Úmbria.
Estive ali algumas vezes. E posso dizer: cada vez foi como se fosse a primeira. O túmulo simples, escavado na rocha do Monte Subásio, prende o olhar e, paradoxalmente, liberta a alma. Diante dele, tudo se relativiza. O essencial grita no silêncio da chama serena que arde sobre a lápide secular. É como se Francisco ainda nos convidasse ao retorno — ao essencial de onde brota a verdadeira e perfeita alegria: uma vida sem posses e, portanto, sem pesos.
Com seus ossos expostos, para além da piedade que a cena suscita, penso em nossas próprias vidas: nos pesos inférteis que carregamos; nas instituições que, presas à lógica da autopreservação, tantas vezes traem sua missão ao se renderem ao autorreferenciamento; na cultura da perfeição que cega multidões — corpos validados, mentes fragmentadas.
Penso na miséria de uma existência condicionada a valores que não edificam; esmagada pelo consumismo; subjugada pela necessidade de pertencer a um sistema que, no fundo, nem gosta de gente. Nessa pressa que nos transforma em reféns de prazos e metas sempre colocados acima da pessoa humana, de suas urgências muitas vezes intransponíveis.
Mas os restos de Francisco não falam apenas de finitude. Eles fazem brotar esperança. São fragmentos de uma vida que continua a se espalhar pelos cinco continentes, inspirando quem cuida dos “leprosos” do novo milênio, quem abraça feridas, quem cultiva o jardim da paz e da fraternidade no silêncio da oblação consciente.
Gritam sobre a urgência de nos reconhecermos como única família humana — sem guetos, sem muros, sem cisões.
Restos nem sempre são aquilo que sobra e pode ser descartado. Neste caso, os restos de Francisco deixam de ser mortais e tornam-se sementes — sementes de consciência, de resistência e de esperança.
Ao ver seus ossos expostos e o inevitável frenesi que a cena provoca, volto àquela imagem simples que recebi na infância. Vejo novamente o jovem franzino, vestido de pano rude, uma pomba branca nas mãos, conversando com o lobo a quem chamou de irmão. Não era uma imagem de poder. Não havia ouro, nem glória, nem imponência. Havia apenas despojamento — e uma paz que parecia maior que o medo.
Percebo, então, que a memória mais forte não é a dos ossos, mas a da coerência. Não é a da relíquia, mas a da vida vivida até o fim. Aquele menino que recebeu uma pequena estátua talvez não compreendesse toda a radicalidade do gesto franciscano. Mas intuía — como ainda intuo — que ali estava uma liberdade diferente: a liberdade de quem nada possui e, por isso, nada teme perder.
Diante dos restos de Francisco, não vejo morte. Vejo confirmação. Vejo que é possível viver de outro modo. Vejo que a fraternidade não é utopia ingênua, mas decisão concreta.
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