O Brasil entre o Nobel que destrói e o Nobel que pode nascer
Entre excelência científica e fragilidade institucional, país segue sem laureados no Nobel.
A ausência de brasileiros entre os laureados com o Prêmio Nobel costuma ser explicada por falta de recursos, descontinuidade de políticas públicas e fragilidades estruturais da ciência nacional. Esses fatores existem, mas não explicam tudo. Há um elemento menos visível, porém decisivo, de natureza cultural, que ajuda a entender por que o Brasil segue sem um Nobel.
Essa dimensão foi exposta de forma direta pelo engenheiro Ozires Silva, fundador da Embraer. Em entrevista ao programa Roda Viva, em 2018, ele relatou a resposta que ouviu de um membro do comitê do Nobel ao questionar por que o Brasil nunca venceu o prêmio: os brasileiros seriam “destruidores de heróis”, pois não apoiam seus próprios candidatos, desconfiando do sucesso alheio.
O Nobel não é apenas um prêmio técnico. Ele depende de reputação, articulação institucional e apoio consistente dos pares. Países que acumulam laureados sabem proteger seus talentos. O Brasil, historicamente, faz o contrário. Questiona antes de apoiar e fragmenta antes de unir.
Os dados reforçam essa contradição. Ao longo de mais de um século, 41 brasileiros já foram indicados ou considerados para o Prêmio Nobel, em diferentes categorias. O primeiro foi o Barão do Rio Branco, em 1911, e o mais recente, Alysson Paolinelli, em 2021. Ainda assim, nenhum brasileiro foi laureado. Talento nunca faltou. Faltou sustentação.
É nesse contexto que a trajetória da Dra. Tatiana Lobo Coelho de Sampaio ganha destaque. Professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com graduação, mestrado e doutorado realizados integralmente na UFRJ, Dra. Tatiana construiu, ao longo de quase três décadas, uma carreira científica sólida, baseada em pesquisa contínua, rigor metodológico e inserção internacional. À frente do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas, lidera estudos voltados à regeneração da medula espinhal, área historicamente marcada pela irreversibilidade.
O desenvolvimento da polilaminina, fruto dessa trajetória, alcançou recentemente um marco institucional relevante. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizaram o início do estudo clínico de fase 1 da terapia, viabilizando o avanço estruturado de uma pesquisa desenvolvida em universidade pública brasileira e fortalecendo a integração entre ciência, regulação e Sistema Único de Saúde.
Mais do que um avanço terapêutico, trata-se de um símbolo. A polilaminina representa a capacidade do Brasil de produzir ciência de impacto global quando há continuidade, apoio institucional e maturidade coletiva.
Talvez o Brasil não tenha um Prêmio Nobel não por falta de excelência científica, mas por dificuldade em conviver com ela. A trajetória da Dra. Tatiana recoloca essa questão no centro do debate. A diferença é que, desta vez, a resposta não dependerá apenas de Estocolmo, mas da forma como o próprio país decide tratar uma de suas maiores esperanças científicas.
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