O eco repugnante que atravessa o mar
Não é preciso estar em Madri ou Lisboa para entender o que aconteceu. O Maranhão sabe reconhecer silêncios.
Naquela noite, enquanto as manchetes atravessavam o oceano contando mais um episódio de racismo contra o jogador brasileiro Vinícius Júnior, o mundo parecia repetir uma história antiga. Mudam-se os estádios, os idiomas, as bandeiras. Permanece o mesmo ruído áspero, esse som que não sai das arquibancadas, mas de algum lugar mais fundo da humanidade.
Aqui no Maranhão, longe dos grandes centros do futebol europeu, a notícia chegou como chegam as chuvas de março: primeiro um sussurro, depois uma constatação inevitável. Alguém comentou na fila da padaria. Outro mencionou no rádio do carro, parado no sinal quente da Avenida dos Africanos. E, sem perceber, a indignação foi se espalhando como conversa de fim de tarde nas portas das casas.
Não é preciso estar em Madri ou Lisboa para entender o que aconteceu. O Maranhão sabe reconhecer silêncios. Sabe ler aquilo que não é dito. Nosso povo carrega, desde sempre, uma memória feita de resistência, nas mãos que levantaram igrejas coloniais, nas vozes que ecoam no tambor de crioula, nos passos firmes do bumba meu boi que dança apesar de todas as adversidades. Há séculos aprendemos a transformar dor em permanência.
Quando um jovem negro é ofendido em um estádio europeu, não é apenas um atleta que está sendo atacado. É também o menino que corre descalço atrás de bola nas ruas de Codó. É o adolescente que improvisa traves com chinelos em Presidente Dutra. É o sonho simples, mas imenso, que nasce em qualquer bairro de São Luís quando a bola começa a rolar no fim da tarde, sob um céu que mistura dourado e sal.
O futebol, para nós, nunca foi apenas jogo. É linguagem comum. É esperança organizada em noventa minutos. Talvez por isso a violência simbólica que atravessa essas partidas nos atinja com tanta nitidez. Porque ela tenta negar algo que, para o brasileiro, e para o maranhense em particular, é sagrado: o direito de existir com alegria.
Os dados dizem que foram muitas denúncias, repetidas ao longo dos últimos anos. Os números impressionam, mas não surpreendem. O preconceito raramente se anuncia como novidade; ele se repete, insistente, como se não tivesse sido derrotado incontáveis vezes pela própria história. Ainda assim, cada episódio fere como se fosse o primeiro.
Mas há algo que as estatísticas não medem.
Não medem a força invisível de quem continua.
Não medem a dignidade silenciosa de quem responde jogando melhor.
Não medem a solidariedade que nasce em lugares distantes, como aqui, onde alguém lê a notícia e sente que aquilo também lhe pertence.
No fundo, toda vez que Vinícius Júnior segue em campo, ele faz o que o Maranhão sempre fez: não interrompe a dança.
E é essa continuidade que desarma o ódio.
Porque o preconceito precisa do silêncio para sobreviver. Já a esperança, essa teimosia luminosa, precisa apenas de movimento. De um passo adiante. De um gol. De um tambor que não para. De gente que se recusa a aceitar que a dignidade seja negociável.
O mundo ainda aprenderá, talvez devagar, que nenhuma ofensa é capaz de diminuir aquilo que foi construído por gerações de coragem.
Até lá, seguimos.
Como quem atravessa o mar confiando que, do outro lado, a humanidade ainda pode ser melhor.
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