Os nomes que ainda chamam
Mas o que se mede, afinal, quando se procura uma criança?
Em Bacabal, o tempo aprendeu a andar devagar. Há dias em que o sol nasce, se deita e torna a nascer, e nada parece mudar. As estradas são refeitas pelo passo insistente dos que procuram, as águas são vencidas por remos cansados, e a mata — sempre mais antiga que nós — guarda seus segredos com a mesma paciência com que acolhe a chuva. Mais de duzentos quilômetros foram percorridos. Mas o que se mede, afinal, quando se procura uma criança?
Os nomes - Ágatha Isabelly, Allan Michael - passaram a circular como orações. Ditados em voz baixa nas cozinhas, escritos em cartazes improvisados, sussurrados nos rádios de pilha e nos celulares que piscam notificações. Nomes têm peso quando se tornam ausência. Carregam uma densidade que não cabe no papel nem nas manchetes. Nomes, quando faltam, fazem a casa ranger.
O Maranhão conhece esse silêncio. Ele se deita sobre as várzeas, atravessa as palafitas, entra pelas ruas quentes do interior e senta ao lado das famílias nas horas em que o relógio parece um objeto inútil. Aqui, o tempo não é só ponteiro; é espera. É a cadeira vazia no quintal, o prato servido a mais, a porta que não se fecha completamente. É o corpo que segue em vigília.
Há uma força-tarefa em curso, dizem as notícias. Homens e mulheres de farda, voluntários, mapas abertos sobre mesas, olhos atentos ao chão e à água. Tudo isso é necessário, imprescindível. Mas há também uma outra força, menos visível, que se espalha sem uniforme: a da comunidade que se reconhece na dor alheia. Porque, no Maranhão, a infância é um território coletivo. Cada criança é um pouco filha de todos.
As buscas avançam, agora, para o campo da investigação. A palavra tem o peso de um corredor estreito. Investigar é tentar dar forma ao indizível, impor método ao caos. É preciso. Ainda assim, entre uma diligência e outra, persiste a pergunta que não encontra lugar nos relatórios: como se vive enquanto se espera?
Talvez se viva assim: segurando a esperança como quem segura um fio fino, sabendo que ele pode arrebentar, mas acreditando que, se não o soltarmos, algo do outro lado pode responder. Talvez se viva repetindo os nomes, para que não se percam no rumor do mundo. Talvez se viva confiando que a memória é também uma forma de presença.
Em Bacabal, o tempo continua andando devagar. Mas ele anda. E enquanto anda, há quem chame. Chame pelos nomes. Chame pelo futuro. Chame por aquilo que ainda pode ser encontrado. Porque, no fundo, toda busca é um ato de fé - não a fé que ignora o real, mas a que insiste em olhar para ele sem desistir.
E, assim, seguimos. Com passos cansados, olhos atentos e a certeza silenciosa de que nenhuma criança deveria caber no desaparecimento.
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