
Consignado FGTS – Quem ganha com isso?
Essa modalidade de empréstimo cria uma armadilha sutil.
O governo federal e os bancos anunciaram com entusiasmo uma nova modalidade de crédito: o empréstimo consignado com garantia do FGTS. A promessa é sedutora – juros mais baixos do que os praticados no crédito pessoal tradicional e uma garantia adicional para os credores. Mas por trás dessa novidade está uma estrutura que, ao invés de resolver o problema do endividamento das famílias brasileiras, pode aprofundá-lo.
Em primeiro lugar, precisamos olhar para o cenário atual. O endividamento das famílias está próximo de máximas históricas. Segundo dados do Banco Central, mais de 70% das famílias estão endividadas e cerca de 30% estão inadimplentes. Muitos brasileiros já comprometeram parte significativa de sua renda com financiamentos, cartões de crédito e carnês. E agora, passam a comprometer também um dos poucos recursos que deveriam ser resguardados para momentos de emergência ou aposentadoria: o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.
Uma renda que não é sua (mas agora será dos bancos)
O FGTS foi criado com o propósito de proteger o trabalhador demitido sem justa causa e servir como uma reserva para moradia, doenças graves e aposentadoria. No entanto, ao transformar esse fundo em garantia de crédito, o que o sistema financeiro está fazendo é o equivalente a abrir o cofre do trabalhador para garantir o lucro das instituições financeiras.
A crítica mais óbvia recai sobre a remuneração do próprio FGTS, que rende apenas 3% ao ano + TR – ou seja, mal acompanha a inflação. E enquanto isso, os bancos praticam juros que podem passar dos 20% ao ano mesmo nessa nova linha de crédito "mais barata". A conta é simples: o trabalhador “ganha” 3% sobre um dinheiro que não pode sacar livremente, mas autoriza o banco a emprestar a si mesmo com taxas quase dez vezes maiores. Isso tem outro nome: transferência de renda. E ela não está indo para os mais pobres.
Um ciclo vicioso de endividamento
Essa modalidade de empréstimo cria uma armadilha sutil. O trabalhador, pressionado por dívidas ou necessidades urgentes, compromete seu FGTS agora em troca de alívio momentâneo. Mas no futuro, quando for demitido ou precisar do recurso, descobrirá que o fundo já está comprometido. A promessa de acesso facilitado vira uma prisão financeira.
Além disso, não há garantia de que esse crédito será usado de forma produtiva. Sem educação financeira e com poucas alternativas, muitos podem tomar esse empréstimo para pagar dívidas mais caras – o que pode parecer razoável, mas apenas empurra o problema para frente – ou até mesmo para consumo imediato, mantendo-se presos em um ciclo interminável de crédito e escassez.
Quem ganha com tudo isso?
Não é difícil adivinhar. O grande beneficiado dessa operação é o sistema bancário, que reduz o risco da inadimplência e amplia suas margens de lucro. A segurança proporcionada pelo FGTS como garantia permite ao banco relaxar nos critérios de concessão e acelerar a liberação de crédito, mas sem que isso se traduza, de fato, em um ganho justo para o trabalhador.
O que deveria ser feito?
Antes de qualquer expansão do crédito, o país precisa priorizar educação financeira, políticas de incentivo à poupança real e uma revisão urgente da remuneração do FGTS, que é, hoje, um dos investimentos mais injustos do país.
Permitir o uso do FGTS como garantia de crédito em um cenário de baixo rendimento do fundo e alto endividamento é como entregar fósforos a quem vive em um barril de pólvora.
A solução para o endividamento das famílias não está em ampliar o acesso ao crédito a qualquer custo. Está em garantir dignidade, educação, renda sustentável e, acima de tudo, respeito ao patrimônio do trabalhador brasileiro.
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