FÉLIX ALBERTO

Os índios e o genocídio do futuro

Condenamos ao extermínio nossa ancestralidade, por decreto, ação deliberada ou omissão. Privamos o índio das condições elementares de vida. Sem novas terras demarcadas, sem tutela, sem instituições a lhe oferecer guarida.

Félix Alberto

Félix Alberto é poeta e jornalista
Félix Alberto é poeta e jornalista (Ipolítica)

As fotografias são brutais. Pele e osso, corpos frágeis. Retratos da nossa desumanidade. Lembremos que por essas terras só eles perambulavam. Só eles, livremente, existiam. E viviam daquilo que a natureza lhes oferecia. São, portanto, os donos legítimos, naturais, desse chão que deles usurpamos, ao longo dos séculos. Deles tiramos terras, árvores, bichos, silêncio e dignidade, a ponto de hoje lhes negarmos a própria existência. De costas para o Brasil profundo, condenamos os nossos índios ao fim.

Estamos assistindo agora, pela tela do smartphone, ao desfecho de um genocídio silencioso dos yanomâmi – a pretexto do agronegócio triunfante, redentor do mercado de ações dos últimos quatro anos; a pretexto do ouro que reluz nos cofres de homens de bem e enfeita prateleiras de joalherias de gente tão nobre; a pretexto da nossa tamanha indiferença.

Somos uns patriotas genocidas – assumamos essa condição, sem titubear! Urgente. Nos enrolamos demais na bandeira nacional em atos pelas ruas. Mas não podemos esquecer: estamos enrolados mesmo é com a História. Não haverá saída. Não nos será dada uma segunda chance. Não haverá uma anistia moral. Somos cúmplices de cada uma das mortes do povo yanomâmi. Somos responsáveis pela esqualidez de crianças, jovens e idosos da floresta. Da floresta que restou.       

Há muito tempo eles são invisíveis. Mas, agora, fomos longe demais. Condenamos ao extermínio nossa ancestralidade, por decreto, ação deliberada ou omissão. Privamos o índio das condições elementares de vida. Sem novas terras demarcadas, sem tutela, sem instituições a lhe oferecer guarida. Sem comida. Deixamo-lo desmilinguir como escória, sem uma nesga de compaixão.  Como num surto anticivilizatório, fizemos opção pelas armas e pelo mercúrio.   

O verde e o amarelo que tanto adoramos nas manifestações, hipérbole de um nacionalismo controverso e criminoso, simbolizam talvez o nosso ato de contrição em praça pública, em frente ao quartel, na penumbra dos templos, no esconderijo dos acampamentos, nos grupos de Whatsapp. Nos batemos dias e noites pela família, por Deus e pela pátria, enquanto de olhos fechados, em oração, vendíamos nossa alma ao garimpo ilegal, ao estouro da boiada.

Desalmados, somos agora a inspiração da barbárie para o mundo. Mata-se índio no Brasil! Por um pedaço de terra para o pasto. Um alqueire para a soja. Por um quilate de metal. De luto e uma meia lágrima a molhar a imagem, os yanomâmi choram na fotografia. Choram também os guajajara, os krikati, os canela, os awá, os urubu-kaapor, enquanto reciclamos velhos dogmas, reinventamos inimigos e forjamos uma ideologia salvadora.

Somos uma nova sociedade. Livre. Conservadora, mas nova. Mas conservamos o quê, exatamente? Essa provável chaga de desumanidade, de patrimonialismo, do carma ibérico de homem cordial? Matando índios, estamos atirando no melhor de nós, no romantismo histórico que embalou utopias, nessa pureza que ainda hoje bombeia o coração civil. Matamos o futuro. 

Essa corrida inescrupulosa em busca do ouro (que mata yanomâmi) – aqui o ouro é o mercado financeiro, a propalada meritocracia, a prosperidade salarial, a ascensão social – transforma patriotas em piratas tóxicos. 

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