Opinião

Os erros de Bolsonaro e os acertos de Lula (parte 1)

Enquanto petista optou por um vice popular, que permitisse uma ideia de “moderação” e ampliasse o leque de alianças, presidente escolheu um desconhecido por medo de um processo de impeachment que nunca virá.

José Linhares Jr

Nenhuma eleição em que 120 milhões de pessoas votam, e termina com diferença de 0,9%, é vencida apenas por acertos e virtudes próprias. Também é impossível culpar apenas fatores externos e desprezar as próprias ações na derrota.
Nenhuma eleição em que 120 milhões de pessoas votam, e termina com diferença de 0,9%, é vencida apenas por acertos e virtudes próprias. Também é impossível culpar apenas fatores externos e desprezar as próprias ações na derrota. (Arte: José Linhares Jr)

Toda vitória e toda derrota são emolduradas por erros e acertos de seus competidores. Erros e acertos que, aliás, nem sempre definem resultados. Isso é fato. Porém, adiantam muito as coisas e sempre estão lá. Bolsonaro perdeu a eleição por múltiplas situações. Certas delas inevitáveis, outras tantas desnecessárias. Já o ex-presidente Lula foi eleito por vários aspectos. Muitos estratégicos, outros considerados injustos. Vamos aos principais, em minha opinião. 

A ESCOLHA DO VICE: Lula manobrou da melhor forma possível para ter o melhor vice que a política nacional pudesse oferecer. Tirou Alckmin do PSDB e o levou para o PSB. De uma só vez, impediu que o ex-tucano saísse candidato ao governo/senado em São Paulo. Ter um político moderado em sua chapa também chancelou o discurso de moderação. A escolha de Alckmin não teve absolutamente nenhum ponto negativo. Até suas falas contra Lula no passado foram positivas. Se Alckmin, que tantas vezes atacou o ex-presidente, o perdoou, por que o eleitor não deveria perdoar?

Ao contrário de Alckmin, que trouxe consigo popularidade e agregou valores ideológicos que não estavam lá antes dele, Braga Neto não adicionou absolutamente nenhum valor à campanha de Jair Bolsonaro. Assim como Lula, Bolsonaro poderia ter escolhido um vice que agregasse valor político e amenizasse sua imagem. Teresa Cristina, ex-ministra da agricultura, estava lá. Foi descartada por ser “forte demais”. Jair Bolsonaro também poderia optar por um vice mais popular. Também declinou. 

A escolha do vice foi feita apenas pensando na lealdade em um possível segundo governo que não virá. “Com um militar leal no cargo caem os riscos de impeachment orquestrados por um vice”, diziam. Bem, passada a eleição, é fato que Bolsonaro não irá sofrer impeachment nos próximos quatro anos.

DISCURSOS PÚBLICOS: Quem acompanha a trajetória de Lula o ex-presidente sabe que ele separa muito bem comportamento público e comportamento privado. Piadas grosseiras e analogias escatológicas são reservadas aos ouvidos de poucos. Em público, muito raramente Lula comete erros retóricos. Além disso, também ainda conta com a parcimônia da mídia que não cataloga e tenta transformar cada frase dele empregada de forma equivocada como uma tragédia.

Já Bolsonaro... Esse não tem a mínima noção de que um presidente não pode ter o mesmo discurso do “tiozão do churrasco”. Principalmente se um batalhão de opositores está disposto a analisar cada vírgula em todo o momento.

A falta de preocupação com o que falava era aguardada festejada por adversários e incentivada por alguns aliados mais inocentes. “Faz parte da natureza dele”, diziam. Quem assistiu o horário eleitoral viu que 80% da artilharia contra Jair Bolsonaro foi baseada em afalas do próprio Bolsonaro. Algumas trucadas e retiradas de contexto, isso é fato. Mas, uma parcela grande poderia ter sido evitada com o mínimo de disciplina na hora de falar em público.

AMEÇADAS DEMAIS, AÇÕES DE MENOS: A partir de 2020, mais especificamente em abril, Jair Bolsonaro começou a sofrer uma ofensiva judicial. Naquele mês, teve a indicação do diretor-geral da Polícia federal impedida judicialmente. Ameaçou, gritou e nada fez. Daquele dia em diante, nasceu o que foi convencionado nas redes sociais de “xadrez 4D”. Uma espécie de estratégia complexa aplicada pelo presidente que apenas as mentes mais brilhantes entendiam.

Muitas ameaças e absolutamente nenhuma ação. Enquanto Lula mantinha-se completamente calado sobre ações mais duras do seu governo, Bolsonaro incentivou a possibilidade de um golpe militar com seu silêncio várias vezes.

No 7 de setembro de 2021 foi cunhada a expressão “eu autorizo, presidente”. Uma espécie de salvo conduto para uma reação militar que nunca veio.

E a cada ameaça vazia, Bolsonaro caia mais em descrédito. Já Lula, mesmo tendo saído da cadeia e cheio de inimigos que o colocaram lá, manteve o silêncio sobre revanchismos.

Esses foram alguns dos erros e acertos. Até os próximos... 

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