Coluna do Kardec

­ É a estatística!

Breves notas sobre o papel central da estatística no mundo moderno.

Allan Kardec

 
 

“Eu não acredito em estatística!”

“Mas você acredita que vai morrer?”

Um amigo muito inteligente me contou esse diálogo dele com um interlocutor cético. De fato, há muita confusão sobre estatística, inclusive uma frase atribuída a Benjamin Disraeli: "Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas."

Disraeli foi um político britânico na primeira metade do século 19 e, quando era vivo, o mundo vivia um dos tempos mais interessantes em termos de mudança de paradigmas de pensamento e filosofia. Só para lembrar, foi nesse século que viveram Karl Marx, Charles Darwin e Sigmund Freud. Allan Kardec, o pai do Espiritismo, também – porque tenho de puxar brasa para minha sardinha.

Foi nessa época também que viveu o talentoso e multifacetado Lord Kelvin. A ele é atribuída uma afirmação de que haveria apenas “duas nuvens” que obscureciam as descobertas da Física. Ou seja, essa Ciência teria chegado a seu limite – não haveria mais nada a ser descoberto – e seria questão de tempo e alguns ajustes para que as nuvens desaparecessem.

Não pretendo entrar em detalhes, mas essas “duas nuvens” viriam a ser exatamente a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica – as maiores revoluções do último século. A Relatividade explica que em um mundo de altíssima velocidade, próxima à da luz, os objetos diminuem e o tempo estica. Foi essa teoria também que demonstrou a realidade dos famosos buracos negros, de onde nada escapa, nem a luz!

A Mecânica Quântica (MQ, para os nerds) é ainda mais surpreendente! Ela estuda o mundo minúsculo, em nível de átomos, elétrons ou ainda coisas menores. Albert Einstein ganhou o Prêmio Nobel prevendo o efeito fotoelétrico, que é o que acontece nas placas solares que geram energia, baseado na MQ. Bohr, Heisenberg, Feynman e outros grandes nomes também contribuíram. Mas o que surpreende é a dependência da estatística! A Quântica não existe sem estatística – assim como você não estaria lendo este artigo em seu computador ou celular, porque a fabricação de seus chips não seria possível sem a MQ. 

Vamos organizar um pouco mais o que quero dizer. No fundo, a turma do século 19 foi muito influenciada pela teoria extraordinária de Isaac Newton. Esse gênio acabou inspirando uma gama de pensadores e filósofos da Ciência que desaguou em um mundo mecânico! Deixa-me usar uma imagem: o mundo, segundo essa visão, seria um conjunto de engrenagens – o futuro seria facilmente previsível com uma precisão incrível!

Essa ideia foi muito bem retratada pelo incomparável Charles Chaplin em “Tempos modernos”, cuja icônica imagem pode ser vista no alto – ele com as engrenagens do mundo! Em outro filme, o artista se rebela contra essa visão em "O Grande Ditador". Em determinado momento, ele fala “não sois máquinas! Homens é que sois!”, no que ficou conhecido mundialmente como “o último discurso”. 

A estatística colocou a Ciência em um outro patamar, como diria aquele jogador do Flamengão. Ou seja, em alguns casos, poderemos até entender algumas coisas acontecendo como engrenagens. Mas o que se impôs foram os comportamentos coletivos – e o futuro não é mais previsível como se pensava utilizando o pensamento de Newton. Você não consegue prever o que vai acontecer com uma única molécula que entra em seu nariz: se você vai sentir o perfume ou o odor transmitido por ela. Ou o que acontece com a sensibilidade das células de nossos olhos reagindo a um mero raio de luz.

Não se faz remédios sem testes estatísticos. Isso serve para os estudos das propagações de vírus. Na explosão da COVID, fizemos vários estudos a pedido do então Governador Flávio Dino, trabalhando na previsão de número de casos ou óbitos. Também, quando você usa o celular, para que pague menos pela mensagem de voz enviada, os algoritmos de processamento de fala humana modelam seu trato vocal – boca, língua, dentes etc. – e trabalham estatisticamente sua mensagem para que sejam enviados o mínimo possível de dados.

Desde a década de 40 do século passado, ou seja, há 80 anos, estuda-se o comportamento de neurônios. Hoje já se pode medir a atividade de um único neurônio, mas ele é em geral conectado a centenas ou milhares de outros. O cérebro aprende justamente pela repetição, e os neurônios se adaptam, as conexões se consolidam. Como andar de bicicleta ou dirigir um carro, por exemplo: você repete exaustivamente e acaba tendo aqueles comportamentos “automáticos”. 

Novamente, é a atividade coletiva que gera o aprendizado – fato que nos tornam previsíveis, claro, já que o objetivo é justamente ser capaz de repetir “sem pensar”. Ora, foi justamente isso que os neurocientistas descobriram e os ases da inteligência artificial usam nas mídias sociais, como Facebook ou Instagram: o que você olha, os seus “likes”, enfim, seu comportamento é devassado pelos algoritmos e eles começam a sugerir produtos, como sapatos, bolsas, roupas e, claro, opções políticas! As últimas eleições e certamente estas serão influenciadas pelas máquinas.

Os algoritmos de inteligência artificial são formas elaboradíssimas a partir dos dados. Quanto mais dados, melhores são eles. Nosso cérebro, claro, é bem mais eficiente, por isso aprendemos coisas extraordinárias que eles não são capazes. Os neurocientistas mostram que o que fazemos diariamente é justamente estatística. Podemos nos perder na floresta por quê? Porque reconhecemos as plantas com o mesmo padrão, portanto acabamos perdendo a referência e não conseguindo achar o caminho... Claro, há milhares de outros exemplos de uso da estatística pelo cérebro humano.

O Sr. Jura, motorista de táxi, protestava comigo que não acreditava nas pesquisas porque não tinha sido consultado. Creio que porque não o agradavam tanto quanto ao interlocutor de meu amigo, que providencialmente perguntou se ele acreditava que iria falecer. De fato, não existe nenhuma lei determinando “vais morrer!”, só um imenso reconhecimento coletivo de que, já que todos, sem exceção, morreram, eu também desencarnarei. Probabilidade aplicada utilizando um grande número de dados!

Os especialistas nos admoestam pelo uso excessivo da comunicação digital. Acabamos sendo dirigidos pelos algoritmos – e, portanto, por aqueles que os criaram. É preciso renovar a convivência humana, conversar com o vizinho, dialogar com o próximo. Dizem que o melhor presente é sua presença. Talvez por isso ouso terminar esta coluna com o icônico Chaplin, em “o último discurso”: 

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

*Allan Kardec Duailibe Barros Filho, PhD pela Universidade de Nagoya, Japão, professor titular da UFMA, ex-diretor da ANP, membro da AMC, presidente da Gasmar.

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