Denúncia

Maranhenses denunciam trabalho análogo à escravidão em fazenda de Minas Gerais

caso foi denunciado após o grupo ter esperado horas por um ônibus que foi fretado por um fazendeiro para trazer os trabalhadores de volta ao Maranhão.

Imirante.com, com informações do g1

- Atualizada em 27/04/2022 às 13h54
Trabalhadores ficaram por horas no aguardo do ônibus às margens da rodovia.
Trabalhadores ficaram por horas no aguardo do ônibus às margens da rodovia. (Reprodução / TV Integração)

MINAS GERAIS – Vinte trabalhadores maranhenses denunciam ter vivido situação de trabalho análogo à escravidão em uma fazenda na região de Veríssimo, no Triângulo Mineiro. O caso foi denunciado após o grupo ter esperado horas por um ônibus que foi fretado por um fazendeiro para trazer os trabalhadores de volta ao Maranhão.

Leia também:

Polícia Federal investiga trabalho análogo à escravidão em carvoarias do Maranhão

Maranhenses são resgatados de trabalho em condições análogas à escravidão em Santa Catarina

A Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais já apurada o caso. A Polícia Federal também foi comunicada e afirmou que aguarda denúncia da Superintendência do Trabalho para que o caso seja avaliado. O dono da fazenda que contratou os trabalhadores se posicionou a respeito. 

Denúncia

Os 20 trabalhadores foram encontrados na noite de segunda-feira (25), em um posto de combustíveis na BR-050, em Uberaba, cidade distante 475 km de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. De acordo com o boletim de ocorrência, a Polícia Militar foi chamada no local e conversou com Márcio Antônio Belarmino, que se apresentou como advogado dos trabalhadores. 

Segundo Belarmino, os trabalhadores saíram da região de Veríssimo, onde atuaram em uma plantação de cana-de-açúcar, e chegaram a Uberaba por volta das 11h, com a promessa de que, por volta das 12h, outro ônibus chegaria para levá-los de volta até as cidades de Cajapió e São Vicente Ferrer, no Maranhão. 

Enquanto aguardavam, o motorista do primeiro ônibus retirou uma peça do motor dizendo que levaria em uma oficina mecânica para consertar e que eles deveriam aguardar a chegada do segundo veículo.

No entanto, já eram 18h30 e os trabalhadores continuavam no local ainda esperando o motorista, sem alimentação e sem orientação sobre o que fariam.

"A gente com fome. O banheiro fechado com cadeado. E o motorista deixou a gente, disse que ia ajeitar uma peça e não deu satisfação de nada. É uma situação difícil. A gente vem para trabalhar na roça e enfrenta uma situação dessas", desabafou Walternilson Costa Rodrigues.

Então, o grupo pediu ajuda no posto de combustíveis e contatou a imprensa para denunciar as condições em que se encontravam. Os trabalhadores afirmaram que outros 8 colegas continuaram em Veríssimo em condições de trabalho análogo à escravidão.

Ainda conforme o boletim de ocorrência, o motorista do ônibus retornou ao local, mas quando percebeu a presença da imprensa, saiu correndo. O ônibus foi recolhido ao pátio conveniado.

Após a chegada da PM, os trabalhadores foram encaminhados pelo Serviço de Abordagem Social para a Casa de Passagem. Segundo a Prefeitura, eles ficarão em acolhimento provisório até que haja a solução do conflito trabalhista. No local são oferecidos alimentação, dormitório e acesso à higiene pessoal.

Péssimas condições de trabalho

Os trabalhadores chegaram no começo de março e deveriam ficar ao menos até junho na fazenda na região de Veríssimo. A promessa era de trabalho registrado, com comida e acomodação.

Porém, segundo eles, o fazendeiro não cumpriu com as obrigações trabalhistas. Entre as reclamações, estão alimentos insuficientes, falta de água potável, alojamento pequeno para muitas pessoas e falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Além disso, um vídeo gravado por um dos trabalhadores (veja acima) mostra que no local em que ficaram havia lixo espalhado. No alojamento, camas e colchões velhos e sem condições de uso. Alguns chegaram a dormir no chão. O banheiro também estava em condições precárias e sem higiene. O chuveiro, por exemplo, era um cano na parede.

"Eles prometem uma coisa lá no Maranhão, pelo telefone, e chega aqui e é outra. Inclusive, as condições e o tratamento não eram suficientes para esse serviço, que é desgastante e sofrido. Sol quente, calor, chuva. O café da manhã era só um pãozinho para cada. O almoço era fraco demais. Não tinha água gelada suficiente. Não pagavam um valor adequado para o nosso trabalho", contou José Ribamar Campos Costa.

O advogado Márcio Antônio Belarmino explicou ao g1 que, diante dessa situação, foram os próprios trabalhadores que decidiram romper o contrato e que o dono da fazenda fretou o ônibus para levá-los de volta ao Maranhão. Ou seja, o retorno estava acordado entre as duas partes.

O que diz o dono da fazenda

O dono da fazenda, Rafael Moraes Roxo, afirmou que os trabalhadores não foram abandonados na BR-050 e que o problema foi que o ônibus da empresa contratada iria sair de Goiânia para pegá-los em Uberaba, mas apresentou problema mecânico, causando o atraso. Ele disse, ainda, que até as passagens para o Maranhão já tinham sido compradas.

Rafael afirmou que o grupo recebeu jantar, café da manhã e almoço e iriam embora ainda nesta terça-feira (26) para o Maranhão. Ele comentou que já trabalha há quatro anos com trabalhadores rurais e é a primeira vez que enfrenta essa situação.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais Twitter, Instagram e TikTok e curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.