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Exposição “Mãe Preta” chega à São Luís, no espaço ''Chão SLZ''

Exposição destaca o protagonismo da mulher negra e das relações maternas na formação da sociedade brasileira.
Na Mira, com informações da Assessoria04/12/2018 às 09h09
Exposição “Mãe Preta” chega à São Luís, no espaço ''Chão SLZ''Xilogravuras fazem parte da exposição. (Foto: divulgação)

SÃO LUÍS - As conhecidas imagens das amas-de-leite negras, registradas desde meados do século 19 por diversos pintores e fotógrafos são o ponto de partida da pesquisa das artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa para a realização da exposição “Mãe Preta”. A pesquisa começou no Rio de Janeiro em 2015, e já foi exibida no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (Rio de Janeiro, 2016), no Palácio das Artes (Belo Horizonte, 2017), e em 2018 na Galeria Mario Schenberg, na Funarte São Paulo, por meio do Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais. Terminando a itinerância, Mãe Preta chega ao Chão SLZ, com abertura dia 12 de dezembro e seguirá em cartaz até 9 de fevereiro de 2019, reunindo fotografias, vídeos e literatura e permeando pesquisa histórica com relatos contemporâneos.

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A exposição também conta, ainda, com a Biblioteca Mãe Preta, que conta com publicações de autoras negras contemporânea se uma seção voltada para a literatura infanto-juvenil com títulos sobre protagonismo negro e de autoria de mulheres negras para consulta do público.

A pesquisa, iniciada em 2015, busca traçar os elos e as ressonâncias entre a condição social da maternidade negra durante a escravidão e o protagonismo negro feminino no passado e na atualidade por meio de releituras de imagens e arquivos do período, o desaparecimento da história escravocrata na malha urbana das cidades brasileiras, as vozes de mulheres e mães negras na contemporaneidade e o legado da mulher negra na formação da sociedade brasileira e na história visual do país.

“A exposição objetiva contrapor a representação romantizada das “mães pretas” e da maternidade em arquivos históricos do período escravocrata ao protagonismo real e crescente exercido pelas mães negras de hoje. Iniciamos este projeto dentro de um contexto histórico com as escavações arqueológicas e a memorialização da escravidão da região portuária do Rio de Janeiro nos últimos anos. À medida que foram se revelando diversos achados, começamos a buscar elementos que se articulassem com o papel da mulher negra – focando na sua função dupla como mãe de seus próprios filhos e como amas-de-leite de crianças brancas – na formação social da cidade. Essas vidas, marcadas pelo terror da separação e mesmo morte de seus filhos em prol da criação dos filhos de outrem, deixaram marcas indeléveis como uma das grandes injustiças da história do Brasil e de toda a sociedade escravocrata. Com a exposição propomos como reflexão as lacunas históricas em relação ao papel fundamental da maternidade tal como exercido pela mulher negra na nossa história urbana, social e visual, buscando pontos de inflexão com as lutas na sociedade contemporânea”, afirmam Isabel e Patricia.

Em cada cidade, as artistas realizaram pesquisas específicas para criar novos trabalhos ligados aos contextos locais. Na capital paulista, as artistas relacionam em Modos de Apagar o debate sobre o apagamento da história negra da cidade e a polêmica em torno da construção do monumento Mãe Preta no centro de São Paulo. [eu tiraria esta parte sobre SP, para focar melhor em SLZ não acho, faz todo sentido aqui] Na capital maranhense será mostrada a obra Modos de Encantar com retratos e um vídeo com as lideranças dos Quilombos Santa Rosa dos Pretos e Santa Joana, no Maranhão, onde as artistas realizaram pesquisa de campo em julho de 2018. Em ambas comunidades, o protagonismo feminino é crucial na luta pela preservação da terra e dos rituais espirituais, bem como na atuação de parteiras que perpetuam o parto natural sob a benção e guia das “encantadas", em que os cuidados maternos são realizados de forma coletiva.

O projeto incluiu a edição de um catálogo com 104 páginas com contribuições de nomes nacionais e internacionais, como a antropóloga e curadora-adjunta para histórias e narrativas no Masp, Lilia Moritz Schwarcz (USP); a antropóloga e pesquisadora Martina Ahlert (UFMA); o escritor Alex Castro; o historiador e diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Júlio César Medeiros da Silva Pereira (UFF); a historiadora da arte, educadora criativa e curadora britânico-nigeriana Temi Odumosu (Universidade. de Malmö - Suécia); e a fotógrafa, escritora e professora do ICP-Bard (EUA), a norte-americana Qiana Mestrich.

Um dos pontos altos da exposição é a vídeo-instalação “Modos de Fala e Escuta” (com 27 minutos de duração), que reúne o depoimento de sete mães negras sobre maternidade, racismo, memória, ancestralidade, violência e lutas cotidianas. Nesse sentido, outro destaque da mostra é a obra “Mural das Heroínas”, com 22 retratos de líderes negras, desde Luísa Mahin, Tereza de Benguela e Nzinga de Angola às feministas Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento, escritoras como a maranhense Maria Firmina dos Reis e Carolina de Jesus, figuras simbólicas como Esperanca Garcia, além de figuras políticas como Laudelina de Campos e Marielle Franco, entre outras, que simbolizam as conquistas sociais, a luta, a resistência, a voz e o lugar histórico da mulher negra no Brasil.

Dividida em oito séries, “Mãe Preta” apresenta instalações, colagens e intervenções em gravuras e fotografias, que, reunidas, propõem uma reinvenção poética da iconografia relacionada às mães pretas dentro de uma linguagem contemporânea tendo como ponto de partida imagens fotográficas do acervo do Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, e releituras de livros com gravuras de Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e outros artistas. Isabel e Patricia criaram intervenções nessas imagens com objetos óticos, como lupas e lentes, que destacam a complexidade das relações das amas-de-leite com as crianças brancas de seus senhores e das mulheres escravizadas e seus próprios filhos dentro de contextos domésticos, urbanos e rurais.

“De tão conhecidas, estas imagens são vistas de forma superficial e contribuem para um olhar normalizado sobre a vida dessas mulheres que desempenharam um papel fundamental na formação da sociedade brasileira, mas que não revelam as histórias de violência sofridas por elas. Os trabalhos propõem uma nova forma de olhar essas imagens, de modo que a figura materna apareça no primeiro plano e não apenas como um detalhe da vida cotidiana e familiar nos tempos da escravidão”, explica Patricia.

Nesse sentido, marcas naturais do tempo em reproduções de negativos de Marc Ferrez e outros fotógrafos do século 19 são aproveitadas para simbolizar cicatrizes expostas em composições fotográficas em substituição a cópias perfeitas. A dupla também levantou, em jornais de época, anúncios sobre o aluguel de amas-de-leite, assim como artigos em publicações abolicionistas denunciando escândalos e abusos diretamente relacionados à questão das amas-de-leite no século 19, sobre os quais também intervêm com diversos objetos.

A abertura da exposição em São Luís contará ainda com uma visita guiada e bate-papo no dia 13 de dezembro, às 17h, com a presença de lideranças femininas maranhenses.

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