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Entre câmeras e playlists, vive Bruna Castelo Branco, jornalista cultural e diretora de TV que respira entretenimento. Fala (com paixão e um pouco de drama) sobre filmes, séries e mús
Cinema

O limite que não conseguimos dar

(Des)Controle estreou nos cinemas e mostra retrato de mulheres sobrecarregadas

Bruna Castelo Branco

Cena do filme (Des) Controle
Cena do filme (Des) Controle (Divulgação)

Estreou na semana passada nos cinemas o filme (Des)Controle, estrelado por Carolina Dieckmann e dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm. A obra, uma comédia dramática, acompanha a história de Kátia, uma escritora de livros infantojuvenis que enfrenta um bloqueio criativo enquanto tenta escrever seu próximo livro.

Sob pressão profissional, Kátia vive a sobrecarga cotidiana de uma mulher com dois filhos, uma crise no casamento e, de forma silenciosa e perigosa, a recaída no alcoolismo após 15 anos em recuperação. Tudo começa de maneira aparentemente inofensiva: uma taça de vinho para relaxar, para ajudar na inspiração. Mas a recaída não avisa quando chega. Gradualmente, Kátia vai escalonando comportamentos de risco: bebedeiras descontroladas em bares, relações sexuais perigosas, enquanto convive com a contradição entre se sentir extremamente produtiva e não se lembrar do que aconteceu na noite anterior.

Embora seja cobrada para não beber, ela está inserida em um contexto em que o álcool é presença constante: nas reuniões de família, nas pequenas comemorações do dia a dia, nos encontros sociais que parecem exigir esse ritual. O filme escancara essa ambiguidade sem didatismo, mostrando como o entorno também empurra, ainda que involuntariamente, para o abismo.

O drama com um toque solar

Apesar do tema denso, (Des)Controle preserva algo essencial: a graça que a vida tem. Nem toda tragédia acontece por completo, nem tudo é completamente sombrio. Há espaço para a beleza, para o colorido, para momentos de leveza mesmo quando tudo parece desmoronar. Kátia, interpretada magistralmente por Carolina Dieckmann, em todas as nuances que a personagem exige, é uma mulher luminosa, com uma família bonita, um casamento de muitos anos, mas também profundamente sobrecarregada pelo trabalho, pela criação dos filhos, pela administração da casa e pelo cuidado com os pais.

Vale destacar ainda o elenco de peso: Irene Ravache, Daniel Filho, Caco Ciocler e Júlia Almeida que, ao lado de Carolina Dieckmann, ajudam a descortinar dramas privados que permanecem muitas vezes invisíveis, mesmo quando, do lado de fora, seguimos esbanjando sorrisos.

O filme dá conta dessa complexidade sem simplificações. A recaída surge quando estamos frágeis, pressionadas, exaustas e, mesmo cercadas de afeto, nem sempre conseguimos resistir. (Des)Controle é sobre Kátia, é sobre o alcoolismo, mas é também sobre todas nós: mulheres contemporâneas que não dão conta de tudo, embora insistam, todos os dias, em tentar. No fim, a história não é apenas sobre o drama do alcoolismo; é sobre a sobrecarga do feminino, sobre o medo de decepcionar, de não dar conta, de extrapolar todos os limites, ainda que isso doa e, por vezes, nos leve ao inferno.



 


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