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COLUNA

Félix Alberto
Félix Alberto é poeta e jornalista.
Félix Alberto

As artes plásticas, quase 30 anos depois

Houve um tempo em que, a cada maio, as artes plásticas floresciam em São Luís.

Félix Alberto

Houve um tempo em que, a cada maio, as artes plásticas floresciam em São Luís. Eram os salões festivos, os concursos de pintura, as mostras coletivas. Maio entrou para o calendário maranhense como o mês mais aguardado por artistas e pela comunidade interessada em arte. Mas a fonte secou em determinado momento, em fins dos anos 1990. E aí se foram quase três décadas de hiato, com alguns eventos isolados, de pouca importância ou repercussão. Quase 30 maios!

Na última sexta-feira, porém, a história voltou a ser contada com a abertura da exposição “30 Cores em Maio”, organizada pela Fundação da Memória Republicana Brasileira, no Convento das Mercês. E é necessário abordar, antes de tudo, o aspecto empreendedor da coletiva, ao abrir caminhos para artistas já experimentados e novos nomes das artes plásticas maranhenses, fato por si merecedor de aplausos, haja vista a atonia em que ora se encontram mergulhados o campo criativo e o mercado.

É digna de registro, ainda, a iniciativa da FMRB ao homenagear, na sala de acesso à mostra “30 Cores de Maio”, três importantes artistas plásticos que o Maranhão perdeu nos últimos dois anos: Dila, Péricles Rocha e Jesus Santos. Três talentos merecedores de toda a nossa reverência.   

A nova exposição surge como uma oportunidade para que os artistas mostrem que estão vivos, atentos, com suas leituras de mundo e multiplicidade de linguagens, sejam elas antigas, contemporâneas ou futuristas. 

E o que se observa no segundo pavimento do Convento das Mercês? É o monóculo remexendo na nossa ancestralidade. É o lixo reciclado gritando de uma tela contra o novo “empalafitamento” das grandes cidades agora cobertas pela ira das águas. É a inteligência artificial furando a bolha da arte, revisitando a lenda da serpente e clamando por um lugar ao sol numa parede de galeria. São cacos de azulejos despedaçando réstias de esperança de uma cidade que não respeita a sua história. 

Voltar ao Convento das Mercês para apreciar uma exposição de arte é, em certa medida, um reencontro afetivo com a Coletiva de Maio, que balançou a cena cultural maranhense dos anos 1990. “30 Cores em Maio” é uma versão mais compacta, menos arrojada – e talvez por isso mais organizada. Porque os tempos são outros, agora é a vez da efemeridade. 

Mas é importante ressaltar que o espaço do Convento das Mercês continua sagrado, a atmosfera de entusiasmo da classe artística é quase a mesma. Muitos que ali estiveram como protagonistas, há 30 anos – como expositores, curadores ou espectadores – retornam agora ao velho bairro do Desterro com indisfarçável senso de curiosidade, comparando passado e presente, medindo em vão os traços de inventividade de hoje e de ontem.

Na noite de abertura de “30 Cores em Maio”, a curadoria – formada por Marco Antônio Lima, Miguel Veiga, Betânia Pinheiro, Luciana Barros, Silvânia Tamer, Régis Gella, Ana Luiza Nascimento, Eliézer Moreira Filho e Yure Logrado – elegeu os três trabalhos em destaque na exposição, de autoria dos artistas Marlene Barros (1º lugar), Moura Júnior (2º lugar) e Márcio Vasconcelos (3º lugar). Como em qualquer premiação, houve quem discordasse da escolha. Como houve também quem questionasse a limitação da mostra em apenas 30 obras.   

Nem todas as peças em exposição são criações primorosas. Existem estagnações, arte repisada e algum equívoco. Algo natural numa mostra coletiva. Mas há também trabalhos de forte impacto criados por velhos conhecidos dos apreciadores de arte, como Mondêgo (e a sua fúria silenciosa em traços crus e cores sombrias), Geraldo Frazão (refugiado numa felicidade clandestina, talvez londrina) e Cláudio Costa (vergastando nossa vocação de gente cordial e colonizada); além de bons ventos anunciados por Alex Soares, Cláudio Lima, Antônio Vermelho, Namibya Aick, Joy Brasilino e Romana Maria. 

Uimar Júnior não perderia a oportunidade de vender o seu peixe em público. Vestiu-se de estandarte para reclamar da exclusão da categoria “performance” – da qual foi um dos principais vencedores nas primeiras edições da Coletiva de Maio – na mostra atual do Convento das Mercês. “O que é arte?”, bradava o cartaz estampado sobre uma espécie de mortalha vestida pelo artista.  

No mais, há de se louvar a iniciativa da FMRB, hoje quase uma ilha (dentro da nossa ilha) em matéria de realização de eventos culturais. Não é preciso repetir o passado. A Coletiva de Maio hoje repousa no fundo do poço central do Convento. Não poderia ser diferente. 

Que a exposição “30 Cores em Maio” não olhe para trás. Que ela cresça no formato e, sobretudo, em qualidade. Remoçada. E não desapareça pelos próximos 30 anos! 

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