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Coronavírus: Trump disse tomar hidroxicloroquina para prevenir doença

''Eu tomo, muitos médicos tomam'', disse presidente americano na época. Desde então, diversos estudos apontaram para ineficácia e efeitos negativos da cloroquina contra o novo coronavírus
04/10/2020 às 07h00
Coronavírus: Trump disse tomar   hidroxicloroquina para prevenir doençaEstou tomando agora mesmo'', disse Trump sobre a hidroxicloroquina em maio (Reuters)

WASHINGTON - "Eu tomo, muitos médicos tomam. Espero não precisar tomar, espero que encontrem alguma resposta (contra a covid-19), mas acho que as pessoas devem ser autorizadas (a tomar)."

A frase foi dita pelo presidente americano, Donald Trump, em 18 de maio, a respeito da hidroxicloroquina, medicamento que ele afirmou usar na época em caráter "preventivo", cerca de quatro meses e meio antes de ele próprio anunciar que testou positivo para a doença causada pelo novo coronavírus.

"Saiu muita coisa boa sobre a hidroxicloroquina", disse Trump a jornalistas naquele dia. "Vocês ficariam surpresos com quantas pessoas tomaram (o medicamento), especialmente profissionais da linha de frente, antes que sejam contaminados. Eu mesmo estou tomando. Estou tomando agora mesmo, comecei há algumas semanas."

Já na época, a iniciativa pessoal de Trump contrariava a recomendação de seu próprio governo: a FDA, agência americana reguladora de alimentos e medicamentos, havia emitido em março uma autorização de "uso emergencial" da hidroxicloroquina e da cloroquina, inicialmente recomendadas para tratar lúpus e malária, no tratamento da covid-19 apenas para um número limitado de casos hospitalares.

Estudos

Um mês depois, no entanto, diante de estudos que apontavam um elo entre os medicamentos e a incidência de arritmia cardíaca em pacientes, a agência advertiu contra o uso deles fora de hospitais ou de testes clínicos — o que, na prática, era o caso de Trump.

Desde então, mais estudos e especialistas engrossaram as evidências contra o uso amplo da cloroquina e da hidroxicloroquina em casos de covid-19.

Em 29 de julho, quando Trump voltou a defender a hidroxicloroquina, afirmando que o medicamento só havia sido sido criticado porque ele próprio o havia recomendado, foi contrariado pelo médico Anthony Fauci, que coordena a resposta do governo americano à pandemia.

"Sabemos que todos os bons estudos — e por bons estudos eu quero dizer estudos controlados randomizados nos quais os dados são contundentes e críveis — mostraram que a hidroxicloroquina não é eficiente no tratamento da covid-19", disse Fauci à BBC.

Uma das pesquisas mais recentes a demonstrar isso foi divulgada na última semana: cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, testaram se a cloroquina tinha efeito preventivo contra a covid-19, em um grupo de 125 profissionais de saúde.

Os participantes foram divididos em dois grupos: 64 receberam cloroquina e 61 receberam placebo, por oito semanas.Ao fim, foi constatado que não houve uma diferença significativa na proporção de pessoas que foram infectadas.

Houve quatro casos em cada grupo, o que representou 6,3% dos voluntários que tomaram cloroquina e 6,6% daqueles que tomaram placebo.

"Com isso, não podemos recomendar o uso rotineiro da hidroxicloroquina entre profissionais de saúde para prevenir a covid-19", dizem os autores da pesquisa, que foi publicada nesta quinta-feira (1) no Jama Internal Medicine, periódico científico da Associação Médica Americana.

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