Resgate

Trilhos de antiga linha de bonde são achados em obra no Largo do Carmo

Segmento da rota que servia de transporte em São Luís até a década de 60 será recolocado ao término da obra de requalificação no Centro

Nelson Melo / O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h19
Trilhos foram retirados do subterrâneo durante a execução da obra e serão recolocados após conclusão
Trilhos foram retirados do subterrâneo durante a execução da obra e serão recolocados após conclusão (trilhos antigos)

SÃO LUÍS - No meio do caminho, não tinha uma pedra, mas, sim, um trilho. Um pouco da história de São Luís foi resgatada no momento da reforma na Praça João Lisboa e Largo do Carmo, no Centro Histórico da capital maranhense. Isso aconteceu porque uma parte da estrutura de ferro por onde os antigos bondes passavam ficou exposta quando os trabalhadores faziam uma intervenção no local, realizada pela Prefeitura, em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Maranhão (Iphan/MA). O segmento encontrado será retirado e recolocado durante a nova pavimentação na área.

De acordo com informações de Maurício Abreu Itapary, superintendente do Iphan/MA, os segmentos remanescentes do trilho do bonde, que cumpria o papel de transporte público em um momento da história de São Luís, foi encontrado durante a execução do serviço de requalificação da Praça João Lisboa/Largo do Carmo. Como ele frisou, apesar desse achado, muitas outras partes foram perdidas. Ainda não está claro porque isso aconteceu, mas teria sido provocado pelas intervenções anteriores naquele trecho.

“Os achados são de um lado do trilho do antigo bonde. Esses trilhos foram devidamente mapeados e feita a locação topográfica, para que possam ser retirados temporariamente. Durante a execução dos novos serviços, da nova pavimentação da via, os trilhos retornarão ao seu local de origem”, esclareceu Maurício Itapary. Como ele expressou, esse retorno da estrutura, além de evidenciar um registro histórico, também representa um grande trabalho de sensibilização e educação da sociedade, uma vez que parte considerável da população desconhece a existência do uso do bonde em outras épocas.

História dos bondes

Hoje, a população se desloca aos lugares em São Luís e nos demais municípios situados na Grande Ilha em ônibus, vans e outros veículos do transporte público. Existem várias linhas, que percorrem os bairros e ainda contam com os terminais de integração, que possuem várias vantagens, como a redução dos gastos dos usuários decorrentes da necessidade de transferência entre os coletivos. No entanto, muito antes do surgimento dessas tecnologias na capital maranhense, as pessoas se locomoviam nos bondes.

Esses transportes públicos teriam surgido em meados de 1868. Nessa época, apareceram os bondes de tração animal, também conhecidos como “tramways”. De acordo com o historiador e escritor Antonio Guimarães de Oliveira, autor de “Becos & Telhados”, os bondes, desde seus primeiros momentos, sempre passaram ali naquela região do Centro Histórico, desde quando eram movimentados por equídeos, por exemplo. Isso se estendeu até o século XX, quando, em 1964, circularam pela última vez na capital maranhense.

“Quando era movido a tração animal, eles vinham pela Rua do Sol. Quando eram movidos a eletricidade, vinham pela Rua da Paz. Eles faziam uma pequena parada no antigo abrigo. Havia uma curva que descia direto e que passava em frente ao Casarão dos Leites, onde funcionava um jornal. Havia outra curva no sentido da Rua Grande. Esse era o perímetro dos bondes”, explicou Antônio Guimarães, que é membro associado da Livraria e Espaço Cultural AMEI e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM).

Ele comentou que, na Praça João Lisboa, os trilhos nunca haviam sido retirados. E que ainda há outros cobertos em regiões de São Luís, como no Anil e no João Paulo, nas proximidades do quartel do 24º Batalhão de Infantaria de Selva (24º BIS). Na opinião dele, uma parte dessa história deveria ser preservada. “Em Lisboa (Portugal), ainda tem bonde circulando. Deveria haver pelo menos um aqui, para que as pessoas pudessem passear. Poderiam delimitar um trajeto. Onde não existir turista, esse lugar não vai sobreviver. Deveria haver um bonde na parte histórica da cidade. Os trilhos deveriam ficar visíveis para a sociedade”, desabafou o historiador.

Reforma da praça

A reforma na Praça João Lisboa, Largo do Carmo e entorno foi iniciada no dia 3 de março deste ano, como parte do programa municipal “São Luís em Obras”, que foi criado em agosto de 2019. O projeto contempla uma nova paisagem na região, com bancos, lixeiras e abrigos. Também inclui nova iluminação, que, segundo a Prefeitura da capital maranhense, permite que os locais possam ser frequentados pela população também no período noturno, como ocorre durante o dia.

Pelo projeto, o antigo relógio do Largo do Carmo será restaurado, assim como a estátua em homenagem ao escritor João Lisboa. Outros monumentos históricos dos logradouros serão recuperados. As obras de intervenção compreendem ainda a ampliação dos espaços para pedestres, com adequação total às normas de acessibilidade; a uniformização do pavimento das vias que serão em paralelepípedos; além de maior percepção da amplitude do espaço urbano e da riqueza do conjunto arquitetônico do trecho que está sendo reformado.

O projeto prevê também a criação de uma rampa de acesso entre o Largo e a Igreja do Carmo e o reordenamento do serviço de engraxate, para desenvolvimento da atividade tradicionalmente realizada há décadas no espaço. Todos os elementos vão compor os cerca de 12 mil metros quadrados de área restaurada. O abrigo do Largo do Carmo será mantido e restaurado para preservar as características arquitetônicas art dèco da marquise do prédio.

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