Cidades | Paralisação

Funcionários dos Correios aderem à greve, e serviços serão afetados no estado

Movimento ainda não atingiu todos os funcionários no Maranhão e muitos continuam trabalhando; setor de entregas será o mais afetado pela paralisação
Nelson Melo / O Estado12/09/2019

SÃO LUÍS - Após assembleia geral realizada pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios e Telégrafos do Maranhão (Sintect-MA), os funcionários dos Correios decidiram aderir à greve geral da categoria, que começou a partir da meia-noite de ontem, 11, em todo o país. Nem todos os servidores públicos paralisaram as atividades no estado, mas a previsão é de que 100% cruzem os braços. Com isso, os serviços serão afetados, como a distribuição das correspondências.

A assembleia geral ocorreu de forma concomitante em todos os estados do Brasil, em reação ao anúncio do governo federal, no último dia 21, de que, dentre as estatais que serão privatizadas, está os Correios. Essa lista foi confirmada depois de uma reunião do programa de parceria de investimentos. Esse plano de privatizações, que inclui nove empresas, depende, porém, de um estudo de viabilidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Diante dessa possibilidade, a Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios e Telégrafos (Findect), juntamente com a Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (Fentect), organizou as assembleias nos estados. “Nesta terça-feira, foi uma data acordada no Tribunal Superior do Trabalhador (TST) para tentarmos uma última conciliação entre governo, a empresa e os trabalhadores.
Mas, infelizmente, a empresa, de antemão, avisou que não participaria da reunião. Sem alternativa, os sindicatos em várias assembleias no país decidiram pela greve geral, por tempo indeterminado”, explicou Pedro Nepomuceno, secretário de Assuntos Jurídicos do Sintect-MA.

Ele esclareceu que esse processo já estava acontecendo aos poucos, sobretudo com as demissões voluntárias incentivadas pelo governo federal para reduzir o quadro de pessoal. Segundo ele, desde 2011, ano do último concurso público para os Correios, isso ocorre. “Primeiramente, o que está havendo é que o governo já tem vários programas de demissão voluntária, forçando o empregado a se desvincular da empresa. Esses programas diminuem cada vez mais a quantidade de funcionários e não há reposição”, frisou Nepomuceno.

Demissões
Segundo o membro da diretoria do Sintect-MA, com a privatização dos Correios, ocorrerá uma substituição gradativa dos servidores concursados pelos terceirizados. Nesse sentido, 1.600 funcionários dos Correios no Maranhão perderão seus empregos. “Esse número já foi maior. Nós já tivemos 2 mil funcionários no estado. Geralmente, o que ocorre em uma privatização é o que já ocorreu em empresas do mesmo porte que foram privatizadas: os serviços serão terceirizados e o quadro será reduzido ao longo do tempo de tal forma que os serviços desempenhados pelos funcionários serão substituídos pelos terceirizados”, assinalou.

Pedro Nepomuceno comentou que, com a privatização, as mais prejudicadas serão as pessoas com poucas condições financeiras, que moram em áreas periféricas. “Principalmente, a população de baixa renda será prejudicada, porque uma das finalidades dos Correios é o seu fim social. Cidades pequenas ou médias serão mais afetadas, uma vez que o mercado vai priorizar as áreas mais abastadas, mais ricas, de determinados lugares. Isso é fato”, analisou o secretário de Assuntos Jurídicos do Sintect-MA.

Plenária
Durante a quarta-feira, houve um “Seminário em Defesa dos Correios”, na sede do Sindicato dos Bancários do Maranhão (SEEB-MA), na Rua do Sol, região central de São Luís. Nessa plenária, participaram vários funcionários dos Correios e membros do Sintect-MA, que debateram questões referentes à privatização e outros pontos, como a campanha nacional de reajuste salarial, vale-alimentação e plano de saúde.

“No dia 31 de julho deste ano, o Acordo de Convenção Coletiva passou da validade. Por isso, estamos lutando para que o novo seja construído, porque esse acordo é o que assegura nossos direitos e garantias. Tudo está amarrado nesse acordo, que é o que nos coloca na condição de servidores públicos, embora regidos pela CLT. Esse prazo para a construção do novo acordo foi prorrogado por 30 dias, mas já terminou, e até agora não houve avanço”, pontuou Pedro Nepomuceno.

Conforme ele, o plano de saúde para a categoria só está aceitando urgência e emergência, com risco de que o vale-alimentação seja cortado. “Devido a tantos problemas, já tem unidade nossa com 80% dos trabalhadores com os braços cruzados. Há possibilidade de que todos adiram à greve geral, pois estamos lutando pelos nossos direitos”, ressaltou Pedro.

Durante a plenária, que terminou por volta das 16h, Wilson Araú­jo, diretor da Findect, palestrou aos funcionários, com o intuito de explicar os detalhes dos prejuízos com a privatização. Hoje, 12, os funcionários dos Correios que aderiram à greve devem se reunir na sede do Sintect-MA, no bairro Radional, em São Luís.

Transtornos
Com a greve geral dos funcionários, muitos serviços serão afetados. O principal setor atingido será o da distribuição, uma vez que os carteiros estão aderindo ao movimento com mais vigor. O setor de atendimento também apresentará redução das atividades, embora as agências continuem funcionando. Muitas pessoas que aguardam produtos via Sedex enfrentarão dificuldades para conseguir essas mercadorias, ainda mais se todos do quadro cruzarem os braços.

Na entrada do SEEB-MA, um funcionário dos Correios parava os transeuntes para que assinassem um abaixo-assinado contra a privatização da estatal, documento que será enviado a Brasília, no Distrito Federal. Apesar dos transtornos evidentes, a população ludovicense está dividida entre apoiar e condenar o movimento.

Para a frentista Laryssa Medeiros, pelo menos mais da metade da categoria deveria trabalhar durante a greve. “Isso traria menos problemas para a população. A gente precisa muito dos serviços dos Correios. Se parar tudo, será um caos”, declarou a jovem.

“Eu acho um erro não é a greve, mas a privatização. O governo tem que pensar melhor nessa ideia. Tem muito trabalhador que precisa desse emprego. Muita gente fala mal do serviço dos Correios, mas todos precisam do que eles fazem. Tem que continuar do jeito que está”, avaliou o flanelinha Carlos Augusto.

NOTA DOS CORREIOS

Na expectativa de uma solução que não comprometa ainda mais a situação financeira dos Correios, a empresa entrou, nesta quarta-feira (11), com dissídio coletivo no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Agora, a corte irá avaliar o processo de negociação, ouvindo as partes, e o relator produzirá um voto que será analisado por um colegiado do tribunal, em sessão a ser posteriormente agendada.
Conforme amplamente divulgado, os Correios estão executando um plano de saneamento financeiro para garantir sua competitividade e sustentabilidade. Desde o início de julho, a empresa participa de reuniões com os representantes dos empregados, nas quais foram apresentadas a real situação econômica da estatal e propostas para o acordo dentro das condições possíveis, considerando o prejuízo acumulado, atualmente na ordem de R$ 3 bilhões. As federações, no entanto, apresentaram reivindicações que superam até mesmo o faturamento anual da empresa.
Serviços - A empresa já colocou em prática seu Plano de Continuidade de Negócios para minimizar os impactos à população. Medidas como o deslocamento de empregados administrativos para auxiliar na operação, remanejamento de veículos e a realização de mutirões estão sendo adotadas. A rede de atendimento está aberta em todo o país e os serviços, inclusive SEDEX e PAC, continuam sendo postados e entregues em todos os municípios. Os serviços com hora marcada (Sedex 10, Sedex 12, Sedex Hoje) estão com postagens temporariamente suspensas.

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