Investigação

Polícia ouve novos depoimentos de pais de crianças que morreram após atendimento no Hospital da Criança

Os relatos fazem parte de cinco inquéritos que investigam as circunstâncias das mortes e denúncias de irregularidades nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas do Hospital da Criança.

Imirante.com, com informações da TV Mirante

Atualizada em 21/07/2026 às 08h24

SÃO LUÍS - Nesta segunda-feira (20) a Polícia Civil do Maranhão (PC-MA) ouviu novos depoimentos de mães e pais de crianças que morreram após receberem atendimento no Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís.

Os relatos fazem parte de cinco inquéritos que investigam as circunstâncias das mortes e denúncias de irregularidades nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas do Hospital da Criança. A polícia busca identificar se houve responsabilidade criminal.

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Caso do menino Nicholas

Entre os casos apresentados à polícia está o de Nicholas, de 7 anos. Segundo a mãe, Núbia Carneiro, o menino deu entrada no Hospital da Criança no dia 7 de junho deste ano e morreu após uma série de supostas falhas no atendimento.

Segundo a mãe, Núbia Carneiro, Nicholas Jan Zeeuw deu entrada no Hospital da Criança no dia 7 de junho deste ano e morreu após uma série de supostas falhas no atendimento. Foto: Reprodução/ TV Mirante

Segundo Núbia Carneiro, houve falhas no atendimento e falta de preparo por parte dos profissionais que atenderam o filho. Ainda de acordo com a mãe, os médicos disseram que a criança morreria antes mesmo da conclusão dos exames.

“Os médicos olhavam para mim e diziam: ‘Mãe, ele vai morrer’. Eu olhava para eles do outro lado da cama, com meu filho intubado, recebendo oxigênio e cheio de fios. Eu disse à médica: ‘Como assim ele vai morrer? Eu trouxe ele aqui quatro vezes. Ele tem alguma bactéria?’. Foi então que fizeram um hemograma. O resultado mostrou que ele realmente tinha uma bactéria e precisava fazer uma tomografia, mas não deu tempo. Ele poderia ter feito a tomografia nas últimas três vezes”, disse a mãe.

O pai da criança, Arthur Zeeuw, é holandês e estava no país de origem quando Nicholas foi internado. Arthur Zeeuw disse que a família acompanhou o atendimento à distância.

Arthur afirma que Núbia foi impedida de fazer uma chamada de vídeo para que ele pudesse ver e se despedir do filho nos últimos momentos de vida.

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Polícia Civil abre cinco inquéritos

A Polícia Civil abriu cinco inquéritos relacionados ao Hospital da Criança. Um deles apura o suposto aumento no número de mortes nas UTIs pediátricas da unidade.

Na noite desta segunda-feira (20), o delegado Joviano Furtado informou que a Polícia Civil abriu esse quinto inquérito para investigar a morte de Nicholas Jan Zeeuw, de 7 anos.

Os outros três investigam, separadamente, as mortes de Otto, de 1 ano; Kerliane, de 7 anos; Bernardo, de 4 meses.

Os pais de Otto foram os primeiros a prestar depoimento nesta segunda-feira (20). Eles contaram ao delegado o que teria acontecido durante os 17 dias em que o filho permaneceu internado.

Otto deu entrada no hospital em janeiro deste ano com uma infecção intestinal. Segundo a família, ele morreu após desenvolver um quadro de choque séptico, uma reação grave do organismo a uma infecção.

A mãe de Kerliane, Jainara Souza dos Santos, também foi ouvida pela polícia. A menina morreu no dia 29 de abril, após quatro dias de internação.

Segundo a mãe, Kerliane procurou o hospital com dor em uma das pernas depois de sofrer uma queda. A criança foi liberada, mas voltou à unidade dois dias depois.

O atestado de óbito aponta como causas da morte uma parada respiratória associada a uma infecção generalizada. A mãe acusa o hospital de negligência e cobra respostas sobre o atendimento prestado à filha.

O delegado Joviano Furtado informou que a Polícia Civil já recebeu os prontuários médicos de Otto, Kerliane e Bernardo. Os documentos devem passar por análise técnica durante as investigações.

Na semana passada, duas médicas e a diretora-geral do Hospital da Criança também prestaram depoimento. Elas foram ouvidas no inquérito que investiga a morte de Bernardo.

O bebê morreu cerca de 30 horas após o irmão gêmeo, Bento. A polícia apura os procedimentos adotados durante o atendimento das duas crianças.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) informou que o Hospital da Criança cumpre rigorosamente os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde e que tem colaborado integralmente com a Polícia Civil, os órgãos de controle e demais instituições responsáveis pelas apurações dos casos apresentados.  

Leia, abaixo, a nota na íntegra:

A Secretaria Municipal de Saúde (Semus) informa que o Hospital da Criança cumpre rigorosamente os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, em especial a RDC nº 7/2010, que determina os critérios de funcionamento das UTIs pediátricas, atestados em vistoria realizada pelo Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA).

A Semus tem colaborado integralmente com a Polícia Civil, os órgãos de controle e demais instituições responsáveis pelas apurações dos casos apresentados. Além disso, determinou prioridade na análise dos casos pela Comissão de Revisão de Óbitos do hospital, e reafirma que, entre 2024 e 2025, houve redução no número de óbitos nas UTIs.

A Semus informa, também, que recebeu, no final da tarde desta segunda-feira (20), o relatório da Defensoria Pública do Estado do Maranhão e instituiu uma comissão técnica interna para a análise detalhada. Os esclarecimentos e eventuais providências serão apresentados no prazo de até dez dias.

A Semus se solidariza com as famílias e reafirma sua confiança na apuração técnica, imparcial e transparente dos fatos, ressaltando que eventuais conclusões sobre condutas médicas e assistenciais devem estar fundamentadas em análises realizadas por profissionais e instituições legalmente habilitados.

Defensoria Pública identifica problemas nas UTIs pediátricas do Hospital da Criança

Uma nota técnica da Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE-MA) apontou problemas na estrutura de atendimento e ausência de profissionais especializados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) Pediátricas do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís. O documento foi elaborado após uma vistoria realizada na unidade e reúne informações sobre escalas médicas, disponibilidade de insumos e funcionamento dos setores.

A inspeção ocorreu na quarta-feira (15) e foi realizada pelos defensores públicos Davi Rafael Silva Veras, do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente, e Vinicius Goulart Reis, do Núcleo de Defesa da Saúde.

Segundo a Defensoria, durante a vistoria foi identificado que cada UTI contava com apenas um médico plantonista para atender até 10 leitos de alta complexidade. A nota também aponta a ausência de médicos diaristas, responsáveis técnicos e coordenadores durante o período da tarde.

O que dizem as autoridades?

Prefeitura afirma que assistência seguiu protocolos técnicos

A Secretaria Municipal de Saúde de São Luís informou que a auditoria conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) ainda está em andamento e que todas as informações solicitadas estão sendo fornecidas ao órgão. A secretaria afirmou que se solidariza com a dor das famílias e reiterou que os dados apresentados anteriormente foram extraídos de prontuários e relatórios médicos.

O órgão também informou que, mediante autorização dos familiares, poderá disponibilizar os documentos oficiais e destacou que a assistência prestada aos pacientes seguiu os protocolos técnicos e assistenciais vigentes, com condutas adotadas conforme a evolução clínica registrada de cada criança.

Prefeitura diz que vistoria da Defensoria ocorreu sem aviso prévio

Sobre a vistoria realizada pela Defensoria Pública do Estado no Hospital da Criança, a Secretaria de Saúde afirmou que a visita ocorreu sem comunicação prévia ao órgão, diferentemente de inspeções institucionais realizadas pelo Ministério da Saúde. Ainda assim, segundo a secretaria, a equipe da unidade recebeu os representantes da Defensoria e prestou as informações solicitadas.

A pasta ressaltou que o Hospital da Criança é uma unidade de alta complexidade e que, por isso, o acesso às áreas assistenciais deve seguir critérios técnicos relacionados à segurança dos pacientes, controle de infecções e continuidade do atendimento.

A Secretaria informou ainda que aguarda a apresentação dos apontamentos da Defensoria, já que, segundo o órgão, não houve comunicação prévia sobre o objeto específico da inspeção e, até o momento, não foram disponibilizadas informações sobre eventuais irregularidades identificadas durante a visita.

Prefeitura nega omissão de dados

A Prefeitura de São Luís negou que haja desabastecimento generalizado de insumos e medicamentos no Hospital da Criança. A gestão municipal admitiu, no entanto, que podem ocorrer reduções pontuais nos estoques em períodos de alta demanda.

Nessas situações, segundo o município, são realizados o remanejamento interno de materiais ou a substituição de medicamentos por produtos equivalentes.

Sobre a segurança e a qualidade do atendimento, a prefeitura afirmou que monitora as UTIs pediátricas para evitar a interrupção dos serviços ou o fechamento de leitos.

A administração municipal também destacou o papel regional do Hospital da Criança. Segundo a prefeitura, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e 71% dos pacientes internados no primeiro semestre deste ano vieram de municípios do interior do Maranhão.

A Prefeitura de São Luís também negou que omita informações do Sistema Único de Saúde e afirmou que todas as mortes registradas no hospital são notificadas oficialmente ao Sistema de Informações sobre Mortalidade.

De acordo com a gestão municipal, eventuais diferenças entre os dados locais e as informações disponíveis nos sistemas públicos federais são provocadas por atrasos no processamento e na atualização da base nacional.

Ao contrário do que aponta a denúncia investigada pelo Ministério Público, a prefeitura informou que não houve aumento expressivo no número de mortes no Hospital da Criança. Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025. O número de óbitos passou de 112 para 117 no período.

A gestão municipal também afirmou que o quadro de profissionais das UTIs atende integralmente às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

A prefeitura reforçou ainda que não existem registros oficiais de desabastecimento generalizado e que o fornecimento de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.

Contrato com o IBMED

Sobre a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, a Prefeitura de São Luís afirmou que a licitação e o contrato cumprem rigorosamente a legislação.

O município declarou ainda que o Tribunal de Contas do Estado negou os pedidos de suspensão do contrato e arquivou as representações apresentadas contra a administração municipal.

Conselho Regional de Medicina

O Conselho Regional de Medicina informou que acompanha a situação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança. Segundo o órgão, o objetivo é garantir a segurança da assistência prestada aos pacientes e as condições de trabalho dos médicos.

O conselho afirmou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificadas irregularidades.

Ministério Público Federal

O Ministério Público Federal informou que recebeu a denúncia sobre a situação do Hospital da Criança. O caso será analisado por um procurador da República, que vai avaliar a adoção das medidas necessárias para apurar os fatos.

Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde informou que já apura as denúncias encaminhadas à Ouvidoria do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís. Uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, o DenaSUS, foi enviada à unidade para analisar a situação das UTIs pediátricas e verificar as informações apresentadas nas denúncias.

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