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Rodrigo Bomfim é jornalista do Grupo Mirante. Editor de política do Imirante, também atua na Mirante News FM e TV Mirante.
Audiência

Pedido de reajuste de 114% leva MP a mediar acordo para manter UTIs do Hospital da Criança

Empresa havia pedido reajuste de 114% para renovar contrato com a Semus; município fará processo seletivo para contratar médicos

Rodrigo Bomfim/Imirante.com

Audiência de mediação definiu permanência temporária da empresa responsável pelos serviços médicos enquanto a Prefeitura de São Luís realiza processo seletivo para contratação de profissionais.
Audiência de mediação definiu permanência temporária da empresa responsável pelos serviços médicos enquanto a Prefeitura de São Luís realiza processo seletivo para contratação de profissionais. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

SÃO LUÍS – Um acordo mediado pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA) manteve os serviços médicos das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos por mais 60 dias. A medida ocorreu após o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (Ibmed), responsável pelo atendimento, pedir um reajuste de 114% no contrato com a Secretaria Municipal de Saúde (Semus).

O contrato entre a empresa e o município vence no próximo dia 22 de julho. Pela negociação firmada em audiência realizada nesta última quinta-feira (16), o Ibmed continuará prestando os serviços até 22 de setembro. Nesse período, a Prefeitura de São Luís deverá realizar um processo seletivo simplificado para contratação de médicos que atuarão nas três UTIs pediátricas da unidade.

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Também ficou definido que a Semus vai analisar os custos extraordinários apresentados pela empresa durante a execução do contrato. A audiência foi conduzida pelo promotor de Justiça Herberth Costa Figueiredo, da 19ª Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Saúde, e contou com representantes da secretaria, da Procuradoria-Geral do Município e do Ibmed.

Uma nova audiência foi marcada para 1º de setembro para acompanhar o cumprimento do acordo e o andamento das medidas adotadas pelo município.

Empresa pediu aumento do contrato

O pedido de reajuste foi apresentado pelo Ibmed em 22 de abril, quando a empresa respondeu à consulta da Semus sobre a renovação do Contrato nº 339/2025.

No documento, o instituto informou interesse em continuar com o serviço, mas condicionou a permanência à recomposição dos valores do contrato.

Segundo a empresa, o contrato inicial era de R$ 4,77 milhões e recebeu um primeiro termo aditivo em março deste ano, passando para R$ 5,36 milhões anuais, o equivalente a R$ 446,6 mil por mês.

O Ibmed solicitou que o valor mensal fosse elevado para R$ 956,9 mil, totalizando R$ 11,48 milhões por ano. A empresa alegou que o reajuste seria necessário para compensar um déficit operacional mensal de R$ 559,5 mil provocado pelo aumento dos custos para manter as equipes médicas.

Segundo a manifestação enviada à Semus, o desequilíbrio financeiro ocorreu após 51 médicos intensivistas pediátricos recusarem vínculo com a empresa. O instituto afirmou que precisou contratar profissionais de Teresina (PI), gerando despesas com transporte, hospedagem e alimentação.

O Ibmed afirmou ainda que o caso foi comunicado ao Ministério Público em 2025 e que a situação fundamenta o pedido de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato.

Semus aponta aumento de custos

Durante a audiência, a Semus informou que o pedido de reajuste está relacionado ao aumento dos custos para contratação de médicos de outros estados.

A Procuradoria-Geral do Município afirmou que uma eventual recomposição financeira depende da realização de estudos técnicos.

Na manifestação enviada à secretaria, o Ibmed cita parecer técnico contábil e documentos que, segundo a empresa, indicam a necessidade de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato.

O instituto também menciona manifestações da Coordenação de Compras e Contratos da Semus, do Ministério Público de Contas e uma decisão do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).

Medidas previstas no acordo

O acordo prevê:

  • permanência do Ibmed na prestação dos serviços das UTIs até 22 de setembro de 2026;
  • pagamento do contrato vigente durante o período;
  • análise, pela Semus, dos custos operacionais extraordinários apresentados pela empresa;
  • pagamento desses custos caso sejam comprovados;
  • realização de processo seletivo simplificado para contratação de médicos;
  • pagamento de faturas pendentes desde maio, conforme os procedimentos administrativos.

Memorando da Semus pediu contratação emergencial de médicos

Um memorando elaborado pela Secretaria Municipal de Saúde (Semus) na manhã nesta última quinta-feira (16) pediu autorização para contratar, em caráter emergencial, uma empresa especializada para manter os serviços médicos da UTI Pediátrica do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos.

O documento foi encaminhado para análise da secretária municipal de Saúde, Ana Carolina Marques Mitri da Costa, e aponta que a medida seria necessária para evitar a interrupção da assistência diante do impasse nas negociações com o Ibmed.

Segundo o memorando, a unidade possui 29 leitos de UTI Pediátrica e enfrenta dificuldades para manter a escala de intensivistas pediátricos. A proposta prevê a contratação de 14 médicos, entre coordenadores, plantonistas e diaristas.

A audiência de mediação no Ministério Público ocorreu às 12h do mesmo dia. Caso autorizada, a contratação emergencial teria duração de 12 meses, sem possibilidade de prorrogação.

Caso é alvo de investigações e inspeções

O acordo ocorre enquanto o Hospital da Criança é alvo de investigações sobre o funcionamento das UTIs pediátricas.

O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) apura denúncias encaminhadas à Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS) que apontam possíveis casos de negligência e imperícia médica, redução das equipes e atuação de profissionais sem a qualificação exigida.

Segundo as denúncias, 113 crianças morreram no hospital em 2025, sendo 101 nas três UTIs da unidade, frente a 39 óbitos registrados nesses setores em 2024. O promotor de Justiça Herberth Figueiredo afirma que os relatos indicam falhas na composição das escalas médicas e possível sobrecarga dos profissionais.

Na quarta-feira (15), a Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE-MA) realizou uma inspeção no Hospital da Criança e informou ter identificado indícios de irregularidades, entre eles a atuação de uma médica sem especialização em pediatria e um número de profissionais considerado insuficiente para atender à demanda da unidade.

O órgão informou que elaborará um relatório sobre a vistoria e afirmou que já havia alertado a Prefeitura de São Luís, em 2025, sobre problemas relacionados à licitação vencida pelo Ibmed.

As denúncias também incluem relatos de familiares sobre demora no atendimento, falta de medicamentos e falhas na assistência. Em um dos casos investigados, os pais dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, afirmam que os filhos morreram em um intervalo inferior a 24 horas após serem internados na unidade. As circunstâncias são investigadas pela Polícia Civil.

O que dizem as autoridades

A Semus informou que a auditoria conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS) está em andamento e que todas as informações solicitadas vêm sendo fornecidas ao órgão.

A secretaria afirma que a assistência prestada às crianças seguiu os protocolos técnicos e assistenciais vigentes e que os dados divulgados anteriormente foram extraídos de prontuários e relatórios médicos.

Sobre a inspeção da Defensoria Pública, a pasta informou que a vistoria ocorreu sem comunicação prévia, mas que a equipe foi recebida e teve acesso às informações solicitadas. A secretaria acrescentou que aguarda o relatório da instituição para analisar os apontamentos apresentados.

A Prefeitura de São Luís também negou desabastecimento generalizado de medicamentos e insumos, afirmou que monitora permanentemente o funcionamento das UTIs pediátricas e contestou a informação de aumento expressivo no número de mortes.

Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025, passando de 112 para 117 óbitos. A gestão sustenta ainda que o quadro de profissionais atende às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que o contrato firmado com o Ibmed observou a legislação.

O Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA) informou que acompanha o caso e adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades. O Ministério Público Federal (MPF) informou que analisará a denúncia, enquanto o Ministério da Saúde confirmou que o DenaSUS já realiza auditoria para apurar as denúncias relacionadas ao funcionamento das UTIs pediátricas.


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