Protesto com mais de 100 cruzes na frente do Hospital da Criança cobra respostas sobre mortes em UTIs pediátricas
A manifestação ocorre enquanto órgãos investigam denúncias de supostas irregularidades nas UTIs pediátricas do Hospital da Criança.
SÃO LUÍS - Mais de 100 cruzes foram colocadas em frente ao Hospital da Criança, em São Luís, na manhã desta quinta-feira (16), durante um protesto silencioso para chamar a atenção e cobrar respostas após as mortes de crianças nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) da instituição.
O ato reúne pais que perderam suas crianças, conselheiros tutelares e amigos das famílias. A manifestação ocorre enquanto o Ministério Público Estadual, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública, a Polícia Civil e técnicos do Ministério da Saúde investigam denúncias de supostas irregularidades no funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas.
A previsão é que a mobilização siga até às 11h desta sexta-feira.
O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) segue investigando o aumento no número de mortes nas UTIs pediátricas do Hospital da Criança. Segundo informações apresentadas ao órgão, a unidade teria registrado 113 mortes em 2025. Desse total, 101 teriam ocorrido nas três UTIs pediátricas. O número representa 62 óbitos a mais do que o registrado no ano anterior, conforme os relatos encaminhados às autoridades.
De acordo com as denúncias, o aumento das mortes coincide com a mudança na gestão das UTIs pediátricas. Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís realizou uma licitação para contratar o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), responsável pelo gerenciamento das unidades de terapia intensiva.
Segundo o Ministério Público, o contrato firmado teria reduzido significativamente os recursos destinados ao custeio das UTIs, além de diminuir o número de médicos previstos para atuar nas unidades.
O IBMED nega as irregularidades apontadas nas denúncias. Segundo o diretor clínico da empresa, Paulo Bayma, mais de 20 médicos integram atualmente a equipe responsável pelo atendimento das UTIs pediátricas do Hospital da Criança.
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Profissionais que trabalhavam anteriormente no hospital relataram que alguns integrantes da equipe foram convidados a permanecer após a mudança de gestão. Eles, no entanto, teriam recusado a proposta por considerarem insuficiente o quantitativo de médicos previsto para garantir a segurança dos atendimentos.
Uma das médicas ouvidas durante as investigações afirmou que seria “humanamente impossível” um único profissional, mesmo qualificado, assumir sozinho o atendimento de uma UTI pediátrica de alta complexidade.
Famílias relatam falhas no atendimento e cobram esclarecimentos
Além das denúncias relacionadas ao funcionamento das UTIs pediátricas, familiares de crianças atendidas no Hospital da Criança relataram problemas como falta de medicamentos, demora na realização de exames, redução das equipes médicas e dificuldades no acompanhamento dos pacientes durante a internação.
Entre os casos está o dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, que morreram em um intervalo inferior a 24 horas. Os bebês moravam com a família em Rosário, no Maranhão, e foram levados ao Hospital da Criança após apresentarem sintomas gripais.
Bento foi internado na madrugada do dia 27 de junho com suspeita de bronquiolite. Segundo a mãe, Samila dos Santos Lobato, ao chegar à unidade hospitalar ela encontrou diversas crianças intubadas aguardando atendimento. Cerca de oito horas depois, Bernardo também precisou ser internado.
“Quando eu entrei, meu coração esfriou porque vi várias crianças entubadas. Quando chegou a vez do meu filho, a médica o avaliou e disse que a solução seria entubá-lo”, contou Samila.
Durante a internação, o quadro clínico de Bento se agravou. O bebê sofreu duas paradas cardiorrespiratórias, foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu. A declaração de óbito aponta como causas da morte insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico, considerado o estágio mais grave da sepse, uma infecção generalizada que provoca uma intensa resposta inflamatória no organismo.
Enquanto Bento era sepultado em Rosário, Bernardo permanecia internado em São Luís. Segundo a família, ao retornar do enterro do filho, Samila encontrou o bebê ainda reagindo ao tratamento. Pouco tempo depois, Bernardo precisou ser intubado, mas não chegou a ser transferido para uma UTI. Ele morreu no dia 2 de julho, por volta das 9h.
Defensoria acompanha situação desde 2025
A Defensoria Pública acompanha a situação do Hospital da Criança desde o ano passado, quando a Prefeitura de São Luís lançou o edital para contratar uma empresa responsável pela gestão das UTIs da unidade.
O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) venceu a licitação que, segundo a Defensoria Pública, apresentava diversas falhas. À época, o órgão recomendou ao Ministério Público do Maranhão (MP-MA) a adoção de medidas para impedir a contratação da empresa, sob o argumento de que as irregularidades poderiam comprometer o atendimento nas UTIs pediátricas. A Defensoria também notificou a Prefeitura de São Luís sobre os riscos apontados.
"Em 4 de agosto de 2025, a Semus foi notificada das irregularidades. A empresa só entrou em atividade em 13 de outubro de 2025. Ou seja, dois meses antes nós fizemos a notificação para a secretaria, notificamos a Sociedade de Puericultura e Pediatria e o Ministério Público. Depois tivemos reuniões com as equipes e nos foi garantido que os problemas seriam solucionados", afirmou Davi Veras.
Defensoria diz que alertou Prefeitura de São Luís sobre falhas em licitação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança
A Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE-MA) informou que alertou a Prefeitura de São Luís, ainda antes da contratação da empresa responsável pela gestão das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas do Hospital da Criança, sobre falhas identificadas no processo licitatório que permitiam a redução das equipes médicas e a atuação de profissionais sem especialização em pediatria e terapia intensiva pediátrica.
Segundo o defensor público Davi Veras, coordenador do Núcleo da Criança e do Adolescente da DPE-MA, as irregularidades apontadas ainda em 2025 podem estar relacionadas às denúncias que vêm sendo apuradas sobre o funcionamento das UTIs pediátricas da unidade hospitalar.
O que dizem as autoridades?
Prefeitura afirma que assistência seguiu protocolos técnicos
A Secretaria Municipal de Saúde de São Luís informou que a auditoria conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) ainda está em andamento e que todas as informações solicitadas estão sendo fornecidas ao órgão. A secretaria afirmou que se solidariza com a dor das famílias e reiterou que os dados apresentados anteriormente foram extraídos de prontuários e relatórios médicos.
O órgão também informou que, mediante autorização dos familiares, poderá disponibilizar os documentos oficiais e destacou que a assistência prestada aos pacientes seguiu os protocolos técnicos e assistenciais vigentes, com condutas adotadas conforme a evolução clínica registrada de cada criança.
Prefeitura diz que vistoria da Defensoria ocorreu sem aviso prévio
Sobre a vistoria realizada pela Defensoria Pública do Estado no Hospital da Criança, a Secretaria de Saúde afirmou que a visita ocorreu sem comunicação prévia ao órgão, diferentemente de inspeções institucionais realizadas pelo Ministério da Saúde. Ainda assim, segundo a secretaria, a equipe da unidade recebeu os representantes da Defensoria e prestou as informações solicitadas.
A pasta ressaltou que o Hospital da Criança é uma unidade de alta complexidade e que, por isso, o acesso às áreas assistenciais deve seguir critérios técnicos relacionados à segurança dos pacientes, controle de infecções e continuidade do atendimento.
A Secretaria informou ainda que aguarda a apresentação dos apontamentos da Defensoria, já que, segundo o órgão, não houve comunicação prévia sobre o objeto específico da inspeção e, até o momento, não foram disponibilizadas informações sobre eventuais irregularidades identificadas durante a visita.
Prefeitura nega omissão de dados
A Prefeitura de São Luís negou que haja desabastecimento generalizado de insumos e medicamentos no Hospital da Criança. A gestão municipal admitiu, no entanto, que podem ocorrer reduções pontuais nos estoques em períodos de alta demanda.
Nessas situações, segundo o município, são realizados o remanejamento interno de materiais ou a substituição de medicamentos por produtos equivalentes.
Sobre a segurança e a qualidade do atendimento, a prefeitura afirmou que monitora as UTIs pediátricas para evitar a interrupção dos serviços ou o fechamento de leitos.
A administração municipal também destacou o papel regional do Hospital da Criança. Segundo a prefeitura, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e 71% dos pacientes internados no primeiro semestre deste ano vieram de municípios do interior do Maranhão.
A Prefeitura de São Luís também negou que omita informações do Sistema Único de Saúde e afirmou que todas as mortes registradas no hospital são notificadas oficialmente ao Sistema de Informações sobre Mortalidade.
De acordo com a gestão municipal, eventuais diferenças entre os dados locais e as informações disponíveis nos sistemas públicos federais são provocadas por atrasos no processamento e na atualização da base nacional.
Ao contrário do que aponta a denúncia investigada pelo Ministério Público, a prefeitura informou que não houve aumento expressivo no número de mortes no Hospital da Criança.
Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025. O número de óbitos passou de 112 para 117 no período.
A gestão municipal também afirmou que o quadro de profissionais das UTIs atende integralmente às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.
A prefeitura reforçou ainda que não existem registros oficiais de desabastecimento generalizado e que o fornecimento de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.
Contrato com o IBMED
Sobre a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, a Prefeitura de São Luís afirmou que a licitação e o contrato cumprem rigorosamente a legislação.
O município declarou ainda que o Tribunal de Contas do Estado negou os pedidos de suspensão do contrato e arquivou as representações apresentadas contra a administração municipal.
Conselho Regional de Medicina
O Conselho Regional de Medicina informou que acompanha a situação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança. Segundo o órgão, o objetivo é garantir a segurança da assistência prestada aos pacientes e as condições de trabalho dos médicos.
O conselho afirmou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificadas irregularidades.
Ministério Público Federal
O Ministério Público Federal informou que recebeu a denúncia sobre a situação do Hospital da Criança. O caso será analisado por um procurador da República, que vai avaliar a adoção das medidas necessárias para apurar os fatos.
Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde informou que já apura as denúncias encaminhadas à Ouvidoria do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís. Uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, o DenaSUS, foi enviada à unidade para analisar a situação das UTIs pediátricas e verificar as informações apresentadas nas denúncias.
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