Roberto Serra
COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Quando o poder deixa de circular

Uma Universidade que ensina liberdade precisa ser capaz de praticá-la dentro de casa.

Roberto Serra

- Atualizada em 13/09/2026 às 10h35

No dia 10 de setembro de 2026, o jornal argentino La Nación publicou o artigo “La universidad feudal: entre la perpetuación en el poder y el autohomenaje(“A universidade feudal: entre a perpetuação no poder e a auto-homenagem”), de Luciano Román. O texto analisa universidades argentinas em que as eleições continuam acontecendo, mas o poder permanece por décadas concentrado nos mesmos grupos.

Em Tucumán, o autor relata a tentativa de um reitor de permanecer por um terceiro mandato. Em La Plata, descreve a circulação entre presidência e vice-presidência como mecanismo que teria permitido ao mesmo núcleo político permanecer cerca de vinte anos no comando. É nesse contexto que usa a expressão “universidade feudal”, como metáfora para estruturas marcadas por concentração de poder, dependência, personalismo e dificuldade de alternância.

É difícil ler esse artigo sem olhar para a UEMA. Estamos diante da terceira sucessão consecutiva em que um vice-reitor chega à Reitoria. No primeiro ciclo, foram quatro anos como vice e oito como reitor. No seguinte, oito anos como vice e oito como reitor. Agora, novamente, alguém que exerceu a Vice-Reitoria por oito anos está prestes a concluir quatro anos como reitor e disputa mais quatro, buscando completar dezesseis anos consecutivos entre os dois principais cargos da Universidade.

Tudo isso pode estar formalmente dentro das regras. Mas democracia não é apenas legalidade. Pressupõe pluralismo, competição real, liberdade para divergir e possibilidade concreta de alternância. Quando esse padrão se repete por mais de duas décadas, a questão deixa de ser pessoal e passa a ser institucional. Precisamos compreender que mecanismos tornam a continuidade tão forte e a mudança tão difícil.

Um deles é a lista tríplice.

Uma lista de três nomes só tem sentido democrático se representar três alternativas reais. Quando uma chapa não disputa efetivamente, permanece a reboque de outra e afirma que só aceitaria ser nomeada se terminasse em primeiro lugar, surge uma pergunta inevitável. Qual é, então, a finalidade de sua presença na lista?

As chamadas “chapas laranjas” são assunto público e recorrente na comunidade universitária. São candidaturas que formalmente disputam, mas cuja atuação é percebida como funcional à candidatura da Reitoria e à composição da lista tríplice. Quando a pluralidade existe apenas no papel, a eleição preserva a forma, mas perde substância democrática. Não por acaso, a Lei nº 15.367, de março de 2026, superou a antiga lógica da lista tríplice nas universidades federais, fazendo prevalecer a chapa escolhida pela comunidade acadêmica.

A concentração de poder, porém, não se sustenta apenas pelas regras eleitorais. Ela também se alimenta das relações de dependência dentro da própria estrutura universitária. Gestores locais dependentes da administração central podem acabar atuando politicamente em favor de uma candidatura e influenciando pessoas que dependem de bolsas, funções, programas ou oportunidades acadêmicas. Nem sempre é necessária uma ordem expressa. Quando alguém teme que sua posição política possa trazer consequências, a liberdade de escolha já está ameaçada.

Há ainda forte desigualdade no peso eleitoral. Na UEMA, docentes respondem por 70% do resultado, enquanto estudantes representam 15% e técnicos outros 15%. Isso reduz significativamente a influência de milhares de estudantes e servidores que também constituem a Universidade.

O problema se torna mais grave quando aparece o medo. Tenho ouvido professores, funcionários e estudantes dizerem reservadamente aquilo que não se sentem seguros para assumir publicamente. Há pessoas que evitam declarar seu voto e relatos de constrangimentos, intimidações e assédio moral contra quem manifesta apoio à candidatura alternativa.

O artigo argentino descreve situação semelhante em La Plata, onde uma crítica ao reitor circulou anonimamente porque seus autores não se sentiam confortáveis para fazê-la publicamente. Quando alguém precisa esconder sua identidade para discordar dentro de uma universidade, existe um problema de liberdade institucional.

Aqui convivemos também com o anonimato usado para atacar. Perfis falsos, mensagens sem autoria e ataques pessoais são espalhados por WhatsApp e redes sociais. Em vez do confronto de ideias, busca-se desqualificar quem diverge.

Tudo isso se conecta à forte centralização administrativa. Um diretor de campus pode ser eleito por sua comunidade, mas, sem orçamento próprio e autonomia financeira, continua dependente da Reitoria para quase tudo, desde manutenção, equipamentos e pessoal até veículos, combustível, reformas e recursos.

Forma-se uma gestão de balcão. Em vez de autonomia e critérios públicos, acumulam-se pedidos e negociações. Existe uma fila, mas nem sempre estão claras sua ordem e suas prioridades. Quanto maior a dependência da Reitoria, maior o custo de contrariá-la. Nem sempre é preciso exigir fidelidade. Um sistema muito centralizado pode produzi-la por si mesmo.

É nesse sentido que a metáfora da “universidade feudal” merece nossa atenção, não necessariamente pela existência literal de senhores e vassalos, mas pela combinação entre permanência prolongada no poder, relações de dependência, centralização das decisões e dificuldade de contestação.

Alguém poderá perguntar com que legitimidade faço essa crítica se participei de administrações anteriores. A resposta é simples. Justamente porque conheço o sistema por dentro.

Sou administrador por formação e profissional da gestão universitária por experiência. Há mais de três décadas vivo a UEMA como estudante, servidor técnico-administrativo, professor e gestor. Participei de diferentes administrações e tenho orgulho de muito do que ajudei a construir. Mas participar de uma gestão não significa ter as prerrogativas necessárias para realizar todas as mudanças que julgamos importantes.

Em uma estrutura tão centralizada, pode-se propor, planejar, alertar, defender alternativas e tentar construir mudanças, mas muitas decisões relevantes permanecem concentradas na Reitoria. A caneta, em última instância, é do reitor.

Por isso, ter participado de gestões anteriores não me impede de reconhecer seus limites. Ao contrário, essa experiência me permite compreender com maior clareza o que funciona, o que precisa ser preservado e o que precisa mudar.

Tenho visto há anos os efeitos dessa excessiva centralização, com campi esperando decisões de São Luís e gestores transformados em intermediários de pedidos. Seria intelectualmente desonesto reconhecer essas limitações e permanecer calado apenas porque participei, em algum momento, desse modelo. Não questiono pessoas por terem ocupado cargos. Questiono um sistema que se consolidou ao longo do tempo e dificulta a alternância de poder.

Quando se combinam sucessões prolongadas, lista tríplice, candidaturas apenas formais, desigualdade do peso eleitoral, centralização, dependência e medo de divergir, o problema deixa de ser apenas uma eleição e passa a ser um problema de democracia institucional.

Quando o poder deixa de circular, a democracia começa a perder sentido. E uma Universidade que ensina liberdade precisa ser capaz de praticá-la dentro de casa.


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