A nova missão da universidade: ensino, pesquisa e extensão já não bastam
A universidade é uma instituição histórica, e suas funções nunca foram estáticas
A universidade é uma instituição histórica, e suas funções nunca foram estáticas. Ao longo dos séculos, ela foi chamada a responder a exigências diferentes, conforme mudavam a sociedade, a ciência e a organização da vida econômica. Por isso, falar em “missões” universitárias não é mero exercício conceitual: é reconhecer que a universidade se transforma para continuar fazendo sentido no mundo.
A primeira grande missão da universidade foi o ensino. Desde as origens medievais da instituição e sua consolidação na tradição clássica europeia, a universidade se afirmou como espaço de formação de quadros, transmissão do conhecimento acumulado e organização da vida intelectual. Seu papel central era preparar juristas, médicos, teólogos, administradores e outros profissionais necessários à vida social. A prioridade estava em ensinar, conservar e transmitir saberes.
A segunda missão se consolida no século XIX, sobretudo com a tradição humboldtiana alemã — o modelo associado a Wilhelm von Humboldt e à Universidade de Berlim, que defendia a unidade entre ensino e pesquisa, a liberdade acadêmica e a formação intelectual pela investigação científica. Nesse paradigma, a universidade moderna deixa de ser apenas lugar de transmissão do saber e passa a ser também espaço de produção de conhecimento novo, ampliação das fronteiras da ciência e articulação entre formação superior e investigação acadêmica.
A terceira missão surge mais tarde, no contexto das transformações econômicas, tecnológicas e institucionais do século XX, e ganha formulação mais clara a partir dos anos 1990. Nesse novo cenário, a universidade já não podia ser compreendida apenas como instituição de ensino e pesquisa. Esperava-se dela também uma capacidade ativa de produzir impacto direto na sociedade, de interagir com o setor produtivo, de dialogar com governos, de participar da inovação e de transformar conhecimento em desenvolvimento.
As experiências internacionais ajudam a entender essa terceira missão em suas formas mais representativas. Nos Estados Unidos, destacou-se a universidade empreendedora, articulada a parques tecnológicos, financiamento à pesquisa aplicada e forte interação com o setor produtivo. Na China, as universidades foram integradas ao projeto nacional de modernização, soberania tecnológica e planejamento de longo prazo. Em ambos os casos, a instituição de ensino superior passou a ser vista como infraestrutura estratégica de desenvolvimento, capaz de converter conhecimento em inovação, competitividade e impacto econômico e social.
É importante notar que, nesse contexto, a terceira missão não substitui as duas anteriores. Ela as amplia, sem anulá-las. Ensino e pesquisa continuam sendo pilares centrais da universidade. O que muda é o horizonte: a universidade passa a ser chamada a responder não só pela formação e pela produção científica, mas também pela capacidade de transformar esse conhecimento em consequências concretas para a sociedade.
No Brasil, a trajetória foi distinta. Aqui, a universidade teve de lidar com uma realidade marcada por desigualdade estrutural, atraso histórico e concentração de oportunidades. Nesse cenário, a extensão universitária cumpriu um papel importante de abertura da universidade à sociedade. Ela ajudou a romper o isolamento acadêmico, a levar saberes para além dos muros institucionais e a aproximar a produção universitária de problemas concretos da população. Foi uma resposta histórica relevante, mas parcial.
E aqui está o ponto central: a extensão, no Brasil, não equivale à terceira missão contemporânea. Ela representa apenas uma parte desse horizonte mais amplo. Sua importância é inegável, mas seu alcance é limitado quando comparado ao conceito internacional de terceira missão. A extensão contribuiu para ampliar o compromisso público da universidade, aproximar conhecimento e sociedade e alimentar soluções compartilhadas, mas não esgotou a função da instituição como agente de inovação, desenvolvimento e transformação estrutural.
O modelo consagrado pela Constituição de 1988, ao afirmar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, foi um avanço civilizatório. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Plano Nacional de Educação e a Resolução CNE/CES nº 7/2018 reforçaram essa orientação, inclusive ao estimular a curricularização da extensão. Mas a existência de um marco legal não garante, por si só, a plena realização do projeto universitário. Na prática, ensino, pesquisa e extensão muitas vezes permanecem como dimensões paralelas, com pouca integração real.
O ensino, com frequência, ainda se prende à transmissão de conteúdos. A pesquisa, embora indispensável, é muitas vezes orientada por critérios que valorizam mais a produção mensurável do que o impacto efetivo do conhecimento. E a extensão, por sua vez, tende a se limitar a ações pontuais de aproximação com a sociedade, sem alcançar, na prática, a força estruturante que poderia ter na orientação do ensino e da pesquisa.
Basta observar o ambiente ao redor. Quando faltam soluções para a educação básica, quando a saúde pública enfrenta desorganização, quando a economia local precisa de tecnologia e gestão, quando o meio ambiente exige respostas sofisticadas, quando as cidades carecem de planejamento, quando o setor produtivo não consegue inovar e quando comunidades inteiras permanecem excluídas de oportunidades, seria natural que a universidade fosse buscada como centro de produção de respostas qualificadas. É justamente aí que a terceira missão se revela fundamental. Como ela ainda não foi plenamente incorporada, porém, essa expectativa social nem sempre encontra uma universidade preparada para respondê-la de forma estruturante.
O Brasil de hoje não é mais apenas um país que precisa aproximar a universidade do povo. É também uma economia global pressionada pela competição tecnológica, pela disputa por inovação, pela necessidade de produtividade, pela transição energética, pela transformação digital e pela urgência de converter inteligência em riqueza, soberania e desenvolvimento humano. O problema já não é somente social; é também estratégico. A universidade brasileira precisa assumir uma nova missão — mais ampla, mais exigente e mais compatível com os desafios do século XXI.
É por isso que a nova missão universitária não pode ser tratada como um adendo ao tripé tradicional. Ela precisa reorganizar o modo como a universidade pensa a si mesma. Ensinar, sim — mas ensinando a resolver problemas. Pesquisar, sim — mas também pesquisando a partir dos desafios estratégicos da sociedade. Fazer extensão, sim — mas como mediação contínua entre universidade e realidade social.
A universidade brasileira precisa avançar para uma lógica em que conhecimento, impacto e desenvolvimento deixem de ser resultados ocasionais e passem a ser objetivos estruturantes. Isso vale para o país como um todo e vale, de forma particularmente aguda, para um sistema universitário que ainda precisa converter sua capacidade intelectual em transformação econômica e social consistente.
É nesse ponto que a nova missão da universidade ganha sua verdadeira dimensão. Não se trata de abandonar a função social da instituição, mas de elevá-la. Não se trata de transformar a universidade em empresa, mas de reconhecer que ciência sem consequência prática perde relevância histórica. Também não se trata de reduzir a universidade à lógica do mercado, porque ela continua sendo espaço de crítica, liberdade intelectual, formação humanística, pesquisa básica e produção cultural. O que se afirma aqui é outra coisa: no mundo contemporâneo, nenhuma dessas dimensões se enfraquece quando o conhecimento se conecta à solução de problemas reais. Ao contrário, todas se fortalecem.
A inovação, nesse sentido, não é um modismo nem um jargão administrativo. Inovar, na universidade, significa transformar ideias, pesquisas e descobertas em soluções aplicáveis que respondam às necessidades reais da sociedade. Significa fazer com que uma tese, um laboratório, um grupo de pesquisa ou uma sala de aula gerem não apenas publicações, mas também produtos, processos, tecnologias sociais, políticas públicas, negócios de base científica e oportunidades concretas de desenvolvimento.
Essa mudança exige coragem institucional. Exige rever currículos, critérios de avaliação, incentivos à carreira docente, políticas de pesquisa, relações com empresas, mecanismos de propriedade intelectual, incubadoras, núcleos de inovação tecnológica, parcerias com governos e formas de medir impacto. Exige, sobretudo, uma autocrítica honesta da própria academia.
Durante muito tempo, confundimos excelência com circulação interna. Um artigo publicado, uma banca realizada, um congresso apresentado, um projeto encerrado e um relatório protocolado passaram a ser vistos como fins em si mesmos. São importantes, sem dúvida. Mas não bastam. A pergunta que se impõe é outra: que realidade foi transformada? Que problema foi enfrentado? Que política pública foi qualificada? Que tecnologia foi transferida? Que comunidade foi fortalecida? Que setor produtivo foi sofisticado? Que estudante saiu mais preparado para criar, inovar e empreender?
A universidade que não souber responder a essas perguntas corre o risco de preservar prestígio formal e perder relevância histórica.
A nova missão, portanto, não deve ser tratada como uma quarta caixinha ao lado do ensino, da pesquisa e da extensão. Ela precisa ser o princípio organizador de uma nova cultura universitária. O desafio agora é articular ensino, pesquisa e extensão a uma estratégia integrada de desenvolvimento nacional, em que impacto, empreendedorismo, cultura, tecnologia e transformação social deixem de ser efeitos colaterais e passem a ser objetivos centrais da universidade.
O país já precisa de menos discurso sobre aproximação e mais capacidade de transformação. A universidade não deve ser apenas a ponte entre dois mundos. Ela deve ser parte do próprio caminho de modernização do Brasil.
Se quiser continuar sendo relevante, a universidade brasileira terá de aceitar uma verdade simples e dura: a missão que a trouxe até aqui já não é suficiente para levá-la adiante. O Brasil precisa de uma universidade capaz de transformar conhecimento em riqueza, inovação, soberania intelectual, justiça social, desenvolvimento humano e capacidade pública em escala.
Essa é a nova missão da universidade brasileira.
E ela já não pode esperar.
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