COLUNA
Lourival Serejo
Lourival Serejo é desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão e membro da Academia Maranhense de Letras.
LOURIVAL SEREJO

Sobre um candidato à presidência do Brasil

Eis que agora, para minha surpresa, Edmilson Silva Costa aparece-me como candidato à presidência da República.

Lourival Serejo

- Atualizada em 05/08/2026 às 12h37

Quando eu era universitário, morei numa casa que abrigava mais de trinta estudantes vindos do interior. Ficava ali, na Rua São Pantaleão. Era uma casa independente, dirigida por uma diretoria eleita. Fui presidente da Casa do Estudante Universitário do Maranhão por dois mandatos. 

O ambiente daquela “república” era sadio, havia regras de conduta e punições para aqueles que infringiam o regulamento, inclusive expulsão, nos casos de faltas mais graves. As discussões eram habituais, mas sem qualquer violência. Discutíamos música, política, governos e, com cautela, fazíamos comentários sobre a ditadura que vigorava no país. Ouvíamos a rádio Tirana, quase às escondidas, para saber o que estava havendo pelo Brasil, que não sabíamos por causa da censura.

Dentre os variados tipos que tínhamos na casa, havia um estudante de Comunicação, vindo de Pedreiras, chamado Edmilson Costa, que cultivava uma cabeleira volumosa, redonda, penteada com um pente especial, de madeira, com quatro longas pontas. Não chegava a ser um penteado; bastava dar umas estocadas e a cabeleira estava pronta.

O que destacava Edmilson naquele ambiente eram suas ideias esquerdistas, na linha marxista-leninista. Às vezes, ele fazia discursos pela manhã, na hora do café. Foi ele que me deu a notícia da queda de Allende, amargurado. Era um sonhador, poeta como seu conterrâneo João do Vale, chegou a São Luís nas asas do vento leste disposto a vencer os desafios da vida. E venceu.

Por ter publicado um livrinho de poemas, A dança da besta fera, ele foi convidado a comparecer à Polícia Federal. O livro foi impresso em mimeógrafo, com pouquíssimos exemplares. Para minha surpresa, ele me colocou como revisor. 

Em algumas ocasiões, a Polícia Federal rondava a nossa casa, que chamávamos de A Casa da Liberdade. Vistos de hoje, esses fatos parecem um absurdo, considerando que o “inimigo” era um cabeludo sem eira nem beira, calçando um chinelo velho de couro e vestindo umas roupas surradas.

Certa vez, Edmilson desapareceu. Ficamos preocupados, supondo que ele havia sido capturado pela polícia. Procuramos ajuda do deputado Freitas Diniz. No dia seguinte, ele apareceu rindo, como sempre, dizendo que estava na casa de uma amiga.

Depois de formado, ele foi para São Paulo, onde continuou seus estudos, doutorando-se em Economia, hoje com pós-graduação, tudo para fortalecer suas convicções ideológicas.

Em São Paulo, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro – PCB, o chamado Partidão, realizando, assim, seu grande sonho, e hoje ocupa o cargo de Secretário-Geral.

Eis que agora, para minha surpresa, Edmilson Silva Costa aparece-me como candidato à presidência da República. Fico imaginando como seria ele ocupando um cargo tão importante, com sua cabeça cheia de planos acumulados por tantos anos. Teria condições de pôr em prática seus ideais?


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