Aos 90 anos, Ignácio de Loyola Brandão reflete sobre literatura, ditadura e o futuro
Escritor relembra a criação de obras marcantes durante a ditadura, reflete sobre o papel da literatura na sociedade e fala do novo livro Risco de queda.
O jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão, um dos mais importantes nomes da literatura brasileira contemporânea, é o entrevistado do oitavo episódio do podcast Redemoinhos, produzido e apresentado pelo jornalista e poeta Félix Alberto Lima. A conversa está disponível no portal Imirante a partir desta sexta, 31 de julho, data em que o autor celebra 90 anos de idade, reunindo memórias, reflexões sobre literatura, política, meio ambiente e o papel do escritor diante dos desafios do seu tempo.
Ao longo da entrevista, Loyola revisita o período da ditadura militar brasileira e recorda como a literatura passou a ocupar um lugar central em sua vida em meio à censura. Segundo ele, jornalistas, publicitários e intelectuais buscavam constantemente maneiras de driblar os mecanismos de repressão impostos pelo regime.
Foi desse ambiente que nasceu um de seus livros mais emblemáticos, Zero, romance considerado um marco da literatura experimental brasileira. O escritor conta que a obra surgiu a partir do material descartado pelos censores nas redações de jornal.
"Peguei cada texto daquele e fui transformando num episódio; não sabia onde aquilo iria dar; e juntei tudo com as coisas que eu observava nas ruas, nos táxis; fiz então um livro fragmentado, na base da experimentação; uma forma até então completamente nova na literatura brasileira."
Outro momento marcante da conversa é dedicado ao romance Não verás país nenhum, publicado em 1981 e reconhecido como uma das principais distopias da literatura nacional. Loyola explica que o livro nasceu muito antes de a crise climática ganhar espaço no debate público e foi resultado de uma extensa pesquisa baseada em milhares de reportagens.
O autor revela que reuniu uma grande quantidade recortes de jornais para compreender a dimensão dos problemas ambientais que começavam a se desenhar no planeta. "Eu não tinha ainda uma consciência ambiental, mas fui mergulhando na história intuitivamente", afirma, destacando que a ficção acabou antecipando discussões que hoje ocupam o centro das preocupações mundiais.
Na entrevista, Loyola também relembra os dois anos em que viveu na Alemanha e a proximidade que manteve com integrantes do Partido Verde alemão, experiência que ampliou sua percepção sobre as questões ambientais – e resultou na publicação do livro O verde violentou o muro. Para ele, o país foi um dos pioneiros na construção desse debate, muito antes de o tema ganhar relevância internacional.
Ao refletir sobre a função da literatura, o escritor defende que os livros continuam sendo instrumentos fundamentais para provocar reflexões e pautar os grandes temas da humanidade. Para Loyola, escrever é um compromisso permanente com a transformação da sociedade.
"O escritor quer transformar o mundo em uma coisa melhor. A gente quer que o ser humano sobreviva."
Durante a conversa, o autor também comenta o significado dos prêmios literários e do reconhecimento conquistado ao longo de décadas de carreira. Embora considere as homenagens importantes, afirma que elas jamais podem ser o objetivo principal de quem escreve.
Segundo ele, os prêmios oferecem "uma alegria de que o seu trabalho está sendo compreendido, e isso é bom". E completa: "Vaidade, cada um tem a sua. Quando vem um prêmio, ótimo. Quando não vem, você tem de continuar."
A entrevista aborda ainda o lançamento de Risco de queda, seu mais recente livro, prefaciado pelo escritor português Valter Hugo Mãe. Loyola explica que o título nasceu de uma experiência vivida durante uma internação hospitalar, quando certos pacientes, idosos principalmente, recebem uma pulseira de alerta de risco de queda. A expressão acabou se transformando em metáfora da condição humana, da fragilidade do envelhecimento e das incertezas do mundo contemporâneo.
"O título é uma metáfora em relação ao mundo. Os idosos estão sendo devorados pelo mundo digital", observa o escritor ao comentar as transformações impostas pelas novas tecnologias e os desafios enfrentados pelas gerações mais velhas.
Nascido em Araraquara (SP), em 31 de julho de 1936, Ignácio de Loyola Brandão é jornalista, romancista, cronista e contista. Autor de obras fundamentais como Zero, Não verás país nenhum, Bebel que a cidade comeu e O beijo não vem da Boca, recebeu alguns dos mais importantes prêmios literários do país, entre eles o Jabuti, e ocupa desde 2023 a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras.
O Redemoinhos é um podcast de ideias, cultura, artes e comportamento produzido pelo portal Imirante.com e apresentado por Félix Alberto Lima. Ao longo de seus episódios, o programa já recebeu convidados como José Luís Peixoto, Eric Nepomuceno, Valter Hugo Mãe e Suzana Vargas, reunindo alguns dos principais nomes da literatura e do pensamento contemporâneo.
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