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COLUNA
Gilberto Costa
Gilberto Costa é psicólogo e pesquisador em Saúde Coletiva. É professor universitário na UNDB.
Gilberto Costa

A dor tem CEP: saúde mental e colonialismo interno no Maranhão

A luta pela saúde mental é, antes de tudo, uma luta por justiça social.

Gilberto Costa

Recentemente, o Governo do Maranhão anunciou, com justa celebração, a expansão da rede de atendimento psiquiátrico para municípios do interior, como Colinas e Pinheiro. A iniciativa, que visa descentralizar o cuidado em saúde mental, é um passo inegavelmente importante. No entanto, para que a análise não se esgote no aplauso superficial, é preciso perguntar: de que saúde mental estamos falando? E para quem?

Quando olhamos para a realidade maranhense através de uma lente crítica, a distribuição de recursos e, consequentemente, de bem-estar, revela um mapa de desigualdades profundas. Não se trata de uma falha pontual, mas de um projeto histórico. O sociólogo mexicano Pablo González Casanova, na década de 1960, cunhou um termo que parece ter sido pensado para descrever nossa estrutura: colonialismo interno. Trata-se da replicação, dentro de um mesmo país, da lógica de exploração e dominação que uma metrópole exerce sobre sua colônia.

No Maranhão, essa dinâmica é brutalmente visível. São Luís, com um dos maiores IDHs do estado (0,768), funciona como a "metrópole" interna, concentrando não apenas recursos econômicos, mas também simbólicos. Enquanto isso, municípios de territórios como a Baixada Maranhense, que registram alguns dos piores indicadores sociais do Brasil (63,8% de proporção de pobres), representam a "colônia" historicamente desassistida.

É nesse abismo que a “saúde mental adoece”. Não por uma fragilidade individual, mas como um sintoma da violência estrutural. O psiquiatra e filósofo Frantz Fanon, em "Os Condenados da Terra", foi categórico ao afirmar que o sistema colonial é, em si, um produtor de sofrimento psíquico. Para Fanon, a desumanização e a negação da identidade do colonizado geram um "mal-estar" que não pode ser reduzido a um diagnóstico psiquiátrico convencional.

Como, então, podemos falar em "saúde mental" em áreas de extrema vulnerabilidade social sem antes falar em saneamento básico, em renda, em acesso à educação? A tristeza de uma mãe que não tem o que dar de comer a seu filho não é, a rigor, um quadro de depressão a ser medicalizado. É uma resposta humana e saudável a uma realidade inaceitável. Patologizar essa dor é o ápice do cinismo: é culpar o indivíduo pela doença que o sistema produz.

Os números são um soco no estômago. O Maranhão tem a menor taxa de psicólogos por habitante do Brasil (0,69 por mil) e a menor da rede pública no Nordeste (18,5 por 100 mil). Pior: 57% desses profissionais estão concentrados na Grande Ilha. A quem serve, então, a psicologia no estado? A quem tem acesso à "metrópole" e pode pagar por um cuidado que ainda é visto como artigo de luxo.

Os CAPS Itinerantes e a descentralização são avanços, mas correm o risco de se tornarem meros paliativos se não forem acompanhados de uma crítica radical à estrutura que produz o adoecimento. É preciso ter a coragem de dizer o óbvio: em um território marcado pelo colonialismo interno, a luta pela saúde mental é, antes de tudo, uma luta por justiça social. É a luta pelo direito de existir com dignidade, independentemente do CEP.


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