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COLUNA
Gilberto Costa
Gilberto Costa é psicólogo e pesquisador em Saúde Coletiva. É professor universitário na UNDB.
Gilberto Costa

Por uma Psicologia Baseada em Existência

A psicologia se propôs a uma tarefa monumental: decifrar o labirinto da experiência humana.

Gilberto Costa

Atualizada em 23/03/2026 às 17h45

A psicologia é uma ciência jovem, quase uma recém-nascida se comparada à filosofia, sua mãe, ou à medicina, sua prima. Em pouco mais de um século, ela se propôs a uma tarefa monumental: decifrar o labirinto da experiência humana. E por isso, ela se espalhou por muitos lugares. Você a encontra nas escolas, tentando entender como aprendemos; nas empresas, mediando relações de trabalho; no sistema de justiça, avaliando comportamentos; e nas políticas públicas, ajudando a construir uma sociedade mais justa.

Dentro desse universo vasto, há um campo que talvez seja o mais conhecido, o mais retratado nos filmes e livros: a psicologia clínica. E dentro dela, uma de suas ferramentas mais potentes, a psicoterapia. É nesse espaço íntimo, o do encontro entre duas pessoas dispostas a olhar para a dor e a angústia, que muito da imagem da psicologia se construiu.

Mas é justamente nesse momento de maior vulnerabilidade, quando alguém decide buscar essa escuta especializada, que a confusão se instala. Você já se sentiu perdido ao procurar um psicoterapeuta? Entre tantas abordagens com nomes complexos como psicanálise, TCC, Gestalt, e ofertas de "terapias" que prometem curas milagrosas, como saber em quem ou em qual confiar? A angústia é legítima. Tanto que, em agosto de 2025, o Senado Federal debateu a regulamentação da psicoterapia, numa tentativa de proteger a sociedade de práticas sem fundamento.

Nesse cenário, surge com força o movimento das Práticas Baseadas em Evidências (PBE). A ideia, em sua origem, é impecável. Defende que a boa psicologia deve se apoiar em um tripé: a melhor pesquisa científica disponível, a experiência do terapeuta e, fundamentalmente, as características e valores de quem busca ajuda. É um chamado à responsabilidade, um contraponto necessário ao charlatanismo que infesta o campo da saúde mental.

Como professor, pesquisador e psicólogo, defendo o rigor. Acredito que quem procura cuidado merece mais do que o "achismo”, merece também, um tratamento embasado. No entanto, não podemos ser ingênuos. É preciso perguntar: o que se esconde por trás do ‘padrão ouro’ da "ciência"?

Com o tempo, percebi que o discurso da PBE, embora bem-intencionado, foi sendo capturado por uma lógica de mercado (e lá vou eu mais uma vez...). As "incubadoras acadêmicas" (grandes centros de pesquisa, majoritariamente no eixo Sul-Sudeste e no Norte Global) passaram a ditar o que é e o que não é "ciência". Quem produz a "evidência" detém o poder de certificar o que é uma prática psicológica válida.

O que acontece, então? A psicologia corre o risco de virar uma franquia. Abordagens terapêuticas são transformadas em "produtos" com selo de qualidade, e nós, psicólogas e psicólogos, somos pressionados a consumir uma infinidade de cursos, especializações e certificações para nos mantermos "competitivos". A formação, que deveria ser um espaço de reflexão crítica, torna-se uma esteira de produção de "técnicos" que aplicam manuais.

Essa lógica cria uma hierarquia perversa e desonesta. Práticas comunitárias, culturalmente sensíveis e fundamentais em contextos como o nosso, no Maranhão, acabam invalidadas por não se encaixarem nos moldes dos ensaios clínicos randomizados. A sabedoria que brota da escuta atenta do nosso povo, da nossa realidade, é descartada como "não científica". O poder curativo de um círculo de Tambor de Crioula, a elaboração do luto na encenação do Bumba Meu Boi, o acolhimento de um terreiro de Tambor de Mina ou o cuidado de uma benzedeira não podem ser medidos com os mesmos instrumentos que medem a eficácia de um “modelo cognitivo da depressão”, por exemplo. São sistemas de saúde mental legítimos, que sustentam comunidades há séculos, mas que o mercado da "ciência" ainda ignora.

O paradoxo é cruel. Imagina só, ao tentar fugir do charlatanismo dos "cursos de fim de semana", criamos um mercado, mais sofisticado e com verniz acadêmico, mas igualmente predatório. Um mercado que vende a promessa de legitimidade científica a preços altos, aprofundando a desigualdade dentro da própria profissão e fora dela.

Significa, então, descartar a ciência? De forma alguma. O caminho é o da consciência crítica. É entender que a ciência não é neutra; ela é produzida por pessoas, dentro de instituições, com interesses quase declarado. É defender uma ciência que sirva à emancipação, e não ao mercado.

É por isso que proponho um deslocamento de olhar. Um convite para pensarmos não apenas em Práticas Baseadas em Evidências, mas em uma Psicologia Baseada em Existência. Uma psicologia que, sem renunciar ao rigor, recoloca a pessoa no centro. Que entende que, antes de qualquer evidência, há uma existência singular, com sua história, sua cultura, seu sotaque e sua dor.

Ao procurar um profissional, continue perguntando sobre sua formação. Mas vá além. Pergunte como ele integra o conhecimento com a sua vida. Desconfie de promessas fáceis e de quem se apresenta como “dono da verdade”, seja ela mística ou "científica".

A boa psicoterapia não é um produto de prateleira. É um encontro. Um encontro que, sim, deve ser guiado pelo melhor conhecimento que temos, mas que só se torna transformador quando é atravessado pela escuta, pelo afeto e pelo respeito à complexidade de ser quem se é. No fim das contas, a melhor terapia é aquela que une ciência e existência.


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