Família Enlatada, Mimimi Seletivo e o Catecismo das Bolhas
Carnaval, família enlatada e bolhas ideológicas: quando liberdade e igualdade viram conveniência, a realidade entra na avenida e decide o desfile.
Desde que me entendo por gente, além de festa, Carnaval sempre foi também tribunal, palco e ringue. O Escândalo de estimação é um personagem tão presente quanto Pierrots, Colombinas e as atualmente canceladas figuras do Índio e da “Nega Maluca”. Fato é que o apocalipse pailleté deste ano se apresentou sob a fantasia da célebre “família em conserva” e, tão logo sambou na avenida, varreu para o esquecimento tudo o mais. A onipresente Virgínia desgostou da atenção surrupiada, há quem diga.
Não há nada de novo nisso. Nunca há nada de novo em nada, aliás. Séculos antes de a Sapucaí se consolidar como tribunal travestido de desfile – que, de popular, não tem nada, diga-se –, o nosso carnavalesco Dom Quixote já dizia a Sancho: “A liberdade é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens; [...] pela liberdade, assim como pela honra, se pode e se deve arriscar a vida.” E, com menos pluma e mais osso, arrematava: “Feliz daquele a quem o céu deu um pedaço de pão sem que tenha obrigação de agradecê-lo a outro que não ao próprio céu.”
Talvez não houvesse purpurina no tempo de Cervantes. Certo é que dela Dom Quixote não falava. Falava de custo. Falava de dependência moral. O que para Quixote era cativeiro moral, hoje virou dependência tribal. Ninguém quer dever favores, mas todos se submetem a dever fidelidade à própria bolha. A liberdade é celebrada até o momento em que ameaça o aplauso do grupo.
Cheguei onde queria. É hora de mexer nas duas santas mais milagreiras da religião pós-moderna: Santa Direita e Santa Esquerda. O risco de heresia é tamanho que até a ordem dos nomes rende excomunhão sumária. Uni-duni-tê... Comecemos por você.
Comecemos por quem mais fala em liberdade como cláusula pétrea: Santa Direita. O nome nasceu na Revolução Francesa, da posição ocupada na Assembleia. À direita, os que temiam o ímpeto excessivo da revolução e buscavam conter certos desdobramentos. Com o tempo, a defesa da liberdade individual e econômica tornou-se seu estandarte mais visível. O primeiro mandamento passou a ser claro: liberdade acima de quase tudo; igualdade, desde que não a ameace. Matizes à parte, o vetor simbólico do dito pensamento de direita, até hoje, é a liberdade.
Do outro lado da mesa estavam os que queriam avançar, aprofundar e transformar ainda mais com a Revolução. A esquerda consolidou-se como herdeira desse impulso e, com o tempo, elevou a igualdade ao altar principal.
Desde então, a política moderna oscila entre esses dois polos. Diante de seus asseclas mais emocionados, igualdade e liberdade parecem rivais inconciliáveis, quando, na verdade, o equilíbrio democrático surge da tensão permanente entre elas.
Voltando às estripulias de Momo e a “lata de conserva”, ambos pareceram esquecer o próprio catecismo. Se a direita tem na liberdade seu vetor principal, não pode se dizer ofendida quando essa mesma liberdade é exercida contra seus símbolos, sobretudo quando não há violação à lei, mas apenas expressão em seu estado cru e puro – ainda que de mau gosto.
Aliás, quando se fala em liberdade, a direita brasileira costuma mirar na tradição americana, onde a proteção à liberdade de expressão é notoriamente ampla. Antonin Scalia, juiz conservador da Suprema Corte dos Estados Unidos, sintetizou esse espírito no célebre aforismo “estúpido, mas constitucional”. Cadê a coerência?
Liberdade de expressão implica aceitar que todos têm o direito de dizer tolices. Defender a liberdade é reconhecer que o primeiro direito é o de ser estúpido – e de propalar estupidezes aos quatro ventos. É suportar isso sem pedir silenciamento travestido de sensibilidade. Sem censura emocional (ou “mimimi”, como os próprios costumam dizer). Caso contrário, não se tem liberdade, mas conveniência.
A Santa Esquerda e seu dogma da igualdade tampouco saem ilesos. Se tudo pode ser lido como estrutura de opressão, então se precisa explicar por que determinadas manifestações artísticas são prontamente classificadas como racismo, misoginia e homofobia, enquanto outras – igualmente ácidas – são defendidas como crítica legítima ou liberdade estética. A igualdade é seletiva?
Imagine uma escola de samba que desfilasse a alegoria “Compre sua identidade”, com um punhado de ícones da esquerda embalados a vácuo sob o rótulo “Uso exclusivo da virtude”. Seria lido como liberdade estética ou como ataque estrutural? Provavelmente ganharia algum “ismo”.
Se enlatar a família conservadora é apresentado como exercício legítimo de crítica, então o discurso de proteção a símbolos e identidades não pode ser aplicado seletivamente, conforme quem seja o potencial melindrado. Não há igualdade quando se decide, a cada caso, quem pode ser ridicularizado e quem deve ser preservado.
E se a liberdade não pode ser absoluta, a igualdade também não pode ser instrumento circunstancial. Do contrário, deixa de ser princípio e se transforma em conveniência ideológica.
Talvez o velho cavaleiro da Mancha estivesse certo. A maior prisão é a obrigação de agradar, e não o cativeiro em si. Enquanto liberdade e igualdade forem usadas como rótulos de conveniência, continuaremos a desfilar nossos próprios princípios em carros alegóricos e a nos indignar seletivamente com eles.
Por fim, vale lembrar que, no mesmo capítulo em que fez o discurso sobre a liberdade, Dom Quixote termina caído na estrada, atropelado por touros que atravessam o campo sem lhe dar atenção. Talvez Cervantes já soubesse que discursos inflamados encantam plateias, mas quem decide o fim do desfile é uma ala indisciplinada chamada realidade. No fim, direita e esquerda não fracassam por falta de discurso, mas por falta de compromisso com a realidade que existe além de suas próprias bolhas.
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