Caso Nina Rodrigues e o cancelamento retroativo
A troca do nome do Hospital Nina Rodrigues expõe o anacronismo moral: julgar mortos é fácil. Difícil é pensar historicamente e reconhecer a própria cegueira.
O tempo público de 2026 começou: confunde-se e condena-se. Neste janeiro, uma decisão da justiça maranhense capturou o tempo. O Judiciário determinou que o Hospital Nina Rodrigues mudasse de nome. Motivo: racismo. O decisivo é o horizonte, não o episódio, porque o fenômeno é maior do que o evento.
O episódio lembrou-me Sartre e seu Huis clos, ou “Entre quatro paredes”, obra que popularizou a frase “o inferno são os outros”. Ou, já que é 2026, talvez seja melhor usar “engajou”. Na peça, Sartre encena três personagens condenados a se verem apenas pelo olhar alheio, presos num jogo de acusações mútuas e incessantes, desejos frustrados e pequenas vinganças morais. Nenhum deles suporta o próprio fracasso. Todos precisam do outro. Como espelho e como álibi.
Nesse desgaste contínuo, Garcin – escritor que queria ser herói, mas era covarde –, diz a famosa frase. O inferno não é o fogo em si, mas o julgamento permanente. Aqui a conexão com “O Nina”: quando o presente se transforma em tribunal moral, julga-se o passado com severidade absoluta, mas a si mesmo com indulgência automática.
Há sempre um certo conforto em julgar os mortos. Não recorrem. Não replicam. Não são entrevistados... São os réus perfeitos para o indulgente tribunal presenteísta, um foro moral sumário em que a sentença vem antes do processo e a virtude dispensa qualquer análise probatória.
A justificativa da condenação de Nina Rodrigues, que quer que “O Nina” deixe de ser “O Nina”, é o fato de que os escritos do homenageado conteriam ideias hoje reconhecidas como racistas. O rápido veredito foi higienizado e satisfeito consigo mesmo. A história, mais uma vez, foi chamada ao banco dos réus e algemada sem direito à contextualização.
Discordo frontalmente da decisão. Não porque negue o conteúdo problemático, com as lentes de hoje, de diversos textos de Nina Rodrigues. Negá-lo seria até infantil. Discordo, contudo, porque acredito que julgar o passado com os óculos morais do presente talvez seja a mais sofisticada forma de ignorância histórica.
Essa modalidade elegante de autoritarismo histórico, como outros revisionismos, ignora o fato de que os escritos de Nina Rodrigues encarnavam o tempo de fins do século XIX e início do século XX. Tempo de positivismo, evolucionismo social, teorias raciais. Hoje, tudo superado, mas que não circulavam à margem da ciência da época. O oposto: era discurso dominante, inclusive, em diversas universidades europeias prestigiadas.
O núcleo do problema não era um desvio individual, mas um paradigma científico inteiro. Nesse contexto, a indulgência automática dos Garcins contemporâneos os impede refletir sobre a seguinte questão: quais paradigmas de hoje serão considerados erros históricos pelas lentes do amanhã? Virtuosos que somos, aceitaremos uma condenação sem direito de defesa pelo tribunal do presente que será instaurado lá no futuro?
Seria imperito um médico do século XIX por não prescrever penicilina? Ela sequer existia. Esse é o ponto nevrálgico. Por falar em nervos, penicilina em excesso, neurotóxica que é, causa delírios!
Nos mares em que normalmente navego, do Direito Penal, há uma ideia elementar: a de legalidade. É o “começo de tudo” do Direito Penal, tanto que está lá, simples e elegante, no primeiro artigo do Código Penal: “Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.” É o princípio basilar do sistema penal. “Um lacre!”, na linguagem dos membros do tribunal do presente. Esse princípio traz a ideia de que, para alguém ser culpabilizado, precisa possuir consciência normativa. E isso só é possível se a lei é anterior ao fato praticado. Como se é consciente de uma proibição que não existe?
Fora do Direito, porém, o prazer do retrocesso foi redescoberto. Condenar o passado, sem lhe dar chance de ser ouvido e defender-se, agora virou justiça. O nome disso é anacronismo moral – aplicar valores, categorias, sensibilidades contemporâneas a contextos que operavam sob outros horizontes éticos, científicos e culturais. Erro metodológico crasso. Erro civilizatório, no caso do julgamento de Nina Rodrigues – e de outros que certamente virão.
Caso isso seja levado a sério, o efeito será devastador. Metade da história do Ocidente teria de ser apagada. Milhares de bibliotecas riscadas. Universidades rebatizadas. Cursos interditados. Tradições desmontadas. Aliás, esse revisionismo histórico é, no longo prazo, absolutamente incompatível com qualquer tradição. É, de fato, o que se parece querer quando se diz que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Até São Luís, nomeada em homenagem ao absolutista Luís XIII, teria de mudar de nome.
Ficam as perguntas: Aristóteles? Escravocrata. Platão? Eugenista e machista. Kant, Hegel e Hume? Racistas. (E amigos do Nina, se duvidar...) Freud? Machista e homofóbico. Nietzsche, Jung e Heidegger? Nazistas. Queime-se e apague-se tudo!
Como se apagar nomes combatesse o racismo. Não combate, apenas impede que compreendamos como ele foi construído científica, política e culturalmente. Somente se combate o que se conhece. Crítica exige memória. Sem memória, somente há moralismo. Moralismo não educa, apenas sinaliza virtude.
É esse o traço mais inquietante da nossa época: vivemos uma liturgia pública de pureza, em que o erro do passado não é explicado, mas exorcizado; não é estudado, mas apagado. O réu não é absolvido nem condenado. É silenciado. Cancelado. Sem defesa.
Renomear “O Nina” não torna a sociedade menos racista, mas menos capaz de pensar historicamente. Quem é incapaz de pensar historicamente repete os mesmos erros convencido de sua superioridade moral. Ignorância muito mais sofisticada, retórica e perigosa.
Nina Rodrigues foi psiquiatra, professor e antropólogo. Pioneiro. Fundou a antropologia criminal brasileira. Seus escritos eram científicos segundo o seu tempo. Errados? Sim! À luz do hoje! Mas, foi justamente a crítica histórica desses erros que permitiu sua superação.
O progresso não nasce do apagamento do passado, mas do enfrentamento crítico de suas sombras. Talvez seja isso o que mais nos falta – menos tribunais morais e mais coragem intelectual para olhar a história sem ódio, mas sem complacência. Julgar os outros com severidade, mas sempre com indulgência automática diante de si mesmo e dos seus fracassos e frustrações é para aqueles que adoram propalar que “o inferno são os outros.”
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