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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Cantaria

A alegria, quando é verdadeira, merece sempre prosperar.

Kécio Rabelo

Nas ruas estreitas do centro histórico, entre os casarios coloniais que guardam séculos de vento e memória, a festa parece nascer do próprio chão de cantaria, como se cada pedra tivesse aprendido, com o tempo, a bater tambor.

O carnaval de São Luís não chega: ele brota das pedras.

O fofão aparece primeiro. Sempre aparece. Colorido, saltitante, meio assustador e totalmente querido, atravessa a Rua da Estrela, subindo e descendo as escadarias da Rua do Giz, com aquele jeito de quem não pede licença para existir. A máscara exagerada, o corpo vestido de chita, o chocalho que anuncia sua passagem — ele não dança, ele provoca o riso. É como se trouxesse, no próprio corpo, o espírito brincante da cidade.

Logo atrás vem a Casinha da Roça, cortejando as ruas íngremes da Madre Deus, com seu cordão de personagens, cantorias e lembranças de um Maranhão profundo: quintais, rezas, fogão a lenha e promessas feitas aos santos em noites de lua cheia. É o interior que desce para a cidade, é a roça que entra no asfalto e transforma a rua em terreiro de memória. Quanta vida há nessa dança! Quanta ancestralidade celebrada nesses passos alegres, de pés endurecidos pelo fardo da história.

Mas é carnaval. E, então, tudo se mistura.

O sagrado e o profano se reconhecem no mesmo ritmo. Santos, caboclos, voduns e foliões seguem no mesmo cordão.

Há quem dance com a imagem de São Benedito no peito e há quem balance o corpo como se a única fé possível fosse a do tambor. E ninguém estranha. Porque, no Maranhão, o carnaval não expulsa o sagrado: ele o convida para dançar. O terreiro é a alegria, e o ingresso é o sorriso num rosto esbranquiçado de maisena.

Os azulejos azuis assistem de cima, silenciosos, enquanto a multidão avança pelas ruas. As pedras de cantaria, que um dia sentiram o peso de correntes e o ranger de navios cheios de dor, hoje vibram com passos leves, coloridos, livres. Onde antes houve sofrimento, agora há riso. Onde antes o mar trouxe lágrimas, hoje a cidade devolve ao mundo sua música, cantos de encantaria em versos de liberdade.

É como se cada passo de dança fosse uma pequena redenção da história.

De repente, o céu escurece. Uma nuvem grossa se forma sobre os telhados.

E São Pedro, que deve ter ouvido a batucada lá de cima, resolve participar. Não manda chuva como castigo, mas como confete. As gotas caem como serpentinas de água, os trovões batem como surdos gigantes no fundo da bateria. E ninguém corre. Ao contrário: o povo ri, dança mais, abre os braços para o céu. Sobe aos céus a prece da alegria, a reza da vida que vibra e sorri, como nos lembra Suassuna, na boca de João Grilo: “Quem gosta de tristeza é o diabo”.

Porque quem entende o carnaval sabe: ele não dura para sempre.

Talvez seja por isso que a alegria, nesses dias, ganhe outro peso.

Ela deixa de ser distração e vira urgência.

Cada música precisa ser cantada como se fosse a última.

Cada abraço, o primeiro.

Cada dança, uma pequena vitória contra o tempo.

O fofão segue pulando pela rua, a Casinha da Roça vai se afastando devagar, os tambores continuam batendo, e a chuva de São Pedro se mistura ao suor dos foliões. Entre santos e serpentinas, entre rezas e gargalhadas, a cidade inteira parece concordar em silêncio:

O carnaval passa.

Resolvemos todos os problemas? É claro que não.

Mas a alegria, quando é verdadeira, merece sempre prosperar.


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