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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Filas e falas: a cena que ficou

Como quase sempre acontece, o problema se resolveu rápido. Mas o estrago já estava feito.

Kécio Rabelo

A fila do terminal para pagar o estacionamento serpenteava pelo corredor do shopping. Pessoas de pé, sacolas nos braços, celulares nas mãos, o cansaço coletivo de um fim de dia que já pede silêncio. Antes da cancela, tudo ainda era espera. E foi justamente nesse intervalo banal — aparentemente inofensivo — que o conflito começou. Não com gritos, mas com a ausência de um pequeno bilhete.

— Você pegou o ticket? — perguntou o marido, num tom em que a pergunta já vinha contaminada pela acusação.

Ela abriu a bolsa. Vasculhou compartimentos. Tentou impor ordem ao pequeno caos de papéis, chaves e objetos que carregava. O silêncio que se instalou não era vazio. Era denso. Cheio de coisas antigas, de impaciências acumuladas, de diálogos nunca feitos.

— Eu coloquei na bolsa… eu acho.

O “acho” foi o estopim. A busca virou censura. A censura virou ataque. As palavras ganharam dureza, perderam cuidado. Já não se falava mais do ticket, mas de falhas antigas, de erros recorrentes, de uma hierarquia imposta pelo tom de voz. Tudo dito em público. Tudo ouvido por estranhos. Todos ainda de pé. Todos expostos.

Vale mesmo a pena transformar um esquecimento ou distração pontual em humilhação?

O filho mais velho, cerca de oito anos, assistia em silêncio. Não interferia. Absorvia. No carrinho, o bebê permanecia quieto, sem compreender as palavras, mas totalmente imerso no clima. Mesmo sem vocabulário, o corpo entende. O ambiente ensina. O gesto educa.

Quantas vezes esquecemos que alguém está aprendendo enquanto falamos?
Quantas vezes ignoramos que nossas reações também escrevem o caráter de quem nos observa?

A conversa que deveria ter acontecido em outro tempo — no espaço íntimo, na escuta, no respeito — foi adiada, empurrada, negligenciada. E tudo o que não é cuidado cresce torto. Ganha volume. Torna-se cena pública. Um conflito privado transformado em espetáculo involuntário, onde o constrangimento coletivo convivia com a pressa de quem preferia não ver.

O ticket apareceu, amassado, no fundo da bolsa. A fila andou. O pagamento foi feito. Como quase sempre acontece, o problema se resolveu rápido. Mas o estrago já estava feito.

Minutos depois, cheguei ao carro ainda atravessado pela cena. No som tocava aquela música icônica dos Engenheiros do Havaí, insistindo em prolongar a reflexão: “a vida imita o vídeo (…) somos o que podemos ser”. Não era trilha aleatória. Era comentário. Quase um aviso.

Conviver é um exercício diário de ajuste fino. Não há manual. Não há ensaio geral. As relações humanas se constroem no improviso: na fila do shopping, na mesa de casa, no trabalho, nos pequenos atritos que revelam quem somos quando não estamos preparados para sermos vistos.

É nesses instantes que o respeito deixa de ser conceito abstrato e se torna mola — silenciosa, invisível, mas essencial para sustentar o peso do cotidiano.

Respeitar não é concordar. É reconhecer o outro como legítimo, mesmo quando erra, mesmo quando falha, mesmo quando frustra nossas expectativas. Vivemos tempos em que o desacordo virou ofensa, a crítica perdeu delicadeza e a palavra saiu antes da escuta. Julga-se rápido. Fala-se alto. Compreende-se pouco.

E há ainda o peso do olhar.

O olhar dos estranhos na fila.

O olhar do filho que aprende.

O olhar do bebê que sente.

Somos atravessados por esses olhares, mesmo quando fingimos ignorá-los. E, paradoxalmente, quem julga quase nunca conhece o percurso inteiro. Vê o gesto final, mas ignora a história que o antecede.

Talvez o respeito seja hoje o gesto mais radical. Porque ele interrompe a violência cotidiana. Porque impede que o conflito vire humilhação. Porque protege aquilo que ainda está em formação.

No fim, toda cena educa alguém. Mesmo quando achamos que ninguém está prestando atenção. Mesmo quando acreditamos que é só um desabafo. Há sempre alguém aprendendo a ser humano a partir do que vê.

E entre filas, impaciências e palavras lançadas sem cuidado, seguimos perdendo — quase sem perceber — esse instante frágil e precioso da existência que chamamos de vida.


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