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COLUNA
Rogério Moreira Lima
Engenheiro e professor da Uema, é embaixador da Abracopel, especialista da Abee Nacional e diretor da Abtelecom e da AMC.
Rogério Moreira Lima

Descargas atmosféricas e riscos elétricos em multidões

As descargas atmosféricas não negociam com agendas, intenções ou discursos.

Rogério Moreira Lima

 
 

Episódios recentes, amplamente divulgados, envolvendo descargas atmosféricas em áreas com grande concentração de pessoas, recolocam em evidência um tema que ultrapassa fatos isolados e se insere no campo da engenharia, da segurança e do planejamento responsável de atividades em ambientes abertos. Situações dessa natureza evidenciam riscos conhecidos e amplamente estudados quando aglomerações humanas permanecem expostas a condições meteorológicas adversas, sobretudo em locais elevados ou que concentram estruturas metálicas de grande porte.

Áreas naturalmente mais altas apresentam maior suscetibilidade à incidência de descargas atmosféricas. Esse risco é significativamente ampliado quando estruturas verticais metálicas são instaladas nesses ambientes, uma vez que tais elementos alteram o campo elétrico local e podem atuar como captores preferenciais da descarga, oferecendo um caminho de menor impedância para a corrente elétrica. Nessas circunstâncias, o risco coletivo se amplia não apenas no ponto de impacto, mas também em seu entorno imediato.

A forma ramificada do relâmpago decorre diretamente da física do fenômeno. A descarga atmosférica ocorre quando o gradiente de potencial elétrico entre a nuvem e o solo supera a rigidez dielétrica do ar, que deixa de atuar como isolante e passa a permitir a condução da corrente elétrica. O ar se ioniza e o canal da descarga se estabelece de maneira progressiva e irregular, seguindo sucessivos caminhos de menor resistência elétrica. A percepção do clarão antes do trovão decorre do fato de a luz se propagar a aproximadamente 300 milhões de metros por segundo, enquanto o som se desloca no ar a cerca de 340 metros por segundo.

Para compreender os efeitos desse fenômeno sobre as pessoas, é importante recordar um princípio elementar da engenharia elétrica. A circulação de corrente elétrica só ocorre quando existe diferença de potencial. Por essa razão, por exemplo, pássaros pousados sobre um único condutor de uma rede elétrica não sofrem choque. Quando um raio atinge o solo, uma estrutura ou um sistema de aterramento, uma corrente de elevadíssima intensidade se espalha radialmente pelo terreno, criando gradientes de potencial tanto no solo quanto nas partes metálicas conectadas.

A diferença de potencial entre dois pontos do solo separados aproximadamente pela distância de um passo humano é denominada tensão de passo. Quando uma pessoa se encontra com os pés apoiados em pontos submetidos a potenciais distintos, essa diferença força a circulação de corrente elétrica através do corpo, podendo provocar choque elétrico mesmo sem contato direto com o ponto atingido. De forma complementar, quando há diferença de potencial entre uma parte metálica momentaneamente energizada pela descarga atmosférica e o solo onde a pessoa se encontra, ocorre a chamada tensão de toque, situação em que a corrente entra no corpo pelo ponto de contato e se fecha pelo solo.

Em ambientes que reúnem estruturas metálicas e elevada densidade de público, é tecnicamente plausível que choques elétricos resultem da combinação desses dois fenômenos. A corrente da descarga atmosférica, ao percorrer uma estrutura metálica, eleva seu potencial em relação ao solo, favorecendo a ocorrência de tensão de toque, enquanto o espalhamento radial da corrente pelo terreno cria diferenças de potencial entre pontos próximos, caracterizando a tensão de passo. A sobreposição desses efeitos aumenta significativamente o risco de choque elétrico, sobretudo em solos úmidos e em condições típicas de tempestades.

Para reduzir o risco associado à tensão de passo, a orientação técnica consagrada é evitar deslocamentos amplos e, quando inevitável, movimentar-se mantendo os pés juntos, reduzindo a diferença de potencial entre os pontos de contato com o solo. Da mesma forma, recomenda-se evitar tocar ou permanecer próximo a estruturas metálicas como grades, cercas, postes, guindastes ou quaisquer elementos condutores durante tempestades elétricas, uma vez que essas estruturas podem se encontrar momentaneamente energizadas, criando condições para a ocorrência de tensão de toque.

Esses mecanismos são tratados de forma sistemática pela ABNT NBR 5419, norma que estabelece que o risco associado às descargas atmosféricas deve ser avaliado considerando diferentes tipos de perdas potenciais. Entre elas estão o risco de perda de vida humana, o risco de interrupção de serviços ao público, o risco de danos ao patrimônio cultural e o risco de perdas econômicas. A norma deixa claro que o risco não se limita ao ponto exato de impacto da descarga, mas inclui eventos que atinjam estruturas, ocorram em suas proximidades ou afetem pessoas em áreas abertas associadas.

A análise de ocorrências relacionadas a descargas atmosféricas não pode se restringir ao ponto exato do impacto. É tecnicamente indispensável verificar se as estruturas existentes nas proximidades atendem aos requisitos normativos aplicáveis, especialmente aqueles relacionados ao aterramento e à equipotencialização. Pessoas presentes em áreas abertas associadas à estrutura entram no escopo da análise sempre que o risco decorre da existência daquela estrutura. Importa destacar que não existe proteção absoluta contra descargas atmosféricas, uma vez que se trata de um sistema baseado em critérios probabilísticos, considerando a possibilidade de uma descarga atingir uma estrutura, ocorrer em suas proximidades ou incidir sobre linhas e instalações.

As descargas atmosféricas não são fenômenos imprevisíveis ou abstratos. São eventos físicos bem caracterizados, tratados por normas técnicas consolidadas e amplamente aplicadas. A engenharia dispõe de soluções eficazes para a redução de riscos quando o conhecimento técnico é respeitado e incorporado ao planejamento.

As descargas atmosféricas não negociam com agendas, intenções ou discursos. São fenômenos regidos pelas leis da física. Diante de sua magnitude, a proteção possível não está na reação, mas na prevenção, baseada em engenharia, planejamento responsável e respeito às condições meteorológicas. Ignorar esse conhecimento é optar por conviver com riscos que a técnica já sabe como reduzir.


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