EUGES LIMA

1610: Holandeses em São Luís

Sendo assim, embora a presença holandesa no Maranhão seja conhecida pela historiografia oficial entre 1641 a 1644, por ocasião da invasão desses batavos à São Luís.

Euges Lima

Euges Lima é historiador, professor da rede pública estadual e municipal e ex-presidente do IHGM
Euges Lima é historiador, professor da rede pública estadual e municipal e ex-presidente do IHGM (Ipolítica)

Em outubro de 2014, no meu primeiro mandato como presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (2014/2016), recebi um e-mail, enviado ao presidente do IHGM, de um historiador holandês, especialista em Brasil holandês, chamado B. N. Teensma, - autor do livro: “Brasil Holandês: dois manuscritos portugueses sobre a conquista neerlandesa – 1624 e reconquista luso-espanhola – 1625 de Salvador da Bahia no Brasil...” Rio de Janeiro: Editora Index, 1999 - Este pesquisador me alertava sobre a existência de certo manuscrito holandês do século XVII que citava uma viagem à Ilha do Maranhão em 1610, realizada por traficantes (comerciantes) holandeses e que “desde o começo do século passado a Biblioteca Nacional do Brasil no Rio de Janeiro possui o manuscrito dum anônimo roteiro holandês das costas do Brasil, em 1629 composto por HESSEL GERRITSZ, cartógrafo-mor da Companhia das Índias Orientais e Ocidentais em Amsterdam.”

Porém, na conclusão do seu e-mail, o referido historiador, defendia a estranha tese de que a Ilha do Maranhão já era chamada de “HEILIGE LODOWICK: tradução holandesa de SAINT LOUIS = SÃO LUIZ”, desde essa época, e, portanto, era oportuno corrigir a data de fundação da cidade de 1612 para 1610. Este último trecho do e-mail, acerca da fundação da cidade, achei um equívoco e por isso, guardei-o, sem analisá-lo com mais atenção, no entanto, ficou a pulga atrás da orelha. Retornei a seu conteúdo anos depois, em 2020 e embora continuando acreditando ser  equivocada essa teoria, pude perceber que haviam outros aspectos interessantes em seu conteúdo, como a comprovação através de documentos da presença de navegadores holandeses em São Luís já em 1610.

Sendo assim, embora a presença holandesa no Maranhão seja conhecida pela historiografia oficial entre 1641 a 1644, por ocasião da invasão desses batavos à São Luís. Documentos demonstram que décadas antes, traficantes holandeses já tinham estado no Maranhão, até mesmo antes da expedição francesa de 1612, comandadas por Rasilly e Daniel de La Touche. 

A ilha grande do Maranhão em fins do século XVI e início do XVII era um verdadeiro ninho de piratas, traficantes, navegadores e aventureiros europeus, principalmente franceses que andavam por aqui, traficando com os tupinambás as madeiras tintoriais, algodão, pimenta e outros produtos tropicais desde as décadas de 1560/1570. O que não se sabia era que traficantes holandeses também haviam estado por aqui nesse início de século XVII e que deixaram relatos seiscentistas.

Em 1902, a Biblioteca Nacional adquiriu esse precioso e inédito manuscrito holandês organizado por Hessel Gerritsz, geógrafo holandês do século XVII que reuniu uma série de diários e relatos de navegadores holandeses que estiveram nas Antilhas e na Costa Norte do Brasil, entre 1600 e 1629, em particular no Ceará e Maranhão (1610).  

Esses relatos, baseados em diários de bordo desses traficantes e capitães holandeses foram traduzidos em 1907 para o francês e publicados nos Anais da Biblioteca Nacional de N.º 29, no ano de 1907 e nunca foram traduzidos para o português. 

Essa experiência, está registrada em um diário escrito pelo amsterdamês  João Batista  Sijens, onde relata  como foi esses meses na Ilha do Maranhão, comandados pelos capitães traficantes Hendryck Hendrykssen Cop e  Claes Adriaenssen Cluyt. Nesse sentido, veja alguns trechos dos relatos: "[...] Seguiremos em direção ao sudoeste-quarto-oeste e, finalmente, veremos a ilha onde o tráfico ocorre, chamada ilha do Maranhão. [...] Nesta ilha, existem 21 a 22 aldeias, cada uma com um nome específico, muito povoada, a maioria delas 1 ou 2, com cerca de 3 léguas de distância, ligadas por estradas intransitáveis pela floresta [...] Neste local, há um pequeno rio que você pode subir de barco a remo até cerca de 4 léguas. É isso que os franceses os ensinam. Então eles vieram para o continente [...] Quando estamos indo para o sudoeste, existem 4 pontos que vemos para o oeste-quarto-noroeste e para estibordo, e quando estamos no canal Commma, podemos ver esses pontos do noroeste?].”

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