Coluna do Sarney

Amazônia

Sebastião Salgado revela a grandeza da natureza e das civilizações amazônicas, que têm que ser respeitadas e protegidas em sua integridade.

José Sarney

 
 

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Um dos maiores artistas plásticos do mundo é brasileiro: Sebastião Salgado. Sua dimensão ultrapassa a da própria e excepcional produção artística para atingir um universo de paradigma ético de alcance universal e intemporal. 

Grandes, extraordinários artistas plásticos povoam o espaço sensorial da verdadeira poiesis, o ato que permite ao homem criar um ser original, no instante em que nossa liberdade mais se aproxima do Criador. Há uns poucos, no entanto, que levam a expressão além da apreciação estética para nos imergir na dimensão dos questionamentos da verdade e do papel do homem sobre a Terra. Para citar um só, lembro Francisco de Goya e Lucientes, com seus Capricios

 
 

Nesta altíssima companhia estão Sebastião Salgado e sua obra. Eu, como a maior parte do mundo, o descobri quando, depois de anos de pedir autorização para fotografar Serra Pelada, conseguiu, em 1986, fazer as fotos do “formigueiro humano” — lugar-comum tão repetido, mas nem por isso menos verdadeiro —, que revelaram a escala real do que acontecia na gigantesca mina. 

As fotos de Serra Pelada tiveram repercussão universal. Elas eram o registro do “instante decisivo” de seu paradigma, Henri Cartier-Bresson, mas também antropológico, sociológico, econômico, histórico. A um só tempo elas mostravam o homem desumanizado na multidão e a profundeza dos sonhos que se escondiam sob as faces enlameadas. 

Homenageado pelas maiores instituições culturais do mundo — é membro da Academie des Beaux Arts, portanto do Institut de France —, tendo exposto nas mais importantes galerias do mundo, Sebastião — com o apoio de sua mulher, Lélia Wanick — criou o Instituto Terra, para recuperar as terras degradadas adquiridas de sua família no vale do Rio Doce, na Mata Atlântica. Este trabalho é exemplo de esperança na salvação da floresta.

Tivemos grandes amigos comuns: Jorge e Zélia Amado e Napoleão Sabóia. Napoleão, criatura excepcional, grande jornalista maranhense que foi por muitos anos correspondente de grandes jornais brasileiros em Paris, além de um escritor muito original e meu assessor no Planalto, levou-me uma vez ao estúdio de Sebastião. Lá estive também com Jorge e Zélia, no privilégio de ver pelas mãos do grande artista algumas tiragens de fotos feitas nos quatro cantos do mundo, que ele percorreu registrando o homem sob diversos espectros — o trabalho, a emigração, os grupos étnicos. Sebastião mostra que a raça humana é uma só, na pluralidade das etnias e das culturas.

Este ano o Museu do Amanhã expõe, com enorme sucesso de público e até dezembro, mais um trabalho inigualável: o Amazônia. É uma região com que convivo há muitas décadas, desde os primeiros estudos para a criação da Sudam, quando eu era Governador do Maranhão, até os longos anos em que representei o Amapá no Senado Federal. Mas mesmo meus olhos cansados se arregalaram com as fotos de abertura e não se fecharam mais indo de espanto em espanto, na descoberta da natureza numa dimensão que transcende a imaginação e dá a escala verdadeira do que é a região. 

A floresta se perdendo no infinito, os rios de água que correm pelos ares, a chuva que se espalha em cascatas imensuráveis, os platôs das montanhas que se elevam sobre as nuvens e descem em cachoeiras intermináveis, as folhas na sua multidão de variedades, formas e cores que se exibem inclusive na superfície prateada das fotos — e homem, o indígena, retratado em toda a glória da exuberância física e espiritual. As etnias se sucedem para mostrar os povos originários — já não “infinitos no número e diversidade de línguas”, como dizia o Padre Vieira —, não pessoas fisiologicamente diminuídas, mas que exibem a forma muscular e a expressão cultural de quem vive em integração plena com a natureza. 

Sebastião Salgado, em Amazônia, revela a grandeza da natureza e das civilizações amazônicas, que têm que ser respeitadas e protegidas em sua integridade. 

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